sábado, 6 de junho de 2026

ARTIGO: O silencioso fim do transporte intermunicipal: quem vai pagar a conta do isolamento regional?

Publicado em 06 jun 2026 - 11:53:44

           

O que começou anos atrás com uma discreta redução de horários durante a pandemia transformou-se, agora em 2026, em uma crise sem precedentes

 

David Vico Machado – Região do Médio Paranapanema

 

Quem depende do transporte coletivo para se deslocar entre as cidades de Ourinhos, Ipaussu, Bernardino de Campos, Santa Cruz do Rio Pardo, Manduri, Cerqueira César e Piraju já percebeu que as plataformas das rodoviárias estão cada vez mais vazias.

 

 

O que começou anos atrás com uma discreta redução de horários durante a pandemia transformou-se, agora em 2026, em uma crise sem precedentes: o fantasma do isolamento total e o fim das linhas suburbanas, os populares ônibus “circulares”.

Recentemente, o alerta acendeu de vez nas redes sociais após o portal ‘Você Viu Região’ ecoar o pânico da população diante da iminente retirada de carros por parte da única empresa que ainda opera o trecho.

Para quem olha de fora, parece apenas uma disputa empresarial. Para quem acorda às 05h00 da manhã, é uma ameaça direta à sobrevivência financeira.

 

O EFEITO DOMINÓ: DA QUEDA DA AVOA AO MONOPÓLIO SUFOCADO – O colapso atual não aconteceu do dia para a noite. O primeiro grande dominó caiu em junho de 2024, quando a Auto Viação Ourinhos Assis (AVOA) devolveu a linha Ourinhos x Santa Cruz do Rio Pardo após quase 60 anos de operação, alegando “inviabilidade econômica”.

Na época, a Princesa do Norte (que já havia absorvido a extinta Viação Manoel Rodrigues) assumiu o rojão.

O problema é que, ao se tornar a única alternativa, o sistema ficou frágil. Sem concorrência, a operação foi sendo “enxugada”.

Pedidos formais protocolados junto à ARTESP (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) revelam o que a burocracia tenta esconder: a tentativa sistemática das empresas de suspender linhas deficitárias, como o ramal Ourinhos x Piraju.

A estratégia é clara: sufocar o serviço, reduzir a frota e forçar o Estado a liberar a empresa do contrato.

 

QUEM É O VERDADEIRO CULPADO? – No jogo de empurra do poder público, ninguém assume a paternidade do problema, mas a culpa é compartilhada em três frentes:

  1. As Empresas (visão de lucro puro): Tratam o transporte público — que é um direito constitucional — apenas como planilha de custos. Se uma linha que entra em municípios menores recolhe poucos passageiros fora do horário de pico, ela é descartada.
  2. A ARTESP (inércia burocrática): A agência reguladora do Estado opera com uma lentidão extrema. Permitiu cortes de horários na pandemia que nunca mais voltaram e demora meses para realizar chamamentos emergenciais ou novas licitações.
  3. A explosão da informalidade: Com o sucateamento dos ônibus, o passageiro migrou para caronas de aplicativos, grupos de WhatsApp e vans clandestinas. Sem a tarifa do passageiro comum, a conta do ônibus oficial não fecha, retroalimentando a crise.

 

O IMPACTO NA PELE: QUEM DE FATO PERDE? – Se as linhas suburbanas desaparecerem de vez, os prejudicados têm nome, sobrenome e classe social.

Estamos falando do trabalhador de baixa renda que atua no comércio ou na indústria de Ourinhos e Santa Cruz, mas mora em Ipaussu ou Bernardino; do estudante que precisa da faculdade ou do curso técnico à noite; e do paciente do SUS que depende do deslocamento para consultas e exames de especialidades.

As consequências para as cidades menores do nosso eixo são alarmantes:

  • Desemprego regional: Empresas dos polos maiores tendem a parar de contratar moradores de cidades vizinhas, já que o custo do transporte privado se tornará inviável.
  • Êxodo forçado: Cidadãos serão obrigados a mudar de cidade para manter seus empregos, esvaziando o consumo e a economia dos municípios menores.
  • Encarecimento do direito de ir e vir: Sem o ônibus circular (mais barato e pago na catraca), o cidadão fica refém do ônibus rodoviário convencional (com passagem marcada e muito mais cara) ou da insegurança jurídica dos transportes clandestinos.

 

O QUE ESPERAR DO “ANDAR DA CARRUAGEM”? – Se o cenário seguir o fluxo atual, o futuro reserva a “rodoviarização” do trecho. O ônibus circular vai sumir, restando apenas duas ou três opções diárias de ônibus rodoviários de longa distância.

As prefeituras locais, já sufocadas com orçamentos apertados, serão obrigadas a arcar com o pato, inchando suas frotas de vans municipais para carregar estudantes e pacientes.

O transporte intermunicipal não pode ser tratado como um luxo ou um negócio descartável. Trata-se de integração regional e dignidade.

Para frear essa carruagem que ruma ao retrocesso, é urgente que os prefeitos e as Câmaras Municipais da região deixem as disputas políticas de lado e ajam em bloco, acionando o Ministério Público para exigir que o Governo do Estado de São Paulo e a ARTESP cumpram o seu papel: garantir o direito básico do cidadão de ir e vir.

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