terça, 16 de julho de 2024

ARTIGO: Cidade Precisa Reaprender a Andar

Publicado em 10 fev 2018 - 10:39:11

           

Gustavo Gomes

Ontem assisti a um documentário sobre a Escola de Samba Mangueira e ouvi um comentário muito interessante, que vai ao encontro das minhas teorias. Aliás, as teorias não são minhas, apenas comungo com os maiores pensadores do Urbanismo contemporâneo.

O comentário que ouvi no documentário foi: “O ar condicionado aumentou a insegurança no morro.” Muito interessante!

As pessoas, antigamente, iam para as calçadas das casas ao final das tardes, para se refrescarem sentadas e conversando, até altas horas da noite. Este movimento das moradores nas calçadas permitia que os pedestres sentissem a segurança de um ambiente familiar em seus percursos.

O advento do ar-condicionado levou as pessoas a se fecharem dentro de casa, trancando portas e janelas. A televisão, por outro lado, substituiu as conversas. A falta de pessoas na rua levou à violência. Não foi o contrário.

Logicamente, existe uma grande indústria da segurança, que depende do medo das pessoas para vender muros, cercas, alarmes e câmeras. Terras distantes e sem valor transformam-se em “condomínios de luxo”, com altíssimo valor por metro quadrado. O medo faz parte do negócio.

Paralelamente, o automóvel fez um grande estrago na cidade. Desde que o automóvel passou a ser o membro mais valioso das famílias, a cidade pode ser redesenhada a partir de bairros de uso exclusivo.

No século XX, as teorias urbanistas “inventaram” uma cidade com bairros exclusivamente residenciais separados das zonas comerciais e industriais. Morar passou a ser incompatível com trabalhar.

Isso levou a um espalhamento da cidade, com distâncias impossíveis de serem caminhadas. Passou a ser impossível ir à padaria ou à farmácia sem o uso do carro. Ter um automóvel virou obrigação. O carro tornou-se o “crachá do cidadão”. Você é o seu carro!

As teorias atuais do Urbanismo estão mostrando a necessidade de reduzir a importância e a necessidade de um automóvel no meio urbano. Cidades diversificadas e mais compactas, com maior densidade e mais usos misturados, certamente são mais humanas, lógicas, econômicas e seguras.

Provocando: cidades boas não precisam de vagas no centro, de shoppings e carros blindados. Precisam de gente feliz e encontros.

Só para pensarmos: quantas pessoas vocês conhecem que não andam a pé para não perderem tempo durante o dia, para poderem ter tempo de ir à academia….. andar em uma esteira……????

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