quinta, 18 de julho de 2024

“É difícil mudar a cultura quando não se cresce assimilando palavras e comportamentos”, diz presidente do OSBO

Publicado em 09 dez 2016 - 05:29:22

           

José Luiz Martins

“Que pais é este”? Essa indagação feita vinte a nove anos atrás na famosa canção de Renato Russo gravada em 1987 parece ainda continuar sem resposta. Nos últimos anos a palavra corrupção tem estado tão presente no cotidiano dos brasileiros, a insistência com a qual ouvimos e damos de cara com ela diariamente no noticiário tem um significado duro. Só revela o quanto ainda estamos longe de tornar o Brasil uma grande nação do ponto de vista da ética e da cidadania.

Viver em sociedade significa pensar no coletivo acima de seus próprios interesses, mas ter privilégios e buscar vantagens é um costume no Brasil originado em comportamentos antiéticos, a corrupção está imersa numa complicada rede de questões e considerações sócio culturais.  

Para o professor de Sociologia e Política da UENP/FATEC e FIO Maurício Gonçalves Saliba, é natural que se tenha a sensação de que nunca houve tanta corrupção: “Penso que nunca se divulgou tanto a corrupção e nunca se apurou tanto corrupção. O último governo, queiram ou não, instrumentalizou e preparou a polícia para que pudesse apurar coisa que jamais foi feito”. Para o sociólogo a população se assusta e não dá para medir se em governos anteriores houve mais ou menos corrupção, o fato é que só agora sabemos o tamanho dela, que está sendo apurado e isso tem chacoalhado a nossa incipiente democracia.

A divulgação diária de notícias de corrupção tem tido grande impacto na população, a maioria não tinha consciência do que estava acontecendo. Existe um total desalento com a política, a forma de governo e a economia revelando o tamanho e os componentes da crise em que vivemos. Saliba explica que a nossa história é de uma república muito mal construída com dificuldades de separar o que é público e o que é privado, que o brasileiro sempre confundiu a questão do comportamento ético e cidadania. O que é de todos e o que é meu? “Isso gerou na cabeça das pessoas aquela coisa do jeitinho, de se aproveitar das coisas, então nesse sentido, vejo uma crise ética o que estamos passando e a educação é fundamental nessa questão, ressalta”.

“O povo brasileiro pouco foi educado para ética e cidadania, é difícil mudar a cultura das pessoas quando elas não cresceram assimilando determinadas palavras e comportamentos”, a observação é do presidente do recém criado Observatório Social de Ourinhos Emerson Cavalcante. Ele destaca que o projeto do Observatório Social é prevenir o mau uso do dinheiro público e economizar, que mudar comportamentos em relação a isso está ligado a atenção à ética e cidadania. “As pessoas têm que ter a visão de que o dinheiro público é seu, que o dinheiro mau gasto, da corrupção, sai do bolso dos cidadãos. Cuidar desse dinheiro, da qualidade dos serviços públicos, é uma obrigação de todos, não é uma mera vontade de um grupo de pessoas é um dever de todo cidadão”, salientou.

Para Cavalcante a ética é muito importante, mas o caráter é mais importante e todos têm que aprender a fazer as coisas com ética, analisando o que é certo e o que é errado. “Sabemos que tem muita coisa errada na nossa cidade e no país como um todo. A ideia do Observatório é também despertar as pessoas para que cada um contribua de alguma forma para que tenhamos uma cidade com cidadãos mais atentos a ética e cidadania” destacou.

 

Para Maurício Saliba paira dúvidas sobre se a atuação da grande mídia está provocando reflexões nos cidadãos sobre essa questão. “A grande mídia amedrontou as pessoas e acabou gerando ódio que virou enfrentamento distante da ética e da cidadania. Vejo que há muita bateção de panelas quando há a pressão direcionada da mídia. Quando ela para de pressionar por conta dos seus interesses políticos e econômicos, as panelas param de bater”, criticou. Ele acrescenta que a educação é um caminho para despertar para a ética e cidadania, mas, fora das escolas isso é mais complicado, pois os partidos estão sem credibilidade e não estão pensando nisso. “Precisamos encontrar outros caminhos que tornem essa discussão sobre ética, cidadania e política cada vez mais pública, esse papel é da educação, da mídia e de todos nós. 

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