segunda, 15 de abril de 2024

Estradas da região norte do Paraná registram alto número de acidentes e vítimas fatais

Segundo usuários, a maioria das rodovias têm pistas simples e com traçados que tornam o tráfego de veículos pesados um risco

 

Alexandre Mansinho

 

As estradas paranaenses têm sido palco de uma série de acidentes trágicos, deixando um rastro de morte e destruição e gerando preocupação entre as autoridades, usuários e a população local. O Negocião Digital ouviu profissionais do setor de transportes e buscou levantar alguns casos de fatalidades que reforçam a fama que as vias do estado do Paraná têm de serem verdadeiros “corredores da morte”.

O tema ganhou ainda mais força com a recente retomada da cobrança de pedágio em diversas praças espalhadas pelo estado; autoridades governamentais e concessionárias, por sua vez, afirmam que os problemas de segurança e infraestrutura das estradas serão, aos poucos, solucionados.

 

HISTÓRIAS DE DOR E DE MORTE — A região norte do Paraná tem sido palco de uma série de acidentes trágicos nas estradas, um breve retrospecto, baseado nas matérias publicadas pelo Negocião Digital já serve de parâmetro para ilustrar a situação de perigo pela qual passam motoristas e pedestres que são obrigados a usar diariamente essas estradas.

Em Santo Antônio da Platina, no dia 30 de janeiro, uma família foi devastada por um acidente gravíssimo na PR-092. O motorista do carro, Jair Alves Mota, sua esposa Josiane dos Santos Mota, e o filho do casal, Matheus Henrique Mota, de apenas cinco anos, perderam suas vidas, assim como João Maria Alves, de 73 anos.

 

 

Poucos dias depois, no dia 2 de fevereiro, outra colisão fatal também chocou os moradores de Santo Antônio da Platina. Um acidente entre dois caminhões na PR-092 resultou na morte de um dos motoristas e deixou o outro gravemente ferido. A rodovia precisou ser bloqueada por mais de 18 horas devido ao risco de explosão, devido à carga de um dos veículos, que transportava etanol. A complexidade da situação exigiu a intervenção de equipes especializadas em limpeza de substâncias tóxicas.

 

 

Em Siqueira Campos, no dia 21 de março, um grave acidente envolvendo carretas e um carro resultou em uma vítima fatal e três feridos. De acordo com informações divulgadas pela Polícia Rodoviária Estadual (PRE), a tragédia teve início quando uma carreta, conduzida por um homem de 45 anos, trafegava no sentido de Wenceslau Braz a Siqueira Campos e colidiu frontalmente com uma carreta Volvo que seguia no sentido oposto. O impacto foi tão violento que resultou na morte instantânea do condutor do Volvo, um homem de 49 anos.

 

 

 

Além do choque entre as duas carretas, o acidente envolveu uma terceira carreta Volvo, que acabou colidindo na traseira de um dos caminhões, e uma picape Strada. Na tentativa desesperada para evitar as complicações, a picape saiu da rodovia e tombou após cair de um barranco, deixando seu condutor, de 43 anos, e o passageiro, de 25 anos, feridos, mas sem gravidade, sendo atendidos no local e liberados em seguida.

No último dia 22 de março, uma tragédia familiar abalou o repórter Donatto Cândido enquanto cobria um grave acidente em Faxinal, no norte do Paraná. Donatto estava realizando uma transmissão ao vivo no local quando descobriu que a vítima fatal do acidente era sua própria filha, Kamilly Vitória Cândido, de apenas 21 anos. O acidente ocorreu na noite de sexta-feira (22/3), na PR-279, uma rodovia de pista simples.

 

Reprodução redes sociais – Donatto Cândido

 

Segundo informações da Polícia Rodoviária Estadual (PRE), Kamilly estava pilotando uma motocicleta que colidiu frontalmente com um carro modelo Fiat Palio, ocupado por um casal, que foi socorrido e levado ao hospital. As circunstâncias exatas do acidente ainda estão sob investigação, e laudos periciais serão necessários para determinar a velocidade dos veículos envolvidos, o motivo dos detalhes e se houve invasão de pista.

A vítima, Kamilly Vitória Cândido, era uma estudante de biomedicina e havia conseguido recentemente um trabalho temporário na empresa Coamo, uma cooperativa agroindustrial, como safrista.

 

DENÚNCIA DE VIOLAÇÕES DA LEI — O Negocião Digital conversou com João* (nome fictício) que é caminhoneiro há 12 anos. O profissional afirmou que, mesmo havendo uma legislação bastante rigorosa no que diz respeito ao período no qual os caminhoneiros podem trabalhar, proibindo jornadas que ultrapassem 8 horas por dia e garantindo o descanso; é comum que motoristas façam uso de remédios de uso controlado, popularmente conhecidos como “rebites”, e trabalhem por muito mais que 10 horas por dia: “os relatórios, os aparelhos eletrônicos que controlam o tempo de trabalho, até a fiscalização via satélite, tudo isso pode ser fraudado”, denuncia João. “Quando a carga precisa ser entregue com rapidez e a transportadora está com as horas contadas, a própria empresa “flexibiliza as regras”.

 

RECLAMAÇÕES SOBRE A INFRAESTRUTURA DAS ESTRADAS — No último dia 23 de março foram retomadas as cobranças de pedágios em dezenas de praças espalhadas por todo o estado do Paraná. A EPR Litoral Pioneiro, empresa do grupo EPR, é a concessionária responsável por administrar os 605 quilômetros de rodovias das regiões do Litoral, Campos Gerais e Norte Pioneiro no Paraná. Estão sob sua administração as rodovias federais BR-153, BR-277 e BR-369 e as estaduais PR-092, PR-151, PR-239, PR-407, PR-408, PR-411, PR-508, PR-804 e PR-855 que percorrem 27 cidades do estado, incluindo a capital Curitiba.

 

 

No dia 24, um domingo, houve um protesto na praça de pedágio de Jacarezinho, instalada no lugar conhecido como “ponte velha”. O Negocião ouviu alguns dos manifestantes e registrou diversas reclamações: além da própria cobrança da tarifa em si, houve quem disse que o principal problema é o fato da malha rodoviária do Paraná como um todo, com destaque à região Norte, ter a maioria das rodovias com pistas simples e com traçados que tornam o tráfego de veículos pesados um risco. Segundo esses manifestantes, não haverá solução com “gambiarras”, o necessário seria reconstruir trechos inteiros e duplicar boa parte da malha rodoviária.

 

“É UM VERDADEIRO CORREDOR DA MORTE” — Ariovaldo de Almeida Silva Júnior, mais conhecido como Júnior do Sindicam, presidente do Sindicato dos Condutores e Transportadores Autônomos de Cargas de Ourinhos e Região, afirma que falta investimento na segurança das vias: “o modelo de concessão é aquele que reverte mais dinheiro para o Estado, sem se preocupar com a qualidade das estradas”; no entanto, ainda segundo Júnior, o trabalho dos sindicatos e demais entidades de classe têm gerado frutos: “agora existe uma exigência contratual para a construção de pontos de descanso e paradas de apoio ao usuário”. Porém, completa o sindicalista, a situação atual das estradas do estado do Paraná é de “um verdadeiro corredor da morte” e que é necessário cobranças constantes para que a arrecadação dos pedágios reverta em melhorias reais na qualidade das rodovias.

 

 

O QUE DIZ A EPR LITORAL PIONEIRO — Por meio das redes sociais e da sua página oficial na internet (https://eprlpioneiro.com.br/) a concessionária afirma que está realizando obras de melhoria e conservação. Segundo a empresa “serão mais de 50 equipes realizando intervenções em um trecho de mais de 605 quilômetros de estradas. O objetivo é levar mais segurança já no início da atuação, serão feitas obras de reconstrução de pavimentos, nivelamento, roçada de mato lateral, sinalização das vias, melhorias de segurança em viadutos e pontes, entre outras”. Na mesma nota, a EPR completa dizendo que os usuários devem “seguir a sinalização nos locais de atuação e adotarem uma direção defensiva nos locais de serviço”.

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