terça, 10 de março de 2026

Diabetes: Ourinhos é exemplo para o país no combate a uma das doenças que mais matam no mundo

Publicado em 20 mar 2018 - 02:09:13

           

Alexandre Mansinho

Estimativas que levam em conta números do IBGE e da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) apontam que, em Ourinhos, pouco menos de 10% da população sofre com diabetes, o que seria em torno de 9.147 pessoas. As mulheres são a maioria nesses números, 5.251 pessoas, correspondendo a pouco mais de 57% do total. 

Embora os casos de diabetes entre as mulheres sejam mais numerosos, basta ir a qualquer posto de saúde em nossa cidade que a constatação será muito simples: as mulheres são as que mais se preocupam em tratar a doença.

CASOS NÃO DIAGNOSTICADOS – A SBD estima que cerca de 45% dos diabéticos não têm a menor noção que têm a doença, tanto entre homens quanto mulheres. Esse número é particularmente nocivo, pois acaba aumentando sua gravidade e os efeitos colaterais.

Isso equivale a dizer que, em Ourinhos, mais de 4 mil pessoas vivem suas vidas despreocupadamente todos os dias sem saber que têm uma doença crônica e progressiva que, quando menos se espera, pode comprometer profundamente suas vidas.

MAL SILENCIOSO – Diferente de uma gripe ou uma pneumonia, a diabetes é uma doença crônica e silenciosa, com exceção de alguns casos mais agressivos que levam o paciente para um pronto socorro, onde durante o atendimento, o profissional médico acaba por fazer o diagnóstico, que na grande maioria dos casos é desconhecido pelo atendido. 

O Sistema Único de Saúde – SUS não tem números exatos, mas estima-se que somente a diabetes, levando em conta todos os danos que ela provoca e todos os efeitos colaterais, consome quase 40% de todos os recursos destinados no Brasil para o tratamento público de saúde.

DANOS PROGRESSIVOS – A perda da capacidade do pâncreas em controlar os níveis de insulina, que popularmente é chamado de “açúcar no sangue”, é o pontapé inicial de um número enorme de males que afetam a pessoa que tem diabetes. Cegueira, amputações, insuficiência renal, problemas cardíacos e impotência sexual estão entre os problemas que são acarretados pela diabetes sem controle.

OURINHOS, REFERÊNCIA PARA O BRASIL – O trabalho em conjunto da ADO com a SMS proporciona aos pacientes diabéticos de baixa renda um tratamento que é considerado referência para o combate à diabetes e a seus efeitos colaterais. Quando os médicos dos postos de saúde percebem que o paciente já não responde de forma satisfatória aos tratamentos tradicionais, o próprio profissional encaminha a pessoa para a ADO e lá, com uma equipe de trabalho multidisciplinar, os resultados positivos começam a aparecer.

DIFERENCIAIS DA ADO – A Enfermeira Sônia Aparecida Dias Garcia explicou à reportagem como é feito o trabalho da ADO. Segundo ela, o diferencial é que o paciente tem a seu dispor todos os profissionais necessários para que a doença seja combatida em todos os seus aspectos: “temos um psicólogo que acompanha os pacientes, visto que se ele está desanimado com suas perspectivas de melhora, o tratamento não faz o efeito desejado (…) já tivemos até oficina para ensinar os pacientes a fazer pão de forma com ingredientes integrais e saudáveis”.  

DEPARTAMENTO JURÍDICO – Este é mais um diferencial da ADO, há dois advogados que trabalham em conjunto com a associação para acionar judicialmente o governo do estado quando for necessário. Um resultado positivo desse trabalho é que, recentemente, o governo foi obrigado a subsidiar bombas de insulina para serem instaladas em pacientes que não tinham mais resposta positiva no tratamento tradicional.

PENSO EM VOLTAR A TRABALHAR –  Mauro Gomes de Souza não é o estereótipo do diabético – ele não é idoso e muito menos obeso, no entanto ele, como uma considerável parcela da população, embora não tenham dietas desregradas e nem fatores externos de risco, tornaram-se diabéticos por fatores genéticos: “quando eu fui diagnosticado com diabetes minha vida mudou pra pior, tive que me afastar do trabalho por não conseguir conciliar o tratamento e as atividades profissionais”. 

No entanto, depois de “brigas” judiciais, o governo do estado subsidiou a bomba de insulina de Mauro: “penso em voltar a trabalhar, porque agora minha qualidade de vida melhorou”.

“A PREFEITURA TRABALHA EM CONJUNTO, MAS O GOVERNO DO ESTADO…” – Júlio Cezar Benatto, presidente da Associação dos Diabéticos de Ourinhos, recebeu a equipe do Jornal Negocião e partilhou como funciona o cotidiano da associação. 

Para Júlio, a parceria com a prefeitura é positiva, no entanto o governo estadual cria entraves, uma vez que ele não fornece os remédios de alto custo e até, em alguns casos, não atende determinações médicas específicas: “o caminho acaba sendo as ações judiciais, só dessa forma o governo tem cumprido suas obrigações”.

Para Benatto, o grande erro do governo estadual tem sido olhar apenas para os custos imediatos, sem levar em conta a economia real que isso acaba proporcionando a longo prazo: “uma bomba de insulina, por exemplo, custa cerca de 30 mil reais (…) mas o paciente volta a trabalhar, volta a produzir, volta a pagar impostos, deixa de depender do INSS e, principalmente, deixa de gerar custos para o SUS”.

RESULTADOS POSITIVOS – Valquíria Silva de Oliveira é esposa de Clóvis Luiz de Oliveira, que há 7 anos é atendido pela ADO: “aqui o tratamento é humanizado, e quando precisamos de alguma coisa eles nos orientam a como conseguir”, diz Valquíria. 

Juliana Coutinho Barboza foi diagnosticada há apenas 5 meses, no entanto como seu quadro é grave, já foi encaminhada à ADO: “eu estou aqui hoje pela primeira vez, posso perceber já algumas coisas muito positivas”. 

Rosa Maria de Jesus Silva foi paciente da ADO já havia um tempo, como suas taxas de glicemia estavam sob controle, voltou a ser atendida pelo posto de saúde convencional – no entanto, como seu quadro voltou a piorar, o médico fez o encaminhamento: “aqui temos bons profissionais”.

“É DIFÍCIL CONSEGUIR CONSULTA COM ENDOCRINOLOGISTA” – Roseli Domingues Peres Pontes, Maria Conceição de Oliveira e Antônia Fadini Lino têm histórias muito parecidas. Encaminhadas à ADO por estarem com os índices de glicemia sem controle, disseram a equipe do Negocião o que, na opinião delas, acaba sendo o ponto mais positivo entre a parceria da associação com a SMS. Segundo elas, pela rede estadual o tempo para conseguir uma consulta com um médico endocrinologista é grande, pela parceria a consulta é em semanas.

“GATOS” – Atualmente são 3,5 mil pacientes atendidos na parceria, e todos, pelo menos no papel, ourinhenses. No entanto, conforme já identificado quando se cruzam os dados da ADO com os do SUS, percebe-se que alguns pacientes que moram em outras cidades fazem “gatos” para conseguir atendimento em Ourinhos. Esses pacientes pegam comprovantes de endereço de parentes ou amigos do município e mentem na hora de preencher as fichas. Embora seja por um bom motivo, essa prática é ilegal e até punível pela lei.

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