domingo, 14 de abril de 2024

A crise de Identidade do varejo pós-pandemia

As compras online ganham força e têm proporcionado para os clientes novas experiências de compra

 

José Luiz Martins

 

Desde que a pandemia de Covid-19 assolou o país, setores do comércio varejista vêm enfrentando uma série de desafios para manter suas atividades. Certamente a pandemia impôs e acelerou muitas mudanças que fizeram com que os consumidores passassem a experimentar outras maneiras de comprar.

O consumo é um processo social e a mudança de comportamento dos consumidores tem mostrado que mais do que nunca, a internet se tornou vital para o comércio. Mais e mais as compras online ganham força e têm proporcionado para os clientes novas experiências de compra. Opções de escolha na tela do computador e telefones celulares, atendimento mais rápido aliado a um sistema de entregas em domicílio é apenas um exemplo de ações eficazes para que as vendas sejam impulsionadas.

No entanto, para os comerciantes varejistas que ainda são alheios ás ferramentas tecnológicas da WEB e mesmo os que já se adequaram, há ainda uma ampla gama de novos processos a serem resolvidos que também facilitam as coisas. Não há dúvida de que muitas pessoas ainda preferem fazer compras nas lojas, e nesse âmbito existem muitas maneiras criativas de proporcionar às pessoas a experiência satisfatória de compras nos estabelecimentos, fornecer um serviço diferenciado é fundamental para manter a fidelidade dos clientes.

 

CENÁRIO ECONÔMICO – Gilvano José da Silva, gestor da Associação Comercial e Empresarial de Ourinhos, avalia que as dificuldades do cenário econômico, como a questão dos juros altos, a questão crescente da inadimplência das famílias, são impactantes no segmento, porém, existem outros fatores além dos econômicos que têm interferido nas vendas do varejo. Para o gestor, existe um novo fator que é uma espécie de “crise de identidade” entre varejistas médios e pequenos que estão com dificuldades de posicionarem no pós-pandemia.

“Hoje simplesmente abrir o estabelecimento no horário comercial esperando o consumidor, não é mais suficiente. O varejista tem que estar em múltiplos canais além da loja física, é urgente que ele esteja com seus produtos expostos nas plataformas digitais como marketplace, redes sociais, usar os recursos como impulsionamento de tráfego pago, tudo isso são ferramentas para estimular as vendas”, pontuou.

Gilvano José da Silva gestor da Associação Comercial e Empresarial de Ourinhos

 

Não é de hoje que as compras online estão se tornando mais populares, a praticidade e comodidade que envolve o mercado virtual tem suas razões, como não ter que lidar com trânsito, vagas de estacionamento, filas ou até mau tempo. Porém há um grande número de pessoas que preferem comprar presencialmente nos próprios estabelecimentos comerciais. Nesse sentido Gilvano destaca que é preciso explorar horários diferenciados.

“De segunda a sexta, sábado até meio-dia já não é mais suficiente, temos que abrir no sábado à tarde, alongar no período noturno sempre respeitando a legislação, mas temos que usar e fazer diferente. Porque o nosso principal concorrente hoje é a internet e a internet está funcionando 24 horas por dia, sete dias por semana, então nós não podemos ficar presos a esta questão de horário comercial”.

Mas ele alerta que não basta abrir o estabelecimento nesses horários especiais, é importante que a loja ofereça um serviço diferenciado, algo extra para encorajar os compradores como campanhas promocionais, oferecer o cafezinho, atrações culturais, ações extravendas que fidelizem os clientes. É necessário ter um portfólio de pessoas para convidar para visitar a loja. Gilvano diz que o varejista tem que repensar a prática de abrir a loja e ficar no balcão esperando o consumidor chegar, pois já está ultrapassada.

“Se for para abrir a loja simplesmente por abrir, vejo que não compensa. Tem que lançar mão de novas estratégias, é a decoração, a bexiga, é a pipoca, é a música, é a cervejinha, um café, temos que colocar isso na loja, as pessoas estão carentes dessa convivência e o lojista tem que aproveitar essa carência das pessoas para os estabelecimentos, sabemos que a renda do brasileiro está curta, mas tem gente com dinheiro e disposta a comprar e carente deste relacionamento”, explicou.

 

MOMENTO CONTURBADO – Para o empresário Alexandre Mariani o momento é muito conturbado na perspectiva empresarial. Diversos fatores têm dificultado atividade, tais como questões políticas, econômicas e sociais.

 “Esta não é a primeira e não será a última crise que passamos. Nestes muitos anos de comércio vimos várias vezes, situações que nos exigiram um maior empenho para solucionar os problemas. No entanto, desta vez, o quadro se complica, pois passamos por um longo período de estagnação econômica com o advento da COVID-19, foram praticamente dois anos de incertezas e instabilidade social e econômica”, destacou.

Ele ainda lembra que o processo político nos últimos anos foi desgastante e complicou ainda mais a situação, a somatória desses fatores gerou um longo período de instabilidade que se reflete até os dias atuais e, aparentemente deve se prolongar por todo ano de 2023.

É inegável que a pandemia trouxe uma grande mudança na forma de comprar de muitas pessoas, se as pessoas tinham receio em comprar pela internet, seja nos marketplaces ou nos sites de vendas on-line, este receio foi substituído pela necessidade de comprar, essa cultura não deve ser mais subestimada pelos empresários, avalia o comerciante do ramo calçadista.

Ele concorda que o fluxo de clientes entrando nas lojas é menor com muitos clientes mais exigentes, mais apressados e mais conhecedores de suas necessidades e direitos. Tudo isso exige que tenhamos criatividade, resiliência e iniciativa para criar novas maneiras de atingir e conquistar este “novo” consumidor.

“As vendas on-line vieram para ficar, e o empresário que não se adequar a esta nova realidade, ou vai sucumbir, ou no mínimo, ter uma grande estagnação em seu faturamento. Claro que este não é um processo tão simples assim. É preciso investir em conhecimento e buscar profissionais para ajudar na implantação, divulgação e técnicas efetivas de vendas on-line”, pontuou Alexandre.

Ele acrescenta que os empresários só têm uma opção, é se adaptar a esta realidade. Cita como exemplo as grandes redes varejistas, que hoje mais que lojas, são verdadeiras plataformas de vendas, que disponibilizam para seus clientes praticamente tudo em um só lugar. “Claro que não é tão simples assim, mas, nós também precisamos manter uma linha de contato permanente com nossos consumidores para entender e sanar suas necessidades e expectativas. Se não fizermos isso, provavelmente, encolheremos e, talvez, até tenhamos que encerrar nossas atividades”.

Alexandre Mariani empresário varejista 

Perguntado se para determinado comerciante a internet é como um concorrente, Alexandre Mariani,

parafraseando palavras creditadas a Albert Einstein diz, “fazendo sempre as mesmas coisas, teremos sempre os mesmos resultados.

Ele completa dizendo que o mercado nunca exigiu tanto profissionalismo e dedicação dos empresários como hoje. Que conhecimento, habilidade e atitude são essenciais para se adaptar e se adequar a este novo mercado.

“Mas é sempre bom lembrar que não são nos momentos bons ou, como costumeiramente chamamos, na “zona de conforto” que mudamos e evoluímos, e, sim, nos momentos mais difíceis e conturbados que nos desdobrados e somos mais criativos. Esse período vai passar, como todos os outros passaram e quem estiver pronto verá novamente um mercado pujante e forte”, concluiu.

 

AÇÕES VOLTADAS AO COMÉRCIO – De acordo com dados da Associação Comercial e Empresarial de Ourinhos (ACE), o município tem hoje próximo de seis mil empresas com CNPJ, sem contar a categoria MEI (Microempreendedor Individual) que também tem a inscrição CNPJ. O presidente da ACEO Robson Martuchi falando a reportagem do Negocião, diz que a entidade tem hoje mil associados entre empresas que prestam serviços, comércio e indústria. Cerca de 80% dos associados fazem uso da internet para impulsionar o seu negócio e comercializar seus produtos.

Martuchi lembra que no período da pandemia a Associação trabalhou para que o comércio ficasse aberto tomando todas as medidas exigidas pelos órgãos governamentais de saúde, ao mesmo tempo realizaram um trabalho de conscientização junto aos associados para despertar o interesse em vender pela WEB.

 “Mostramos a necessidade de eles começarem a utilizar os meios da internet para divulgar os seus produtos, as promoções, usar as redes sociais Whatsapp, Facebook, Instagram e outros. Hoje esse trabalho permanece, a associação continua coletando informações atualizando os associados e sempre afirmando a necessidade de que eles se integrem a internet, a usar essas ferramentas para incrementar os seus negócios. Também é uma maneira de fidelizar os clientes”, destacou.

Robson salienta que muitos empresários que não participam de entidades representativas como Associação Comercial apenas ficam à espera que o consumidor apareça enquanto o concorrente e outros comerciantes estão trabalhando pela internet divulgando e vendendo, alguns até com site próprio da empresa.

Segundo o presidente, a ACE também trabalha o fato de que muitos consumidores também preferem comprar presencialmente indo até os estabelecimentos. Nessa condição algumas ações e promoções da associação são direcionadas nesse sentido.

“Há tempos realizamos algum trabalho nesse sentido e vamos realizar mais ainda até o final do ano como sorteios de bons prêmios em datas comemorativas, para que haja aquele estímulo no que nós chamamos de loja de rua. Para as pessoas irem até as lojas comprar, esse é um trabalho de incentivo para os estabelecimentos que a gente faz constantemente. Os nossos lojistas associados respondem muito bem ao nosso chamado, já estamos preparando a próxima promoção no dia dos pais e também um evento mais expressivo com sorteio maior no final do ano”, finalizou.

Robson Martuchi é presidente da ACE em Ourinhos

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