sábado, 22 de junho de 2024

FUI ESTUPRADA, por Paola B. Cachione

Há mais de 20 anos eu tenho escondido um segredo. Tenho sido estuprada. Só eu sei a dor e a humilhação que passei todos esses anos. Mas o que eu poderia fazer? Eu nunca encontrei alguém que poderia me ajudar. Preferi me manter em silêncio e encarar a situação sozinha.

O abuso começou quando eu ainda era pequena. Ele me ensinou desde cedo que eu deveria fazer coisas que ele chamava de brincadeira de menina. Mesmo assim, eu retrucava. Pedi um berimbau em um amigo secreto da escola, porque eu gostava de jogar capoeira, e meu amigo secreto, tentando me agradar, me deu uma boneca. Eu odiava bonecas.

Mas durante anos fui obrigada a carregar aquele pedaço de plástico, que eu fingia que precisava trocar as fraldas, dormir e comer. Era como um treinamento de batalhão ao qual eu não entendia porque os meninos também não eram sujeitos a participar. Eu queria, na realidade, ser como eles. Jogar futebol, soltar pipa e bater figurinha. Mas isso não era coisa de menina. Eu não podia.

Quando fiquei mocinha, ele me ensinou que eu deveria me destacar para conseguir o namorado mais bonito. E tudo que importava era a minha beleza, muito mais que qualquer inteligência que eu poderia ter. Ele me dizia que a menina mais inteligente da sala nunca se destacava, pelo contrário, recebia apelidos ofensivos. Ele me disse, também, que não havia problema se o menino que eu gostava já tivesse beijado todas as minhas amigas, mas se eu tiver beijado todos os meninos da sala, isso sim seria algo muito ruim. Então eu deveria me guardar.

Mesmo que isso não fizesse tanto sentido, resolvi investir na minha beleza. Passei a usar roupas curtas mostrando partes do meu corpo para que eles se sentissem mais atraídos por mim. E deu certo. Ele desfilava comigo na escola como se eu fosse um troféu. E era exatamente assim que eu me sentia: um objeto.

Quando fiquei mais velha, troquei as aulas do cursinho por treinos pesados na academia. Eu me importava com a minha imagem e sair do padrão preestabelecido era um pesadelo. Namorei os caras mais lindos da minha cidade. Tinha corpo e eles adoravam me ver de vestidinho curto.

Nunca fui de acompanhar noticiários, nem me inteirar sobre os acontecimentos do mundo, lia só revistas de beleza e comportamento. Porque o meu sonho era na verdade encontrar um homem que pudesse me satisfazer. Me dar um bom padrão de vida e ser feliz, construir família, sabe? Ser alguém na vida!

Tudo bem que com as andanças da vida, acabei engravidando cedo, o pai não quis assumir, e agora sou mãe solteira de dois meninos. Mas, sabe, não perco a esperança. Sempre frequento bailes funks aqui na comunidade e sei que hora ou outra vou encontrar alguém que me satisfaça como mulher. Já saí com muitos homens, mas a maioria deles não queria nada sério. Acho que não rolou a química. Nem a física. Nem a geografia.

Esses dias mesmo conheci uns amigos de um amigo e fiquei apaixonada por um deles. Investi no rebolado na hora que tocou aquele pancadão e ele ficou gamadão em mim. Saímos todos juntos aquela noite, fomos para uma festa em uma casa abandonada. Regada a bebida e droga, as coisas tomaram um rumo um pouco diferente do que planejei. Apesar de eu ter curtido também, comecei a perceber que aquilo ali era muito mais divertido para eles do que para mim. Tanto é que minhas fotos nuas depois da transa foram parar nas redes sociais e aí sim eu entendi o que estava acontecendo. Essa foi a última vez que ele me estuprou. Essa foi a última vez que eu me lembre do machismo ter me estuprado.

Aliás, ele me estupra desde criança quando diz que por ser menina eu não posso fazer coisas de meninos. Que permite que os homens olhem para mim com desejos sexuais na rua e digam coisas desrespeitosas sobre meu corpo e eu tenho que me calar e tratar como se fosse normal. Ele me estupra quando diz que uma mulher independente e dona de si não é mulher de família, nem boa para casar.

Somos todas estupradas todos os dias com comentários que nos desvalorizam como mulher, como profissional e como ser humano. Somos estupradas quando recebemos olhares intimidadores e aceitamos sermos menores, nos sentindo bem com isso. Somos estupradas pelas redes sociais, que nos obrigam a viver de aparências. Somos estupradas por nossa cultura que nos humilha e nos faz viver em busca de futilidade. Somos estupradas pela política do nosso país que não investe em educação, não oferece dignidade e está cultivando a ignorância do povo. Que está criando um verdadeiro abatedouro de valores e princípios éticos e morais.

 

Enquanto há uma pequena parcela da sociedade que defende os direitos da mulher, os avanços no mercado de trabalho, e a valorização, há uma maioria sendo estuprada todos os dias por uma mídia de massa sensacionalista e manipuladora, pela falta de incentivo a educação e pela desigualdade social. Esse sim é o maior estupro da história do Brasil. 

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