terça, 10 de março de 2026
Publicado em 01 ago 2016 - 05:52:45
Eu, desabada no chão desse nesse estacionamento com os cascalhos cutucando minhas nádegas, bêbada como nunca estive nos meus últimos 42 anos, vejo ele me estender a mão… Mas esse é fim da noite, voltemos ao começo.
Depois de dois anos sem sair de casa, a Helena finalmente me convence ir pra balada. Um casamento mal sucedido e um namoro conturbado me fizeram entoar o mantra “homens nunca mais”. Mas essa noite a Helena me convence a colocar uma saia de fenda emprestada e ir ao show couver do Scorpions. Sinto-me bonita, me olho no espelho mais uma vez, respiro fundo e entro no Chevette dourado 1993 da Lena.
Envergonhada e meio sem jeito, logo que entro sento-me na banqueta do bar, peço um Cuba Libre e o garçom de 20 anos me olha como se eu tivesse pedido lava quente, até os drinks envelhecem. Manda uma batida de kiwi com saque então.
A Lena deu sorte (se é que se pode chamar de sorte), eu a vejo na pista de dança atarracada num adolescente beiçudo com alargador nas orelhas. A noite avança e continuo no bar. Já fui cantada por um velhote barrigudo com chapéu de peão, um careca com um perfume tão doce que parecia ter saído de um saco de pirulitos e dois bêbados chatos. Mas eu estou me divertindo mesmo é com os olhares de um grisalho tímido na outra ponta do bar. Quando o vejo se levantar e vir na minha direção, fico roxa como aquele dinossauro que meu filho assiste todo dia na TV. Foi nessa hora que ele apareceu.
Paulão, meu primeiro namorado e minha primeira desilusão amorosa. Ele tem uma cabeça maior que o normal e eu sempre achei isso charmoso num homem, sinal de inteligência. Continua lindo com aquele sorriso no canto dos lábios e um ar esnobe de quem não faz nenhum esforço pra ser simpático. Ele me cumprimenta com um selinho estalado e relembramos os velhos tempos, e bebemos, rimos, e bebemos, dançamos um pouco, e bebemos. Foi como se eu tivesse 18 anos de novo, quando ele era meu príncipe e jurava que eu era sua princesa. Mesmo assim me traiu com a Janete, uma dadivosa que morava no final da rua.
Nós estávamos um nos braços do outro novamente, ele passou a mão na minha cintura e eu me deixei levar, de novo. Foi ai que eu toquei no bolso da camisa, senti um pequeno circulo guardado ali. Um anel. O sangue sumiu das minhas veias, olhei para a mão esquerda e lá estava ela, a marca indelével da aliança retirada talvez há poucas horas. Provavelmente foi o excesso de álcool, ou a vergonha de ser enganada de novo, ou a traição acontecida há muitos anos atrás, ou tudo isso junto me fez sentir um nojo danado daquele homem que nunca seria fiel a mulher alguma. E como vingança meu corpo expulsou toda a mágoa que eu sentia por ele e junto com a magoa vieram as quatro batidinhas de kiwi que eu havia tomado. Você já viu alguém vomitado de kiwi meu amigo? Nem queira.
Depois disso as coisas aconteceram muito rápido. Atravessei a pista de dança, passei pelo portão de entrada e tentei chegar ao carro no estacionamento, mas as pedras e a brisa do álcool me fizeram desabrochar no chão. Minha bolsinha caiu aberta e espalhou tudo pelo cascalho empoeirado. Ainda atordoada pude ver alguém recolhendo minhas coisas, fechando minha bolsa e me estendendo a mão… e chegamos ao começo.
O grisalho tímido me deu um sorriso franco como se não houvesse segredo nenhum ali. Ajudou-me a levantar e me entregou nas mãos da Lena que chegava esbaforida. Eu não disse nada, ele não disse nada, só sorrimos um pro outro em despedida. Eu e Lena entramos no carro e depois de parar pra vomitar mais uma ou duas vezes chegamos em casa. Fui pegar as chaves na bolsinha mas havia algo mais ali dentro, um cartão de visitas, o tímido grisalho era veterinário. Eu poderia ligar, ou não, poderia ter um romance de uma noite ou de um verão todo, poderia comprar um cachorro só pra aparecer na clinica dele. De repente esses pensamentos me fizeram sentir alegria em viver porque depois de tantas coisas, depois de criar os filhos, pagar as contas, tentar, ter o coração partido, tentar de novo e errar de novo, eu ainda tinha uma vida inteira prela frente e só devia satisfação a Deus e a mim mesma. Não se pode ter tamanha liberdade aos 18 anos. Pensando bem, é muito bom ter 42 anos de novo…
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