domingo, 21 de julho de 2024

A cidade ideal

Publicado em 21 abr 2016 - 03:14:06

           

Neusa Fleury             

Por onde a gente anda, o assunto é um só: a crise política. Esse dualismo feito Fla-Flu enjoa, e não acredito muito em quem defenda de maneira apaixonada um ou outro grupo político. Também tenho fugido dos acusadores ferozes, que destilam ódio através de palavrões, jogando o nível da conversa no esgoto. Minha ansiedade é saber como e quando é que isso tudo vai acabar, já que a vida segue e precisamos encontrar uma luz no fim do túnel.

Os acontecimentos relacionados ao governo federal nos dizem respeito, mas não dá pra ficar olhando ao longe e ignorar o que acontece perto da gente. Como já disse neste espaço, precisamos refletir sobre a cidade também.

“A cidade ideal dum cachorro tem um poste por metro quadrado” – assim Chico Buarque traduziu trecho de letra da música de “Os Saltimbancos”, de Sergio Bardotti e Luiz Enriquez Bacalov, musical que conta a história de quatro bichos. Pensei nisso neste final de semana, quando um conhecido me disse que na cidade onde ele mora a polícia pega firme em busca de motoristas com sinal de embriaguez.  A conversa me fez pensar que na cidade ideal as leis são cumpridas, já que é pra isso que elas servem. 

Na terra do povo de coração de ouro existem pessoas que construíram imóveis em terrenos públicos, sem autorização, e ficou por isso mesmo (quem tem amigo não morre pagão). Por aqui as áreas verdes são maltratadas e esquecidas, a poluição visual no centro enfeia a cidade e as áreas públicas ficam com a cara do governo de plantão, que costuma pintar prédios e praças com a “sua” cor, para lembrar ao povo quem é que manda. 

Se eu for falar de situações onde as leis não são cumpridas em Ourinhos, a conversa vai se estender e vou parecer rabugenta. No musical “Os saltimbancos”, protagonizado por um jumento, um cachorro, uma gata e uma galinha, a ave manifesta sua opinião a respeito da cidade ideal, dizendo que seria “a que tem as ruas cheias de minhocas”. 

A minha cidade ideal teria uma administração transparente, e acredito que num futuro próximo estaremos mais perto disso. Na política nada se esconde, e hoje em dia, com as redes sociais, organizações que se dedicam à fiscalização dos gastos com dinheiro público e com os eleitores cada vez mais questionadores, as coisas tendem a ficar mais claras. Se os governos não têm o que esconder, seria muito bom ver um prefeito ou prefeita tomando café na padaria da esquina, fazendo compras no mercado, andando sem aquele séquito de baba-ovos, enfim, se comportando como um ser humano normal e não como alguém que, por ocupar o cargo, se sente “por cima da carne seca”.  

No final de semana acompanhei um encontro de pessoas que cultivam bonsais, aquelas miniaturas de árvores que demandam muitos cuidados e demoram décadas pra ficarem bonitas. A observação da natureza é a regra para quem se dedica a essa atividade. Além de conhecer a espécie que se pretende transformar em bonsai, é preciso educá-la, amparando os galhos com arame para que cresçam com disciplina na posição mais harmoniosa.

A experiência do cultivo de bonsais tem muito a ensinar aos governantes.

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