quinta, 22 de fevereiro de 2024

Educação: Discurso de autonomia, práticas de subserviência

Artigo Li Paroli

Vamos dar a mão à palmatória? Precisamos reconhecer que a educação do Brasil, que de maneira geral nunca foi lá muito boa, tem caminhado mal das pernas. Salas lotadas, professores desmotivados, estudantes desinteressados e, como se não bastasse, as mudanças anunciadas não significam uma melhoria real das condições de ensino e aprendizagem.

Isto porque a tal “reforma” do Ensino Médio elaborada por esta gestão federal, em nenhum momento dialogou com a sociedade sobre o tema, ignorando seus principais interessados: educadores e alunos (as). O que ela não ignorou foi mesmo os interesses do Mercado, preocupado em criar um “estoque” de mão de obra barata, disponível e minimamente preparada para o trabalho. Esta gestão também extinguiu o programa Ciências sem Fronteiras e acena para a possibilidade de cobrança de mensalidades nas universidades públicas. Ah! E não podemos esquecer do polêmico “Escola sem Partido”; projeto que pretende atuar como censor, uma espécie de “polícia do pensamento” e das opiniões transmitidas pelos professores no ambiente escolar. Parece bizarro, mas é perigoso. 

Educação é um dever de Estado e disto nós sabemos. O que nem sempre nos lembramos é que educação é sobretudo, política de Estado e instrumento dele. Definir os rumos da educação significa estruturar medidas a médio e longo prazo para qual projeto de país desejamos ser, o que pretendemos alcançar e que de que modo. Nada disto é feito a esmo, de modo ingênuo.

Neste sentido, educar para a autonomia ou para a obediência configura uma escolha política. E aqui começa o contrassenso. A ideia de uma escola plural, democrática, que forma para a cidadania e estimula criatividade, criticidade e autonomia conforme estabelecido nas diretrizes curriculares da educação, parece não se “encaixar” nos moldes das escolas que ainda temos: tradicionais, arcaicas, voltadas para a disciplina, onde o “bom aluno” é o que sabe ficar calado e obedece. O controle mental e corporal exercido sobre os estudantes destoam de qualquer possibilidade de independência pessoal; seja física, mental ou criativa. Como podemos falar de educação autônoma num espaço onde na maioria das vezes o professor possui inclusive controle fisiológico sobre os alunos, que dependem de permissão até mesmo para usar o banheiro? 

Práticas pedagógicas como essa revelam uma herança secular e maldita; do longo período que matérias escolares e respeito as regras eram compreendidas “na marra”, mediante castigos físicos. Detentor do livro e da vara, o professor representava ao mesmo tempo o conhecimento e a lei. A palmatória, utensílio utilizado pelos padres jesuítas para “civilizar” os nativos, por colonos para punir seus escravos e depois por torturadores na Ditadura, foi considerada “método eficaz” de disciplinarização de crianças. Ajoelhar no milho, levar “reguadas” e ser punido com palmatórias era cena comum nos chamados grupos escolares até meados de 1960.  

Verdade seja dita, ninguém aprende de fato sobre pressão, temente de violência. Estudantes desta época ficaram craques em burlar as regras, como mentir e colar para evitar punições. Se a obediência estava garantida, não havia como afirmar o mesmo quanto a aprendizagem. Ainda bem que de lá para cá avançamos um tanto. Tomamos mais consciência, ficamos um pouquinho mais humanos, talvez. Mas, ainda estamos distantes de uma educação autônoma – efetiva e afetiva. 

Embora toda a “culpa” pelas possíveis falhas do sistema educacional recaia frequentemente sobre os professores, precisamos dividir a responsabilidade por estes resultados com os demais autores deste processo; professores não atuam de forma isolada, senão orientados por suas diretorias de ensino estaduais que são, por sua vez, sujeitas normas do ministério da educação. Ou seja, a tão propagada “liberdade de cátedra” dos educadores “doutrinadores” é limitada não apenas por conteúdos escolares previamente estabelecidos, como por meio dos direcionamentos dos projetos políticos pedagógicos definidos para as escolas. Deste modo, não é exagero dizer que educadores tolhem os alunos principalmente porque são igualmente tolhidos. No mais, também não é exagero admitir que um clima de censura “paira no ar” e tem agido de “mansinho”.

Dias atrás, o vereador da cidade de São Paulo, Fernando Holiday visitou escolas sem nenhum aviso prévio, quis verificar os planejamentos de aulas dos professores e “averiguar o que estava sendo ensinado”. Apesar da postura do jovem político ser considerada inadequada e típica de governos ditatoriais, o Prefeito João Dória o apoiou e disse apenas que ele deve notificar a prefeitura antes de se dirigir até as instituições de ensino. 

Educar para criticidade, autonomia? Como, se tão pouco quem educa possui a permissão para ser crítico ou autônomo? Não pretendo dar “a mão à palmatória”, apenas concluir o textão com uma frase de Florisa Verucci: “Limite não é censura. Bom senso não é burrice. Respeito não é repressão”. E afirmar que o novo sempre vem.

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