sábado, 15 de junho de 2024

Artigo: Sobre incertezas e terremotos

Neusa Fleury de Moraes

Viver pode ser muito bom, e quando existem crianças por perto este sentimento fica mais evidente. Acompanhar o crescimento de um ser humano é um privilégio, e costuma motivar e dar sentido à vida. Coisa boa quando sorriem pra você, balbuciam as primeiras palavras, começam a ler e também quando percebemos que já podem seguir sozinhos, que conseguirão cair, levantar e prosseguir, como também fizemos.  

Muitas outras experiências provocam esse sentimento de gratidão pela vida. Uma paisagem, um cheiro, uma música, um olhar, um filme ou um poema também são capazes de nos tirar do automático, resgatando a ligação com o que realmente importa em nossa existência. 

Mas confesso que fico amargurada pensando em qual será o futuro reservado para nossas crianças, que desejamos tanto que não sofram, ou na impossibilidade desta situação, que sofram bem pouquinho. É que as coisas andam tão complicadas que temo pelo que possa acontecer com elas, e você com certeza também já pensou nisso, lembrando-se de filhos ou netos. 

Nos últimos meses contabilizamos desgraças demais. Assistimos a atentados terroristas pelo mundo, ao maior desastre ambiental do país provocado pelo rompimento da barragem em Minas Gerais, estamos tentando nos equilibrar enfrentando grave crise financeira, o fechamento de escolas no estado de São Paulo e a insegurança de viver com tanta violência e instabilidade política.   

Meu avô Nelson tentava proteger os netos à sua maneira. Reunia as crianças para conselhos que ele considerava muito úteis, como pedir para que tomássemos muito cuidado com os índios, que podiam ser ferozes. E com as onças também. Nem percebia que sua infância na fazenda já havia passado há dezenas de anos e que o mundo tinha mudado demais, e os netos jamais veriam índios selvagens; e onças, só em zoológicos. Esse meu avô nos ensinava também a sentir orgulho de nosso país. Ele acreditava sinceramente que seríamos o país do progresso, que em pouco tempo nos transformaríamos em um modelo para todo o mundo, pois possuíamos a melhor terra, o melhor clima, uma área territorial imensa e um povo bom e trabalhador. Seria no Brasil a oportunidade de uma vida tranquila e realizada para todos nós, crianças à época. 

Esta lembrança me levou a outra, à música do Premeditando o breque, chamada “Bem Brasil”, que diz assim: “Aqui não tem terremoto, aqui não tem revolução. É um país abençoado onde todo mundo mete a mão”. Senti alívio ao pensar que meu avô morreu há mais de trinta anos.

A verdade é que me veio uma tristeza danada pensando que não consigo passar essa esperança e sentimento de orgulho para os meus netos. Minhas incertezas são mais fortes, e muitas vezes me sinto impotente pensando no futuro deles. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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