quarta, 3 de junho de 2026
Publicado em 02 jun 2026 - 14:46:57
Após anos de Lei Antifumo, tabagismo volta a ser comum entre jovens; “Não existe consumo seguro de nicotina”, orienta especialista
Da redação
Durante anos, fumar deixou de ser sinônimo de status para virar sinônimo de alerta. O cigarro desapareceu de bares, restaurantes e ambientes fechados, impulsionado por campanhas antitabagismo e pela Lei Antifumo, que transformou o Brasil em referência mundial no combate ao tabagismo.
Mas, nos últimos anos, uma sensação tem chamado atenção de médicos e até de quem frequenta bares e festas: o cigarro voltou.
Se antes a fumaça parecia cada vez mais distante da rotina social, hoje ela reaparece muitas vezes em versões coloridas, aromatizadas e tecnológicas. “Infelizmente, temos notado um retrocesso preocupante”, afirma a pneumologista Bianca Espíndula. “O Brasil vinha sendo exemplo mundial no combate ao tabagismo, mas os dispositivos eletrônicos mudaram esse cenário e acabaram funcionando como uma porta de entrada para as novas gerações.”

Segundo apontamento do Ministério da Saúde, houve um crescimento de 25% no número de fumantes no Brasil entre 2023 e 2024. Ainda de acordo com o Governo, mais de 174 mil pessoas morrem a cada ano por doenças causadas pelo tabaco e o impacto total do tabagismo no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 153 bilhões por ano, sendo que apenas 5% desse valor é arrecadado em impostos com a venda de cigarros.
O debate ganha relevância neste 31 de maio, Dia Mundial Sem Tabaco, data criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) justamente para alertar sobre os impactos do cigarro e da nicotina à saúde.

ELETRÔNICOS – Com design tecnológico, cores chamativas e sabores adocicados, o cigarro eletrônico é apontado como principal atrativo. “Isso tirou o estigma do cigarro tradicional e criou uma falsa sensação de que o vape é inofensivo”, explica a médica.
Em bares, festas e até ambientes fechados, o consumo voltou a ganhar certa naturalidade, algo impensável anos atrás, diante das fiscalizações da Lei Antifumo.
“O maior risco da aceitação social é justamente transformar o tabagismo em algo comum novamente. Quando o cigarro reaparece nas rodas de amigos, nos filmes, séries e redes sociais, a barreira da prevenção enfraquece”, alerta a especialista.
Segundo ela, isso faz com que adolescentes e jovens experimentem cada vez mais cedo a nicotina e criem dependência antes mesmo de compreender os impactos à saúde.
E o alerta não é apenas brasileiro. Em abril deste ano, o Reino Unido aprovou uma legislação histórica que proíbe a venda de cigarros para pessoas nascidas a partir de 1º de janeiro de 2009, numa tentativa de criar a primeira geração livre do tabaco.
A medida surge justamente em meio ao crescimento do uso de cigarros eletrônicos entre jovens em diversos países.
“NÃO EXISTE CONSUMO SEGURO” – Um dos pontos que mais preocupam os especialistas é a ideia de que fumar “só socialmente” não faz mal. “É fundamental deixar claro que não existe nível seguro para consumo de nicotina”, afirma a pneumologista.
Mesmo quem fuma apenas em festas ou fins de semana já provoca danos importantes ao organismo. “O pulmão sofre inflamação desde as primeiras exposições. E, no caso dos vapes, muitos dispositivos possuem concentrações altíssimas de nicotina, equivalentes a maços inteiros de cigarro tradicional.”
A médica explica ainda que o vapor inalado também contém metais pesados e substâncias tóxicas capazes de provocar lesões pulmonares graves.
“Hoje já lidamos com a EVALI, uma lesão pulmonar aguda associada aos cigarros eletrônicos e que pode levar jovens rapidamente à UTI”, alerta.

FUMO PASSIVO – E mesmo quem nunca fumou também pode pagar a conta. De acordo com Bianca, o fumo passivo continua sendo muito subestimado. “A fumaça do cigarro e o vapor exalado pelos eletrônicos carregam substâncias cancerígenas em altas concentrações. Não é apenas um cheiro ruim: é inalação de veneno”, afirma.
E as crianças estão entre as mais vulneráveis. “Elas sofrem muito com crises de asma, bronquite, pneumonias e infecções de ouvido quando convivem com fumantes em ambientes fechados”, explica a médica.
SINAIS DO CORPO – Embora muitos jovens acreditem que os efeitos só aparecem no futuro, o organismo costuma reagir rapidamente ao cigarro, explica a pneumologista.
Entre os primeiros sinais estão: falta de fôlego; cansaço físico; tosse persistente; infecções respiratórias frequentes; perda de paladar e olfato; envelhecimento precoce da pele; dentes amarelados e mau hálito.
“Os jovens costumam achar que são invencíveis, mas o corpo avisa cedo”, ressalta a médica.
DICAS PARA PARAR DE FUMAR
– Escolha uma data para parar e trate esse dia como um recomeço
– Busque ajuda médica e tratamento especializado
– Identifique gatilhos emocionais e sociais ligados ao cigarro
– Troque o hábito por água, chicletes sem açúcar ou outras estratégias
– Pratique atividade física para reduzir ansiedade e fissura
– Não transforme recaídas em desistência definitiva

© 1990 - 2026 Jornal Negocião - Seu melhor conteúdo. Todos os direitos reservados.