quarta, 21 de fevereiro de 2024

Artigo: Risco à Saúde Pública

Dr. Éder Carvalho Sousa

Além de todas as mazelas já cometidas contra a Saúde Pública e a Medicina no Brasil, está ocorrendo um fato de grande importância e que representará um impacto extremamente negativo: a proliferação de Faculdades de Medicina sem condições de formar bons profissionais. 

Recentemente o MEC anunciou a criação de mais 37 cursos de Medicina sendo 13 deles no Estado de São Paulo, onde o número atual de médicos por mil habitantes é bem maior que nos países desenvolvidos. O mais grave é que sabidamente essas faculdades não terão condições técnicas suficientes para propiciar uma boa formação pois não possuem estrutura de serviços de saúde capacitados para ensino médico de qualidade e muito menos corpo docente titulado disponível. 

Sem bons professores não há boa formação profissional em nenhuma área do conhecimento; na medicina mais ainda pois é uma ciência em evolução, que requer atitude de pesquisa constante, formação científica consistente, grande viés humanístico pois trata de vidas humanas. Não é nada fácil formar bons médicos e o governo está brincando com isso em vez de garantir boas faculdades para fornecer bons médicos à população.

 Isso atende a dois grandes interesses: donos de instituições de ensino que visam lucro (o curso de medicina é atrativo e caríssimo) e governantes populistas que querem oferecer profissionais de medicina à população sem se importar com a qualidade, portanto oferecendo salários irrisórios. 

Os candidatos, independente de vocação e sem querer se esforçar o suficiente para buscar uma formação mais qualificada numa boa Faculdade, visando uma profissão pretensamente rendosa,  aceitam pagar mensalidades exorbitantes, e após 6 anos estão formados. O Brasil já está formando quase 30 mil médicos por ano. 

Em uma década teremos dobrado o número de médicos no país mas… Com que qualidade?  O Conselho Regional de Medicina faz uma prova para os recém formados no Estado de São Paulo (o mais desenvolvido do país!) que é básica, não sai da realidade de questões de requerem conhecimentos essenciais para se exercer a medicina, e persistentemente cerca de 60% dos candidatos são reprovados e isso está só piorando.

 Taís profissionais pegam seus diplomas, depois de um curso ruim, e estão na vida prática atendendo pacientes nos ambulatórios, pronto-socorros, postos de saúde e hospitais… Estão aí, praticando uma medicina de má qualidade e agravando a já trágica assistência à saúde no Brasil. 

O paciente, sem saber, é atendido por um profissional mal qualificado, pensa que seu problema de saúde está sendo bem conduzido, e muitas vezes vai perceber que foi iludido tarde demais. Seria melhor não haver atendimento (pois ao menos daria a chance do paciente buscar um serviço bom) do que haver um atendimento médico de má qualidade.

 Trilhamos um caminho perigosíssimo e a sociedade já está se defrontando com as consequências dessa triste realidade do excesso de médicos com má qualificação profissional. Isso está frequentemente retratado nas manchetes de jornais.  

Os Estados Unidos viveram um caos semelhante há cerca de 100 anos. Então uma comissão chefiada por Abraham Flexner elaborou relatório sobre a qualidade das escolas médicas americanas, o que resultou no fechamento da várias. 

No Brasil estamos caminhando no sentido inverso graças à populista e infeliz política levada a termo pelo governo federal: Programa Mais Médicos. Sabidamente o Brasil é um dos países que menos investe em Saúde Pública. 

O governo investe pouco e gerencia mal a saúde, mas vendeu à população a idéia que o problema da falência da Saúde Pública é a falta de médicos para justificar o programa eleitoreiro “mais médicos” que trouxe profissionais de formação duvidosa para atender nos postos e permitiu a abertura indiscriminada de pseudo faculdades. Um erro atrás do outro!

  Importante este alerta para que a população tenha uma visão crítica sobre o problema. Muitas ações precisam ser desenvolvidas para que nosso país tenha uma saúde publica de melhor qualidade, que venha de encontro às reais necessidades das pessoas.

Entre elas cuidar da formação de profissionais da medicina. Todos queremos, num momento de doença em que nossas fragilidades se revelam, ser atendidos por um bom médico, com respeito e dedicação, apto a fazer um diagnóstico correto e conduzir bem o tratamento. 

Tão importante quanto ter serviços de saúde bem montados e equipados é ter profissionais bem preparados para cuidar do que temos de mais precioso: nossa vida. O governo não pensa assim. 

Precisamos nos mobilizar para mudar essa realidade. Vamos à luta por uma Medicina melhor em nosso Brasil.

Dr. Éder Carvalho Sousa – Presidente da Associação Paulista de Medicina – Regional Ourinhos

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