sábado, 22 de junho de 2024

Artigo: A luta nossa de cada dia

Neusa Fleury

Na minha época de faculdade existia um jornal feminista que circulava em São Paulo chamado “Mulherio”, contemporâneo de “O Pasquim”. Tinha a mesma pegada crítica, com charges e tirinhas que denunciavam a situação de opressão cultural vivida pelas mulheres. Ainda vivíamos uma situação de muita desigualdade, e não existiam leis que garantissem nem a nossa integridade física. Não raro homens que assassinavam suas mulheres eram absolvidos com a alegação de “defesa da honra”. 

Percebendo o caminho percorrido, vejo que a sociedade avançou. Devido à luta e coragem de muitas mulheres, hoje existem leis que punem os homens violentos. A virgindade feminina deixou de ser uma imposição, competimos por cargos públicos em condição de igualdade, e meninos e meninas têm acesso à educação. Conquistamos uma independência financeira que possibilita sair de um casamento indesejado; a saúde pública tem programas dirigidos à mulher, e por isso cuidamos melhor do nosso corpo. Enfim, é possível comemorar.

Porém, essas conquistas não são suficientes, pois a sociedade conserva ranços patriarcais e machistas, e a opressão continua existindo disfarçada ou descarada dentro das casas e no ambiente de trabalho, desqualificando as mulheres do ponto de vista intelectual ou físico. Quando um dos homens da família lava a louça, por exemplo, não está fazendo nenhum favor. É sua obrigação, como é dos outros moradores da casa, já que ninguém acha que uma mulher lavando louça ou limpando casa seja um favor para alguém. A dupla jornada de trabalho feminino é uma realidade desumana e injusta. 

Estatísticas a respeito da violência contra as brasileiras são de arrepiar: Acontecem cerca de 50 mil estupros por ano no país. Os homens ganham em média 30% a mais do que as mulheres, mesmo em situações de igualdade de trabalho, idade e instrução.

Essa situação de dificuldades leva a uma triste realidade: Sentindo-se desvalorizadas e despreparadas para enfrentar a vida, jovens mulheres transformam-se em presas fáceis da ditadura de juventude, beleza e sedução. 

O movimento feminista perdeu um pouco da vitalidade depois dos avanços das últimas décadas. Mas sua ação permanente é necessária na defesa dos direitos. Hoje percebemos com mais clareza que a opressão, violência e preconceitos existem independente de gênero. Quem nos oprime? Outros seres humanos, homens e mulheres, desde que o mundo é mundo. 

No tempo do “Mulherio”, queríamos as mulheres no poder. Acreditávamos que a sensibilidade feminina ajudaria na administração pública, e que venceríamos no árido terreno da política fazendo as reformas necessárias. Acabamos descobrindo na prática que competência e capacidade de gestão não têm nada a ver com sexo. Elegemos uma presidente do país, e em Ourinhos uma prefeita. Essas mulheres não estão fazendo governos diferentes ou melhores só porque pertencem ao gênero feminino.

Tenho filha e neta, e um baita orgulho delas, das minhas avós e mãe imigrantes, irmãs e amigas que conquistaram seu espaço com dignidade. Sou grata às gerações que vieram antes de mim, por tudo o que conquistaram. 

Neste Dia da Mulher, espero que possamos, homens e mulheres, juntos, nunca esmorecer na tarefa de  tornar este mundo mais humano.

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