sábado, 15 de junho de 2024

“A melhor prevenção ao suicídio é o diálogo”

Alexandre Mansinho

Segundo Jardel Augusto Chagas, estudante do curso de Geografia da UNESP de Ourinhos. “Meu pai tinha histórico de depressão, tomava remédios e fazia tratamento conforme orientação dos médicos (…) porém, de forma repentina, ele abandonou o tratamento e se distanciou da gente (…) uma noite ele conseguiu uma arma “alugada” de um grupo de bandidos e deu um tiro em si mesmo (…) depois do fato é que a família passou a perceber alguns sinais que ele apresentava (…) quando jovem ele disse que iria se matar um dia, mas ninguém deu muita atenção”. 

O crescimento do número de suicídios é constante em todas as cidades brasileiras, o Ministério da Saúde aponta que, no Brasil, há mais de 30 casos registrados por dia. Entre os mais jovens a porcentagem tem crescido assustadoramente: desde 2002, quando se passou a fazer um acompanhamento estatístico específico para os casos, até o ano de 2015, percebeu-se um aumento de 24%.

Em Ourinhos, conforme apurado pelo Jornal Negocião*, os casos de suicídios tentados e consumados passaram de 40 em 2016. Ações publicitárias como as realizadas no mês de setembro chamaram a atenção para o problema e levantaram várias questões sobre uma certa ausência de políticas públicas municipais mais efetivas para combater o problema. 

Veneno e enforcamento – Nos casos de suicídio registrados em Ourinhos, no ano de 2016, os métodos mais usuais foram o envenenamento e o enforcamento. O que chamou a atenção nesses casos cujos registros puderam ser consultados pelo jornalismo do Negocião, foi a premeditação: a pessoa com a intenção de tirar a própria vida foi ao mercado ou a loja de produtos agropecuários e comprou o veneno para ratos ou a corda, pelo menos dois dias antes da consumação do ato.

Palavra do especialista – O psicólogo Luiz Bosco Sardinha Machado Júnior, Doutor em Psicologia pela Unesp e docente das Faculdades Integradas de Ourinhos, recebeu nossa equipe e explicou várias questões relacionadas ao problema do suicídio. Para Bosco, é perigoso procurar os tais “sinais indicativos de suicídio”, pois até os profissionais têm dificuldade em diagnosticar com precisão: “serve como regra geral: caso se perceba um distanciamento da pessoa, ou até a constância em abordar assuntos relativos a morte, deve-se chamar para o diálogo: estreitar os laços afetivos é o “remédio” mais efetivo nesse combate”.

Crise econômica – Dr. Bosco afirma que “há vastos estudos sobre a relação entre períodos de crise econômica e o suicídio (…) quando as pessoas estão mais desesperançadas é que essas tendências afloram mais (…) as tensões sociais também têm estreita relação com o aumento de casos de pessoas que atentam contra a própria vida (…) as políticas públicas relacionadas ao tema e o acesso aos profissionais de saúde (psicólogos e psiquiatras) devem ser democratizados”.

Adolescentes que se cortam e “encenação suicida” – Embora sejam circunstâncias distintas, Dr. Bosco faz questão de ressaltar que ambos os casos demandam atenção: “no caso de adolescentes que se cortam, convém dizer que se trata de um ato para chamar a atenção, mas não deve ser encarado de forma preconceituosa (…) nesse caso, querer atenção significa que o adolescente está passando por problemas e que a família deve procurar estreitar os laços afetivos e, por meio de um diálogo franco, procurar entender o que está acontecendo (…) sobre as pessoas que tomam remédios psiquiátricos ou veneno de rato para apenas “encenar uma tentativa de suicídio, o problema é ainda mais sério (…) não se deve, repito, julgar essas pessoas e agir com preconceito, deve-se também chamar para o diálogo, tornar-se mais presente na vida dela (…) há também o risco de, nessa “encenação” a pessoa acabar morrendo mesmo, pois quem sabe qual é a dose letal ou não-letal de determinado remédio ou veneno?”.

O que NÃO fazer – Por fim, o psicólogo ressaltou o que não se deve fazer para tentar ajudar a pessoa a sair desse estado suicida: “como já disse, não devemos julgar ou rotular a pessoa, o problema é grave e deve ser encarado com seriedade (…) também não se deve obrigar a pessoa a fazer coisas que ela não quer ou não se sente à vontade (…) exemplo: obrigar um adolescente a “ir numa pescaria” se ele não quer fazê-lo – tal obrigação pode até agravar o problema (…) forçar a pessoa a ir em uma igreja ou em um grupo religioso ou filosófico e, por fim, fazer desse problema um instrumento de ironia”.

*Números extra-oficiais obtidos por meio de entrevistas e consultas aos bancos de dados do Ministério da Saúde.

 

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