segunda, 9 de março de 2026

EDUCAÇÃO FINANCEIRA: Como falar sobre dinheiro com crianças e adolescentes

Publicado em 08 mar 2026 - 10:44:09

           

Especialistas explicam como famílias podem abordar o tema de forma prática, lúdica e adequada à idade, da Educação Infantil ao Ensino Médio

 

Da redação

 

Falar sobre dinheiro ainda é um tabu para muitos brasileiros, o que talvez explique as altas taxas de endividamento das famílias no Brasil: em outubro de 2025, 79,5% das famílias tinham algum tipo de dívida a vencer, segundo a série histórica medida pela Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

 

Para mudar esse cenário, educadores são unânimes ao afirmar que a educação financeira deve começar cedo, desde a primeira infância até a adolescência, conforme o indivíduo cresce e se desenvolve. Mais do que ensinar a economizar, a educação financeira na infância e na adolescência envolve conversar sobre escolhas, limites, desejos e consequências.

 

 

O modo como pais e responsáveis abordam o tema pode influenciar diretamente a relação dos jovens com consumo, planejamento, autonomia e responsabilidade no futuro. Segundo especialistas, quando o assunto é tratado de forma natural, prática e alinhada à fase de desenvolvimento do estudante, torna-se uma poderosa ferramenta de aprendizagem para a vida.

 

 

A seguir, quatro docentes explicam como abordar o tema em cada etapa da Educação Básica.

 

EDUCAÇÃO INFANTIL (3 A 5 ANOS): dinheiro como parte do cotidiano e das brincadeiras

Na primeira infância, o objetivo não é falar sobre valores, orçamento ou poupança, mas ajudar a criança a entender noções básicas como troca, escolha e espera. Brincadeiras simbólicas, jogos e situações do dia a dia são grandes aliados nesse processo.

“Crianças pequenas aprendem observando e brincando. Quando os adultos incluem o dinheiro nas conversas do cotidiano, como no supermercado ou em jogos de faz de conta, elas começam a compreender que os recursos são limitados e que fazemos escolhas”, explica Renato Shiotuqui Pereira, professor de matemática de São Paulo (SP).

 

Segundo o educador, brincadeiras como simular um mercadinho, poupar usando cofres coloridos ou contar histórias infantis que abordem consumo e partilha ajudam a construir uma relação saudável com o tema. “O aprendizado é menos sobre economizar, e mais sobre dar significado ao dinheiro. Quando a criança entende que nem tudo pode ser comprado imediatamente, ela aprende a lidar com frustrações e expectativas”, destaca Shiotuqui.

 

 

ENSINO FUNDAMENTAL I (6 A 10 ANOS): aprendendo a poupar, planejar e fazer escolhas

 

Quando chegam ao Ensino Fundamental I, as crianças já conseguem compreender conceitos mais concretos, como poupar, comparar preços e definir pequenas metas. É nessa fase que a educação financeira pode se tornar mais prática e participativa.

“Essa é uma idade excelente para introduzir o hábito da mesada, sempre acompanhada de conversa e orientação”, afirma Cristine Tolizano, professora de matemática de São Paulo (SP). “O importante não é o valor, mas ensinar a criança a planejar o uso do dinheiro, fazer escolhas e lidar com as consequências delas.”

 

A docente reforça que envolver os filhos em decisões simples, como planejar um passeio ou escolher um brinquedo após economizar por um período, fortalece a autonomia. “Quando a criança participa, ela aprende que o dinheiro não é algo abstrato, mas um recurso que exige organização e responsabilidade”, completa Cristine.

 

 

ENSINO FUNDAMENTAL II (11 A 14 ANOS): consumo consciente e responsabilidade

Durante a pré-adolescência e começo da adolescência, o consumo passa a ter um forte apelo social. Desejos por marcas, tecnologia e pertencimento tornam as conversas sobre dinheiro ainda mais necessárias e delicadas.

“Nessa fase, é fundamental falar sobre consumo consciente e sobre a influência das redes sociais no comportamento consumista”, explica a coordenadora pedagógica de Barueri/SP, Juliana Nico. “O adolescente precisa entender que muitas decisões de compra são impulsionadas por comparação e pressão externa, nem sempre por necessidade ou desejos genuínos.”

 

Atividades como planejar compras importantes, discutir o impacto da publicidade no subconsciente e estabelecer combinados sobre gastos também são estratégias recomendadas pelos especialistas.

 

 

Segundo Juliana, incluir os jovens em conversas sobre orçamento familiar, prioridades e planejamento ajuda a desenvolver senso crítico. “Não se trata de expor problemas financeiros, mas de mostrar como as escolhas são feitas. Isso contribui para que o adolescente se torne mais responsável e empático”, completa.

 

 

ENSINO MÉDIO (15 A 17 ANOS): autonomia financeira e preparação para a vida adulta

No Ensino Médio, a educação financeira ganha um caráter ainda mais estratégico. Muitos jovens começam a lidar com dinheiro próprio, seja por meio de estágios, trabalhos temporários ou mesadas maiores, além de se prepararem para decisões importantes sobre o futuro. Conversas sobre faculdade, carreira, custo de vida e independência financeira ajudam a tornar o tema mais concreto e conectado à realidade do jovem.

“Esse é o momento de falar sobre planejamento de médio e longo prazo, orçamento pessoal e até noções básicas de investimentos”, explica Beatriz Aoki, professora de Educação Financeira de Campinas (SP). “A juventude se apropria da ideia de que cada escolha financeira tem um impacto.”

Para a educadora, estimular o protagonismo é essencial. “Quando o adolescente aprende a organizar seus gastos, tem consciência da importância do autocontrole e da autorresponsabilidade, consegue pensar no futuro com intenção, ele passa a ter mais equilíbrio e se sente mais preparado para a vida adulta. O envolvimento da família tem um valor imenso nessa orientação”, conclui.

 

 

10 ORIENTAÇÕES ESSENCIAIS PARA ENSINAR EDUCAÇÃO FINANCEIRA A CRIANÇAS E ADOLESCENTES

 

Os educadores elencam, ainda, 10 dicas essenciais para os pais e responsáveis tratarem do tema com os jovens.

 

  • Fale sobre dinheiro com naturalidade, sem tabu, desde a primeira infância;2
  • Dê o exemplo no dia a dia, mostrando como planejar gastos e fazer escolhas;3
  • Use situações cotidianas, como compras e passeios, para ensinar na prática;
  • Adapte a conversa à idade, respeitando o nível de compreensão da criança ou jovem;5
  • Estimule a noção de escolha, explicando que gastar com uma coisa implica abrir mão de outra;6
  • Incentive o hábito de poupar, mesmo que com valores simbólicos;7
  • Estabeleça combinados claros sobre mesada, semanada ou dinheiro extra;8
  • Converse sobre consumo consciente, evitando compras por impulso ou pressão social;9
  • Inclua os filhos no planejamento, como metas, sonhos e pequenos orçamentos;10
  • Valorize o esforço e a paciência, mostrando que dinheiro é resultado de planejamento e trabalho.

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