quinta, 23 de abril de 2026

COMPORTAMENTO: Choque de gerações: você sabe lidar com os jovens?

Publicado em 23 abr 2026 - 17:23:32

           

Educadores apontam o que famílias, escolas e empresas podem fazer para construir pontes entre as gerações para tornar a convivência geracional menos desafiadora

 

Da redação

A juventude é uma fase importante da vida, da qual as escolhas e caminhos tomados costumam definir o futuro do adulto. As novas gerações estão mais conectadas, questionadoras e atentas a temas como propósito, diversidade e saúde mental, trazendo uma nova forma de relacionamento com o mundo e com os “adultos”.

Nesse cenário, especialistas chamam atenção para a importância de compreender as diferenças e desenvolver novas formas de convívio e diálogo.
Segundo o Estatuto da Juventude brasileiro, o indivíduo é considerado “jovem” entre os 15 e 29 anos, período que compreende a adolescência e o início da vida adulta. Mas esse conceito é relativo, e alguns órgãos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), por exemplo, costumam classificar a juventude entre 15 e 24 anos.

Recentemente, viralizou na internet um estudo liderado por neurocientistas da Universidade de Cambridge e publicado na renomada revista científica Nature Communications, apontando que a adolescência vai dos 9 anos 30 anos.
Para além das definições etárias, compreender quem são esses jovens hoje passa também por observar o contexto em que estão inseridos e as transformações que moldam seus comportamentos, expectativas e formas de interação.

É a partir dessa leitura mais ampla que especialistas buscam explicar como pensam as novas gerações — e por que, muitas vezes, elas parecem desafiar modelos tradicionais de educação, trabalho e convivência.

 

 

 

O QUE QUEREM OS JOVENS? – Na avaliação de Carla Litrenta, pedagoga, educadora parental e coordenadora de relacionamentos, de Barueri (SP), os jovens das novas gerações têm demonstrado uma mudança significativa de prioridades em relação ao passado.

Segundo ela, há uma valorização mais evidente de propósito, flexibilidade e bem-estar nas decisões, especialmente no que diz respeito à carreira e à educação. “Hoje, muitos jovens não estão em busca apenas de estabilidade profissional, mas de sentido no que fazem e de oportunidades de crescimento mais dinâmicas”, afirma.
Ainda de acordo com a especialista, esse comportamento também se reflete na forma como se relacionam com o aprendizado: há uma expectativa crescente por experiências educacionais mais participativas, conectadas com a prática e com o mundo real. “Eles tendem a se engajar mais quando percebem relevância no conteúdo e quando podem assumir um papel ativo no processo de aprendizagem”, explica.
A docente avalia que esse perfil está diretamente relacionado ao contexto em que essa geração foi formada. “Estamos falando de jovens que cresceram em um ambiente digital, com acesso imediato à informação e expostos a mudanças constantes. Isso contribui para o desenvolvimento de um olhar mais crítico e para uma menor tolerância a estruturas muito rígidas ou pouco transparentes”, diz Carla. “Não se trata de falta de comprometimento, mas de uma nova forma de se posicionar e de se engajar diante das instituições e das relações.”
 

POR QUE A CONVIVÊNCIA GERACIONAL É DIFÍCIL? – Na avaliação de Lívia Martins, diretora pedagógica, as tensões entre gerações estão longe de ser um fenômeno recente, mas assumem características próprias no contexto atual.

Segundo ela, diferenças de valores, linguagem e expectativas tendem a tornar a convivência mais desafiadora, sobretudo em ambientes onde o diálogo ainda é limitado. “Quando não há espaço para escuta e troca, essas diferenças se intensificam e acabam gerando conflitos”, afirma.
A especialista observa que há também um desencontro de percepções entre as gerações. “É comum que adultos interpretem os jovens como imediatistas ou pouco resilientes, enquanto os mais novos enxergam os mais velhos como rígidos ou resistentes à mudança”, explica. Esse tipo de leitura mútua contribui para ruídos na comunicação e dificulta a construção de relações mais equilibradas.
Na opinião de Lívia, compreender o contexto histórico de cada geração é um passo essencial para reduzir esses atritos. “Conflitos geracionais sempre existiram, mas hoje eles são potencializados pela velocidade das transformações e pelo impacto da tecnologia no cotidiano”, avalia. “Cada geração é moldada pelo seu tempo, e reconhecer isso é fundamental para diminuir julgamentos e favorecer uma convivência mais saudável.”
 

COMO ORIENTAR OS JOVENS? – Na avaliação de Audrey Taguti, diretora geral e pedagógica, de São Paulo (SP), orientar jovens no cenário atual exige uma mudança de abordagem por parte dos adultos. Mais do que impor regras, é fundamental desenvolver habilidades como escuta ativa, mediação e capacidade de orientação. “A construção de vínculos baseados em confiança e respeito mútuo tende a ser mais eficaz para engajar os jovens do que modelos excessivamente autoritários”, afirma.
Audrey destaca que práticas como comunicação clara, oferta de feedback constante e abertura ao diálogo contribuem para a criação de ambientes mais acolhedores e produtivos.

Ao mesmo tempo, ela ressalta que a presença de direção e limites continua sendo essencial. “Dar autonomia não significa ausência de direção. O jovem precisa entender que liberdade vem acompanhada de responsabilidade”, explica.
Para a educadora, o principal desafio está no equilíbrio. “Orientar jovens hoje exige dar espaço para que se expressem, mas também ajudá-los a desenvolver disciplina, pensamento crítico e responsabilidade”, avalia. “A autoridade não desaparece, mas precisa ser construída de forma mais horizontal, baseada em legitimidade e não apenas em hierarquia.”
 

O PAPEL DA ESCOLA NOS CONFLITOS GERACIONAIS – Nas escolas de educação básica no Brasil, convivem hoje diferentes gerações, cada uma marcada por contextos e referências distintas.

Os alunos pertencem majoritariamente à parcela mais jovem da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) e Geração Alpha (nascidos entre 2010 e 2024), enquanto professores e gestores costumam estar distribuídos entre a Geração Y/millenials (nascidos entre 1981 e 1996) e a Geração X (nascidos entre 1965 e 1980), com alguns profissionais ainda pertencentes ao grupo dos Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964).

Esse encontro de perfis geracionais diversos dentro do mesmo ambiente escolar ajuda a explicar tanto as riquezas quanto os desafios na comunicação e nas relações do dia a dia.
Na visão de Fatima Lopes, diretora geral de escola, a escola ocupa um papel estruturante na articulação entre diferentes gerações. Para ela, mais do que mediar conflitos, a escola precisa intencionalmente formar alunos capazes de transitar entre perspectivas diversas com repertório, criticidade e responsabilidade.
“A convivência entre gerações não é um desafio a ser contornado, mas uma oportunidade educativa potente. Cabe à escola transformar essas diferenças em aprendizagem, desenvolvendo nos alunos a capacidade de escuta, argumentação e convivência em contextos diversos”, afirma.
Fátima destaca que esse cenário exige uma evolução consistente das práticas pedagógicas, com foco em experiências de aprendizagem que façam sentido, que engajem e que desafiem o aluno a pensar, posicionar-se e construir entendimento sobre o mundo.
Para ela, o fortalecimento de uma cultura de diálogo é central. “Quando a escola estrutura espaços de escuta qualificada e promove o protagonismo com responsabilidade, ela forma não apenas bons alunos, mas indivíduos capazes de conviver, colaborar e contribuir em uma sociedade plural”, conclui.

 

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