quarta, 14 de outubro de 2026
Publicado em 14 out 2026 - 17:01:04
Apenas na profissão de engenharia agrônoma, o número de profissionais femininas no mercado cresceu 56% em 10 anos
Silvana Guaiume
As mulheres estão cada vez mais consolidando a posição de protagonistas no agronegócio brasileiro e têm muitos motivos para comemorar no Dia Internacional das Mulheres
Rurais, celebrado em 15 de outubro.
Apenas na profissão de engenharia agrônoma, o número de profissionais femininas no mercado cresceu 56% em 10 anos, duplicou em 20 anos e triplicou desde 2000, segundo levantamento do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia.
Desde 2018, elas passaram a ser maioria entre os estudantes que concluíram cursos relacionados ao setor, aponta o Censo de Educação Superior do Ministério da Educação divulgado este ano.
Em 2010, as alunas dos cursos de agricultura, silvicultura, pesca e veterinária representavam 40% dos formandos e os homens somavam 60%. Em 2018, elas alcançaram a maioria pela primeira vez e representaram 50,3% dos que concluíram os cursos relacionados ao agro e em 2024 chegaram a 54%, conforme o Censo.

O Conselho de Engenharia informou que havia 340 engenheiras agrônomas atuando em 2000, 1 mil em 2006, 1,3 mil em 2016 e 2 mil este ano. De acordo com o órgão, na virada dos anos 2000 as mulheres representavam de 8% a 10% dos registros ativos na Engenharia Agronômica no Brasil. Atualmente, esse número é de 20% a 22% do total de profissionais com registro ativo no país.
A engenheira agrônoma, especialista em regulamentação de insumos agrícolas, Manuela Hiromi de Holanda Dodo, atribui esse avanço a mudanças no agronegócio. “O agro mudou muito. Hoje é um setor cada vez mais técnico, tecnológico e aberto a diferentes perfis profissionais. As mulheres foram conquistando seu espaço por competência e conhecimento. Ainda temos desafios, mas hoje vemos mulheres atuando em praticamente todas as áreas do agro, inclusive em posições de liderança e decisão”, afirma.
O estudo “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro”, da Fundação IDH, divulgado este ano, aponta que 19% das propriedades rurais brasileiras são geridas por mulheres, com números que variam de acordo com o setor.
Na pecuária, a gestão já é um terço feminina, com mulheres liderando 33% das propriedades. As gestoras lideram ainda 22% das propriedades da cadeia do cacau, 18% dos citros, 17% da soja e 13% do café.
“A transformação do agronegócio passa pela transformação de quem decide. A mulher assume cada vez mais papel de protagonismo, participa das decisões, lidera negócios, impulsiona inovação e ajuda a definir os caminhos de um setor que está se tornando cada vez mais diverso, estratégico e com olhos para o futuro. Elas têm novas formas de pensar e capacidade de transformar desafios em resultados”, afirma a engenheira agrônoma e gerente de marketing, Patrícia Cesarino.
A pesquisadora, bióloga e doutora em agronomia Adriana Micheli, acredita que os novos espaços conquistados no agronegócio acompanham a evolução da mulher na sociedade. “Batalhamos por nosso espaço e mostramos que também podemos atuar no agronegócio. Muito espaço foi aberto pelas mulheres das famílias de agricultores, que sempre estiveram presentes no campo”, afirma.
PROCESSO DE EVOLUÇÃO – O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026, do Ministério das Mulheres, baseado em dados de 2024, mostra que havia 7,8 milhões de pessoas ocupadas em agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, das quais 18,7%, 1,5 milhão, eram mulheres.
Segundo o documento, das 1,1 milhão de pessoas atendidas pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) em 2024, 38,5% eram mulheres.
No Nordeste, a participação feminina chegou a 50,4% dos beneficiários, enquanto no Sul foi de 18,4%.
A produtora rural Natalya Ferraz Rodrigues, uma das principais referências e lideranças do agronegócio na Região Nordeste, especialmente no cultivo de hortifrúti, explica que vê esse processo como uma evolução muito importante para o setor. “Mas acredito que o principal não é simplesmente aumentar a presença feminina: é garantir que essa presença seja acompanhada de reconhecimento, autonomia e oportunidades reais. A mulher não está chegando ao agro apenas para ocupar espaço. Ela está mostrando competência, produzindo, empreendendo, inovando e tomando decisões”, defende Natalya comenta que não existe uma característica única para definir a atuação feminina no agronegócio. “Somos diferentes e temos diferentes formas de trabalhar. Mas vejo na mulher uma capacidade muito grande de observar detalhes, cuidar dos processos, buscar conhecimento e conciliar diferentes responsabilidades. Muitas mulheres também têm uma forte capacidade de organização e de construção de relacionamentos”, alega.
Toda essa movimentação feminina trouxe junto uma mobilização para o surgimento de redes organizadas de apoio, como comissões femininas em sindicatos rurais, associações de classe e eventos de grande porte dedicados ao setor, o que ampliou a visibilidade institucional e o networking entre as produtoras rurais.
As mulheres ganharam maior visibilidade como produtoras, empresárias, técnicas e profissionais especializadas, inclusive em cadeias tradicionalmente masculinas. Em 2026, a criação da Câmara Temática de Mulheres Rurais no Ministério da Agricultura consolidou essa agenda.
ADVOGADA E LAVRADORA – Filha de pecuarista, Natalya conta que sua história com o agro começou antes de perceber que a horticultura faria parte da sua vida profissional. Ele se formou em Direito, chegou a advogar, mas rendeu-se ao campo, que define como “grande paixão”, há cerca de três anos.
É produtora rural, mas também atua como articuladora e incentivadora do desenvolvimento da agricultura no Maranhão. “Venho construindo minha experiência principalmente dentro da horticultura, aprendendo diariamente com o campo, com os produtores, com os técnicos e com as empresas que trazem novas tecnologias para o setor”, afirma.
Começou plantando tomate e melancia há três anos. “O tomate acabou se tornando um grande divisor de águas na minha trajetória. Passei a enxergar não apenas a produção, mas todo o potencial que existe na horticultura maranhense. Sou advogada por profissão, mas agricultora por vocação e paixão”, diz.
A produtora rural defende que o agro representa origem, trabalho, oportunidade e futuro. “Representa também uma conexão muito profunda com a minha família e com aquilo que acredito”, aponta.
Natalya diz que um dos momentos marcantes de sua jornada no setor foi perceber, na prática, a responsabilidade e os desafios de colocar alimento na mesa das pessoas.
“Outro momento muito importante foi idealizar e realizar o Dia D da Cultura do Tomate, em Amarante do Maranhão. O projeto nasceu da vontade de mostrar que o Maranhão tem potencial para produzir tomate, gerar renda, criar oportunidades e desenvolver uma horticultura cada vez mais profissional. O campo me ensinou que agricultura é muito mais do que plantar e colher. É planejamento, tecnologia, gestão, persistência, conhecimento e, acima de tudo, coragem para recomeçar quando algo não sai como planejado”, comenta Natalya.
O aumento da participação feminina no agro é um processo contínuo, acredita Natalya. “Na minha experiência, aprendi que no agro o posicionamento é fundamental. Quando você conhece o seu trabalho, acredita no que faz e se posiciona com segurança, o respeito vem naturalmente”, diz.
Ela conta que gosta de acompanhar todo o processo de cultivo, preparar a terra, escolher a variedade, acompanhar o desenvolvimento da planta, observar os resultados das tecnologias utilizadas e chegar à colheita.
“Também me fascina a inovação. O agro está constantemente evoluindo, seja por meio de novas sementes, manejo, fertirrigação, equipamentos, tecnologias de aplicação ou ferramentas de gestão”, aponta a agricultora.
“Eu espero que, no futuro, falar sobre mulher no agro seja cada vez mais natural. Quero ver uma nova geração de meninas crescendo sabendo que o campo também é lugar delas, que podem produzir, empreender, liderar e transformar suas comunidades. Quando uma mulher cresce no agro, ela não precisa crescer sozinha. Ela pode levar muitas outras com ela”, defende.

MAGISTÉRIO, NÃO – Adriana nasceu em Castro, no Paraná, cidade com forte vocação para o agronegócio, e conta que sempre teve interesse na área. Viu o irmão se formar técnico agrícola, mas a mãe sugeriu que cursasse magistério.
Acabou escolhendo biologia e fez mestrado em entomologia, orientada por um pesquisador da Embrapa Soja de Londrina.
Foi convidada para ajudar a montar um laboratório na área de defesa vegetal na Fundação ABC. “Foi a realização de um sonho, iniciei minha vida profissional auxiliando diretamente na pesquisa em campo. Fiquei na Fundação ABC por 13 anos e considero que foi minha base como pesquisadora na agricultura”, conta, lembrando que trabalha principalmente com a cultura de batata na G12 Agro. “É uma cultura com poucos pesquisadores no Brasil e estamos realizando um trabalho cada vez mais consolidado”, diz.
A pesquisadora define o agro como uma importante conquista pessoal. “Representa tudo que eu construí na minha vida”, afirma.
Segundo ela, a mulher tem uma visão mais holística dos processos, são mais organizadas e detalhistas, o que contribui para fortalecer sua posição no segmento. Adriana destaca o dinamismo e a união da agricultura brasileira.
“Nenhum dia é igual ao outro, nenhuma safra é igual a outra, estamos sempre aprendendo e o agro nos força a ser melhores a cada dia. Como ouvi um CEO dizer uma vez, somos apaixonados pelo problema, somos motivados a sempre buscar novas soluções, isso é fascinante. Além disso, a união entre os agricultores é algo que me fascina, nos ajudamos, nos apoiamos e estamos sempre em busca de sermos melhores”, conta.
A expectativa da pesquisadora para o futuro é que a mulher ocupe mais espaço no agro. “Sempre quis trabalhar com pesquisa, dar suporte para o agronegócio e ajudar a buscar novas e melhores soluções para o produtor. Espero continuar nesse ramo até ficar bem velhinha”, afirma.
Mas revela receio sobre o desenvolvimento do agronegócio no país. “Sabemos que o agro move o mundo, mas temos visto grandes desafios para o desenvolvimento do setor e isso só atrasa nosso crescimento, em todos os sentidos”, diz.

COMBUSTÍVEL E CONHECIMENTO – Manuela construiu sua carreira de engenheira agrônoma sobre questões técnicas e regulatórias, acompanhando processos, requisitos legais e o caminho necessário para que um produto possa chegar ao agricultor dentro das exigências estabelecidas. “O agro sempre esteve muito presente na minha vida. Grande parte da minha família é formada por agrônomos, inclusive meu pai, então desde criança cresci convivendo com esse universo”, conta.
A especialista comenta que trabalha para transformar requisitos técnicos e legais em produtos que possam chegar ao agricultor e contribuir para sua produção. Ela diz que, mesmo trabalhando muitas vezes fora da lavoura, seu trabalho tem conexão direta com produção e a produtividade. “Isso é muito gratificante. O agro, para mim, é combustível. É um setor que me movimenta, me desafia e me faz aprender constantemente”, afirma.
Assim como suas colegas, Manuela destaca características fortes femininas, como organização, atenção aos detalhes, resiliência e capacidade de ouvir e conectar diferentes pontos de vista.”Trazemos uma perspectiva diferente para o agronegócio. E isso fortalece o setor”, aponta.
Ela comenta que a união entre ciência, tecnologia e lavoura tornam seu trabalho ainda mais fascinante. “Todo esse caminho envolve pesquisa, legislação e responsabilidade. No final de tudo existe um objetivo muito concreto, ajudar a produzir de forma segura e eficiente”, diz.
Para o futuro, Manuela acredita que mais mulheres vão ocupar posições de liderança no setor. “Quero continuar crescendo, aprendendo e assumindo novos desafios. Hoje, além do conhecimento técnico, tenho muito interesse em continuar desenvolvendo minha liderança e contribuindo de forma cada vez mais estratégica para o agro. Acredito que teremos cada vez mais mulheres em todas as áreas do agro, diversidade que torna o setor mais forte, inovador e preparado para os desafios que vêm pela frente”, afirma.
‘O agro é combustível. É um setor que me movimenta, me desafia e me faz aprender constantemente. Trazemos uma perspectiva diferente para o agronegócio. E isso fortalece o setor’, engenheira agrônoma especialista em regulamentação de insumos Manuela Hiromi de Holanda Dodo.

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