sábado, 25 de julho de 2026

Fertilidade masculina: testosterona cai 54% em quase 50 anos

Publicado em 24 jul 2026 - 17:24:50

           

Estudo aponta redução nos níveis do hormônio em quase cinco décadas e relaciona o fenômeno ao aumento da infertilidade masculina

 

Da redação

 

Os homens estão perdendo testosterona em velocidade alarmante, e a ciência começa a admitir que o problema é muito maior do que se imaginava. Uma meta-análise apresentada na última terça-feira (7), durante a reunião anual da Sociedade Europeia de Reprodução Humana e Embriologia (ESHRE), em Londres, mostrou que os níveis totais do hormônio caíram 54% entre 1972 e 2019, o que equivale a uma redução superior a 1% ao ano durante quase cinco décadas.

A pesquisa, assinada pelo epidemiologista israelense Hagai Levine, da Universidade Hebraica de Jerusalém, reuniu dados de 118.593 homens acompanhados em Israel, Estados Unidos, Brasil, Finlândia e Dinamarca.

Cada um dos seis estudos analisados isoladamente, já apontava essa queda. Quando os números foram cruzados o resultado mostrou o padrão com uma tendência e que acelerou depois do ano 2000. “Observamos uma queda de mais de 50% na testosterona total durante esse período. Isso representa uma queda de mais de 1% ao ano, portanto, não é uma coincidência, não é um erro estatístico. É uma tendência muito forte”, afirmou Levine, em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

O pesquisador, que também é o autor de estudos anteriores que relacionaram a queda na contagem de espermatozoides a um verdadeiro colapso na saúde reprodutiva masculina, classificou o momento como “uma grande crise na saúde reprodutiva masculina que não se tem dado a devida atenção”.

 

 

 

 

A obesidade e o diabetes

A primeira pergunta que a comunidade científica tenta responder é o que está causando essa queda. A resposta mais consensual, por enquanto, aponta para a combinação de dois inimigos já bem conhecidos. O excesso de gordura corporal aumenta a conversão natural de testosterona em estrogênio, derrubando os níveis do hormônio.

O diabetes e a chamada síndrome metabólica agravam o quadro. Levine estima que entre um quarto e metade do declínio observado pode ser explicado por esses fatores metabólicos.

Outros fatores também estão sendo considerados. Porque a segunda linha de investigação é mais perturbadora. Substâncias chamadas desreguladores endócrinos, presentes em embalagens plásticas, cosméticos, produtos de limpeza, pesticidas e em uma infinidade de itens de uso doméstico, podem sabotar o sistema hormonal masculino.

A poluição do ar e o próprio aquecimento global também aparecem na lista de culpados. Mas os resultados das pesquisas nessa área ainda são inconsistentes.

 

A armadilha do T-Maxxing

O “T-Maxxing” como foi batizada a cultura de aplicar testosterona sintética em busca de mais força, libido e disposição, é uma das maiores preocupações dos especialistas, porque aplicar testosterona exógena em um homem saudável que ainda quer ter filhos é praticamente sabotar a própria fertilidade.

No Brasil, a discussão já chegou aos consultórios de reprodução assistida, e o quadro preocupa. Para o médico especialista Dr. João Guilherme Grassi, referência na área, a pesquisa de Levine se conecta a uma mudança na prática clínica, onde a medicina reprodutiva finalmente parou de colocar sobre a mulher todo o peso da investigação da infertilidade. “Quando um casal enfrentava dificuldades para engravidar, quase toda a investigação era direcionada à mulher. Hoje, essa realidade mudou, porque a ciência tem demonstrado que o fator masculino está presente em cerca de metade dos casos de infertilidade, seja como causa isolada ou associado a alterações femininas”, afirma Grassi.

O especialista lembra que o exame básico de fertilidade masculina era somente o espermograma. “Acreditávamos que bastava contar quantos espermatozoides existiam e avaliar se eles nadavam bem. Hoje sabemos que isso conta apenas parte da história”, explica.

Uma das frentes mais recentes é a avaliação da integridade do DNA dos espermatozoides, que pode identificar alterações moleculares invisíveis ao microscópio, capazes de dificultar a gravidez ou aumentar o risco de perda gestacional.

“É possível um homem apresentar um espermograma aparentemente normal e, ainda assim, possuir alterações no DNA espermático que dificultam a gravidez ou aumentam o risco de perda gestacional em situações específicas. Esse exame não é indicado para todos os pacientes, mas pode ser extremamente útil em casos selecionados”, afirma o médico.

A reposição hormonal sem indicação médica também é considerada como uma das principais causas de infertilidade masculina encontradas nos consultórios brasileiros. “Muitos homens procuram reposição hormonal para melhorar disposição, ganhar massa muscular ou combater sintomas inespecíficos sem saber que a testosterona pode praticamente desligar a produção de espermatozoides. É uma das causas mais frequentes de infertilidade masculina que encontramos atualmente, mas pode ser reversível quando identificada precocemente”, afirma.

Outro ponto que ganhou relevância nos últimos anos é a idade paterna. Diferentemente das mulheres, que enfrentam um declínio abrupto da fertilidade por volta dos 35 anos, os homens permanecem férteis por mais tempo. “Não existe um relógio biológico masculino tão abrupto quanto o feminino, mas isso não significa que a idade do homem seja irrelevante. Hoje sabemos que ela também merece atenção”, explica Grassi.

 

 

Dr. João Guilherme Grassi

 

Estudos associam o envelhecimento masculino a um aumento gradual de alterações genéticas nos espermatozoides, à redução da fertilidade e a um maior risco de algumas doenças nos filhos.

A boa notícia segundo Grassi, é que boa parte do problema pode ser evitado com medidas simples. “Controlar o peso, praticar atividade física regularmente, dormir bem, evitar cigarro, reduzir o consumo de álcool e nunca utilizar testosterona sem indicação médica continuam sendo algumas das atitudes mais importantes para preservar a fertilidade”, recomenda.

Para o especialista, a maior transformação da medicina reprodutiva nas últimas décadas foi conceitual. “Hoje entendemos que fertilidade é um projeto do casal. Investigar e cuidar da saúde reprodutiva masculina não significa procurar culpados, mas aumentar as chances de sucesso e oferecer um tratamento mais preciso e personalizado para os dois”, conclui.

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