terça, 10 de março de 2026

Pesquisa sobre História das Pandemias é desenvolvida na UNIFIO

Publicado em 21 jul 2020 - 10:33:57

           

Em sua pesquisa, o professor Reinéro Lérias apresenta uma cronologia das pandemias já vivenciadas pelo homem, seus desafios e respectivos reflexos na sociedade

 

Rose Pimentel Mader

 

Para muitos, a pandemia causada pelo novo Coronavírus é vista como uma novidade excepcional e singular, mas isso não é verdade. Desde a Antiguidade, o ser humano luta contra as bactérias e vírus que ao longo da história provocaram inúmeras doenças infecciosas com elevado grau de mortalidade. O cenário mundial atual trouxe à tona outros períodos difíceis e trágicos para a Humanidade, que também impuseram rotinas de distanciamento social, com reflexos profundos na vida política, econômica e social da sociedade.

Professor decano do Centro Universitário UNIFIO, Reinero Antonio Lérias, é um dos mais destacados historiadores brasileiros. Segundo ele a pesquisa nasceu com o objetivo de contribuir com a sociedade nesse momento de incertezas e o fez mergulhar num profundo trabalho investigativo sobre a história das pandemias, que inclusive será brevemente publicado em revistas científicas. O pesquisador faz questão de sempre mencionar e agradecer à ex-aluna Elizandra Cristina Marrega, que o apoia na revisão do trabalho.

 

Professor doutor Reinéro Lérias, decano do Centro Universitário UNIFIO

 

A intenção inicial, além de compartilhar seus conhecimentos e sua pesquisa com a comunidade acadêmica, foi de mostrar os desafios enfrentados historicamente pelo homem para vencer momentos como esse que estamos vivendo, nos dias atuais.

Apesar de todos os avanços tecnológicos e conquistas científicas em todas as áreas, especialmente no campo da saúde, o homem, desde sempre, encontrou dificuldades para combater os vírus e prevenir a sociedade das doenças epidemiológicas. Em constantes mutações, os vírus impõem aos cientistas uma busca incessante por tratamentos, procedimentos, remédios e vacinas que nem sempre se mostraram eficazes.

Em sua pesquisa, o professor Reinéro Lérias apresenta uma cronologia das pandemias já vivenciadas pelo homem, seus desafios e respectivos reflexos na sociedade. Segundo ele, milhares e milhares de anos antes de uma das mais célebres pandemias histórias, a denominada “Peste de Atenas”, no Século V a.C., muitas epidemias e pandemias levaram inúmeras vidas humanas.

 

Biblioteca UNIFIO fonte de pesquisas e conhecimentos

 

No Brasil não foi diferente. O Pesquisador concluiu que “a morte em decorrência de vírus, é tão antiga quanto a história do país, a exemplo dos registros do jesuíta José de Anchieta, no ano de 1562, quando informa que perderam-se as vidas milhares de índios e de escravos na cidade do Rio de Janeiro”.

Peste de Atenas (Século V a.C)

Devemos à acuidade e perspicácia de Tucídides, em sua “Guerra do Peloponeso”, um dos maiores registros, senão o maior, a relatar o flagelo que abateu sobre os gregos. Segundo Reinéro Lérias “a clareza das palavras de Tucídides sobre os sintomas e consequências da doença, a possibilitar uma viagem até os trágicos acontecimentos, muito embora, não se saiba até hoje, se em decorrência da varíola ou do tifo, a riqueza de detalhes deste historiador permitiu aos estudiosos desta temática detectar no transcorrer da história uma repetição dos agentes em cena em buscar culpados para tudo, mormente quando se deparam com o inexplicável”.

Peste Negra (Século XIV)

Um outro flagelo abordado na pesquisa foi a denominada Peste Negra, no século XIV. “Embora tenha ocorrido, quase dois mil anos após a Peste de Atenas, também não se sabe da origem. Porém, a busca pelos culpados se repetiu nitidamente: só que agora eram os grandes inimigos dos cristãos, os judeus, que foram acusados de envenenarem as fontes de água potável. Houve uma perseguição implacável em relação a eles, sendo esta, de tal monta, que o número de mortes chegou a ser chamado pelos estudiosos de Holocausto medieval”.

O Pesquisador explica que o desenrolar da Peste Negra engendrou, como no caso de Atenas, crises de toda ordem. Até a famosa Universidade de Montpelier, fundada em 1289, muito reconhecida em toda a Europa de então pelo seu curso de medicina, teve mortos todos os seus médicos residentes, vítimas da peste. “O mesmo aconteceu com a economia que entrou em colapso, sobretudo, no tocante à crise no abastecimento de todos os gêneros, principalmente aqueles de primeira necessidade: alimentos, cujos preços dispararam de tal forma que muitos começaram a passar fome. Assim, até os animais domésticos passaram a ser sacrificados para servirem de alimentação”, explicou.

O Professor Reinéro encontrou uma curiosidade. De acordo com suas pesquisas, “foi desta catástrofe ditada pela Peste Negra, que nasceu a quarentena, iniciada pela trintena. Este expediente tornou-se tão eficaz que perpassou o tempo chegando aos nossos dias”, disse.

Gripe Espanhola (1918-1920)

O trabalho do professor Reinéro destaca ainda a Gripe Espanhola, discorrendo sobre as razões do nome que nada tem a ver com a origem da pandemia, mas sim ao fato de a Espanha tornar-se o centro irradiador das notícias visto que, por ser  um  país neutro na guerra, sua imprensa não sofria censura como a dos demais países. Abordou também, conquanto não se tenha ainda consenso, que a sua origem está ligada aos EUA. O número de mortos neste país reforça esta tese. Muito embora a pandemia tenha se alastrado pelo mundo todo, causando milhões e milhões de mortes em período muito menor que o da Primeira Grande Guerra.

No caso da Gripe Espanhola, o pesquisador do Centro Universitário UNIFIO chamou a atenção para uma questão até hoje sem resposta: a de ter morrido em maioria jovens, entre 20 e 30 anos, e não crianças e idosos, os mais vulneráveis nestes períodos pandêmicos. “Como não poderia deixar de ser, a Gripe Espanhola trouxe em seu bojo um pacote de maldades. As autoridades, buscavam impedir as pessoas de pegarem e utilizarem as roupas dos mortos, com o intuído de impedir a propagação da doença, pois isso aumentava, sobremaneira, a contaminação”. A crise econômico-financeira e a paralização dos transportes e, com ela, a falta de gêneros de primeira necessidade, trouxe em sua esteira aumentos abusivos nos preços e fome.

No Brasil, a pandemia da Gripe Espanhola também gerou um grande impacto. O Professor identificou duas linhas de interpretação sobre a chegada da Gripe Espanhola em nosso país: a da missão médica brasileira enviada à Europa à bordo do navio hospital francês La Plata com o intuito dela prestar ajuda aos soldados que combatiam no front da Primeira Grande Guerra; e a da contaminação e mortes a bordo do transatlântico inglês Demerara, o chamado ‘Navio da Morte”, que após escala em Lisboa, aportou em Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

COVID-19

O Professor Reinéro finaliza seu trabalho, discorrendo sobre o Coronavírus, observa sobre “a massa excessiva de noticiários em toda mídia sobre a COVID-19, com análises que vão do sensacionalismo sem peias, exploração político-ideológica de todos os matizes, algumas fundamentadas, outras nem tanto, à ação desenfreada da corrupção sem limites, tanto de autoridades como de políticos, mesmo diante de tantas mortes por falta de assistência da mais elementar, como a de um simples exame, crise econômico-financeira, desemprego em massa, desrespeitos às normas de distanciamento etc”. O que chama a atenção do pesquisador são “as comparações forçadas sem a mínima constatação de fatos; anacronismos de toda ordem a não ser a do sensacionalismo, para o qual passa a não existir distância temporal, espacial e contextual, importando apenas os possíveis impactos das notícias.

 

Em entrevista, Professor Reinéro Lérias, do Centro Universitário UNIFIO, fala sobre a pesquisa História das Pandemias no Mundo e antecipa algumas informações sobre o trabalho realizado:

Após mergulhar nessa pesquisa histórica sobre as pandemias que conclusão o senhor chegou sobre a relação do homem em relação à ciência?

Prof. Reinéro – Entendo que o homem tenha, inegavelmente, avançado, e muito, no plano científico. Isso não quer dizer, que este apregoado conhecimento a que se propôs, o tenha levado à uma compreensão que possa ser considerada a personificação de uma pretensa verdade. Há uma passagem de uma carta de Ivan Turguêniev e Leon Tolstoi de 1856, que sintetiza bem isso: “as pessoas que se cinzem a sistemas são incapazes de abarcar a verdade inteira e tentam agarrá-la pela cauda; um sistema é como a cauda da verdade, mas a verdade é como um lagarto; deixa-nos a cauda nos dedos e foge, sabendo perfeitamente que lhe crescerá uma nova num abrir e fechar de olhos”.

Em suma, o vírus foi detectado ao que se sabe em 1892 pelo botânico russo Dimitri Tranovsky, ao estudar a doença do mosaico do tabaco que ao certo, ele hiberna no vegetal ou no animal para voltar sempre com mais força em outras pandemias; isso sem se levar em conta se ele não foi produzido em laboratórios.

Transcorridos centenas de anos, apesar de todas as conquistas nas áreas da ciência e tecnologia, vivemos o mesmo dilema? Somos impotentes na guerra contra os vírus?

Prof. Reinéro – Na minha modesta maneira de entender, todos estes avanços científicos acabaram por criar um falso paradigma em relação ao conhecimento. A palavra tecnologia tão utilizada nos dias, advém do termo grego “téchne”, que quer dizer “ser patrão e dispor da própria mente”, e isso não é feito, porquanto quando ela é lançada no contexto social, mesmo que seja objetivando o “bem” do ser humano. Afinal, existem milhares de inextricáveis interesses de toda ordem, sedentos em obter vantagens materiais. Basta ver os escândalos em relação à compra de respiradores em diversos Estados e Municípios, inegavelmente, o mesmo dar-se-á com a vacina.

O ser humano, por mais inteligente que seja, segundo Thomas Sowell, consegue absorver não muito mais que 1% do conhecimento que o cerca, enquanto os outros 99% estão diluídos no corpo social, ou seja, cada um vê sempre segundo seus interesses. Assim, é mais fácil acumular poder do que o conhecimento, este é o “câncer” da espécie humana.

Qual a sua expectativa em relação à cura da COVID-19?

Prof. Reinéro – A cura, sendo bastante objetivo, só virá com a descoberta de uma vacina, que na minha maneira de entender. Aqui na instituição existem professores com maior conhecimento para responder sobre isso nos cursos de Ciências Biológicas, Biomedicina, Farmácia, Enfermagem, entre outros. Porém, entendo que para se chegar à cura há mais obstáculos de ordem econômica-política-ideológica do que óbices de ordem técnica. Há todo um espectro que gera em torno do vírus muito maiores do que ele próprio e seus efeitos deletérios, infelizmente.

Em sua opinião, quais as lições que o homem não aprendeu, ao longo da história, em relação ao combate das doenças?

Prof. Reinéro – A questão seria mais precisa se a colocássemos no futuro do pretérito do indicativo: “o que o homem deveria ter aprendido durante tantas endemias, pandemias, pestes e consortes”. Antes de tudo, a meu ver, é que já era mais que tempo da Humanidade ter aprendido que a apreensão de sua narrativa diante da realidade é limitadíssima. Se dermos uma passada de olhos sobre a quem ele atribuía a culpa no tocante às razões responsáveis pelo surgimento da peste de Atenas, no século V a.C., não diferiu em nada da Peste Negra século XIV; o mesmo ocorrendo com a Gripe Espanhola 1918, repetindo-se agora com a COVID-19. Vivemos em busca de culpados, esquecendo-nos de nós próprios. Independentemente deste vírus ser natural ou não, o que este ser humano, que se julga o mais nobre dentre todos os animais, faz com a natureza?

Há mais semelhanças ou mais diferenças entre as grandes pandemias ao longo da história?

Prof. Reinéro – Essa é outra situação sobre a qual podemos refletir com a pesquisa. É notório que as ciências da saúde, seus instrumentos e suas técnicas avançaram. Contudo, havemos de concordar que tanto no passado quanto agora, nem todos, ou melhor, a maioria da população não tem acesso aos melhores profissionais, equipamentos e tratamentos. Em síntese, há muito mais semelhanças do que se possa imaginar entre as pandemias ao longo da história.

Outras considerações do pesquisador sobre o trabalho

O pesquisador destaca alguns pontos considerados de extrema relevância, com o intuito de trazer alguma luz sobre essa temática pouco explicada e tão assustadora.

Uma delas, talvez a principal, é que as bactérias habitam o planeta há milhões e milhões de anos antes do surgimento dos mamíferos, e dentre eles, o chamado hominídeo. Sem elas não haveria forma de vida no planeta; por isso, tais criaturas aqui permaneceriam independentemente de existir ou não a espécie humana. Enquanto esta última não conseguiria sobreviver, sequer por um dia. Contudo, o que é mais contundente saber, refere-se ao paradoxo reinante nisso tudo, ou seja, aquelas que dão vida ao hominídeo, hoje chamado homem, a tira da mesma forma que a criou; isto porque nem a “mãe” natureza consegue a perfeição, talvez porque a ideia contida nesta palavra “mãe”, criada pelo homem, é totalmente irrelevante para a natureza e si; e o exemplo maior disso são os vírus, grande parte letal. E como são gerados? Pelas anomalias que acontecem na replicação das bactérias, daí as deformidades e as mutações que geram os vírus; vale dizer, um desvio em suas funções. E quem são seus hospedeiros? Aquela espécie que se julga o centro supremo de toda natureza: a espécie humana, como bem asseverou a bióloga norte-americana, Lynn Margulis.

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