sábado, 22 de junho de 2024

Artigo: Um adeus ao som da viola

Neusa Fleury

“Como ela era bonita”, disse meu filho vendo as fotos divulgadas por ocasião da morte de Inezita Barroso. Ele nunca havia visto fotos da juventude da estrela de “Viola, minha viola”, e a imagem que tinha dela era da senhora idosa que cantava e apresentava o programa de TV. 

Também não me lembro da imagem de Inezita jovem, mas de sua voz em programas de rádio sim. Quando eu era criança o mundo ainda não havia sido invadido pelo fenômeno da imagem. A gente ouvia rádio e imaginava, lia histórias e imaginava. As revistas eram poucas e os aparelhos de TV eram raros. Bem diferente de hoje, onde fotos e filmes pulam dos celulares o tempo todo. A primeira lembrança que tenho dela é da bronca que levei da minha mãe porque estava com um grupo de crianças cantando a Moda da pinga (A marvada pinga), e imitando o andar cambaleante dos bêbados. Ela ficou brava dizendo que imitar bêbado era uma coisa muito feia para uma menina, e que deveríamos ter modos. 

“Lampião de gás” também é das músicas cantadas por ela que ouvi na infância, e a valsa “Saudades de Matão” ficou linda no vozeirão de Inezita. Meu avô também tocava essa valsa na gaita de boca, o que me dá saudades sempre que escuto. A gente ouvia no rádio e aprendia as músicas, as mulheres cantavam enquanto faziam serviços de casa – faço as contas e vejo que cantava-se mais naquele tempo. 

Inezita foi uma mulher corajosa, à frente de seu tempo. Nascida em uma família rica, frequentou boas escolas. Mas desde criança foi atraída pela música dos peões das fazendas, dos trabalhadores da roça. Enquanto as meninas da sua geração aprendiam piano, ela se interessou pela viola caipira, um instrumento praticamente só tocado por homens. Até hoje são poucas as violeiras. Dona de uma voz grave e personalidade forte, foi em busca do que faria sentido para sua vida, a preservação da cultura brasileira, especialmente a dos paulistas. Tinha um sentimento de patriotismo que hoje, mesmo em tempos de manifestações populares, parece esquecido. Inezita era paulista, reconhecia a rica cultura do interior e queria que fosse valorizada. “Cada vez mais nos tornamos iguais, não em direitos e benefícios, mas no modo de viver e ver o mundo. Na verdade somos seres humanos, com histórias e culturas diferentes. Essa homogeneização só é boa para a distribuição rápida de produtos, para o consumo, para a padronização de pensamentos, e empacotamento de ideias”, disse em sua biografia publicada pela Edição Aplauso, da Imprensa Oficial.

Inezita viveu períodos de grandes transformações sociais e soube se adaptar, trabalhando praticamente até o fim da vida. Estrela do rádio em sua fase áurea, ocupou também seu espaço na TV. O mesmo não aconteceu com outras cantoras da época que com o declínio do rádio encerraram suas carreiras. É que Inezita foi muito mais do que uma cantora. Fez cinema, escreveu, fez shows, produziu artistas, pesquisou e estudou muito. Manteve por mais de 30 anos o programa “Viola minha viola” na TV Cultura, onde resgatou a conversa, o sotaque e o clima do interior, dando visibilidade para artistas que jamais teriam espaço na mídia. Imagino o que ela precisou enfrentar para defender a importância dessa cultura caipira. Tinha um público fiel que lotava o auditório para a gravação dos programas, onde eram proibidos a guitarra, o teclado e a bateria. 

Se tivesse seguido o que estava reservado para as moças de sua época, teríamos perdido uma preciosa liderança em defesa da música que ela chamava de caipira, com orgulho. Não aceitava o rótulo de “sertaneja” para a música produzida no interior de São Paulo, justificando que aqui nunca foi sertão. Inezita fazia seu trabalho com amor, seu comprometimento com a causa da cultura era verdadeiro. Envelheceu com dignidade, sem disfarces, nas telas da TV.

Fiquei sabendo depois da sua morte que era bibliotecária, formada pela primeira turma do curso na USP. Grande leitora e admiradora de Mário de Andrade, não perdeu a autenticidade e a caipirice mesmo possuindo uma formação privilegiada. Sobre o hábito da leitura, vejam o que ela disse: “As crianças de hoje sonham pouco, só computador, muita coisa exata. Seria bom recuperar essa nossa literatura. Tem saci, tem curupira, tem mula sem cabeça, não precisariam ter que engolir esta história de halloween…”

Inezita valorizou um comportamento e prazeres que os moradores da cidade vão perdendo: o cheiro do mato, o canto dos pássaros, o fogão a lenha, a conversa fiada, enfim uma vida simples com mais contato com a terra.

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