sábado, 02 de dezembro de 2023

Grêmio Recreativo de Ourinhos – do apogeu a decadência

José Luiz Martins

Nas duas primeiras décadas do século XX Ourinhos era uma cidade nova com uma pequena, mas atuante população na qual alguns membros perceberam a importância e necessidade de uma maior integração entre seus moradores. Buscando uma forma de socialização que levasse a interação entre as famílias na comunidade, resolveram criar uma associação que proporcionasse lazer, entretenimento e participação coletiva fundando o Grêmio Recreativo de Ourinhos.

O Clube Atlético Ourinhense e Esporte Clube Operário, criados alguns anos antes, já cumpriam esse papel socializador mais no âmbito do esporte, principalmente o futebol. As primeiras notícias sobre o Grêmio datam de 1925, quando uma edificação de madeira foi construída na esquina das atuais Rua Antonio Carlos Mori e Av. Altino Arantes, o que seria o primeiro salão do clube.

Anos mais tarde, em 1945, com ampla adesão da comunidade a agremiação cresceu e uma nova sede de alvenaria seria construída no mesmo local, para isso foi desenvolvido um projeto arquitetônico ousado para a época criado por Zenon Lotufo, um dos mais importantes e premiados arquitetos do modernismo paulista. Começava a partir dessa nova sede os célebres anos do Grêmio Recreativo de Ourinhos, que passou a ser o principal espaço para os mais importantes eventos sociais e recreativos na cidade.

Embora não atuasse no meio esportivo, que era o principal elemento agregador nas comunidades naqueles anos, o Grêmio conquistou rapidamente muitos associados que passaram a frequentar saraus, formaturas, bailes de debutantes (muito comuns até os anos 60) e carnavais, entre outros eventos.

Entre os anos 50 e 70 o clube teve seus grandes momentos de efervescência sócio-cultural, os bailes e carnavais eram as principais atrações que além dos associados atraiam público de várias cidades da região. Durante as décadas de 50 e 60 as orquestras e big bands reinavam absolutas tocando sambas, boleros, mambo, bossa nova entre outros ritmos e gêneros, até que Elvis, Beatles e a Jovem Guarda inspirassem o surgimento de inúmeros conjuntos musicais que passaram a ganhar a simpatia e gosto do público.

Na fase das orquestras, muitas delas de outras cidades, eram presença constantes nos salões do GRO. Mas Ourinhos esteve muito bem representada musicalmente nesse período pela tradição musical da família de Italo Ferrari. Seu filho Lino Ferrari liderou por muitos anos a “Ferrari e Sua Orquestra” que abrilhantou memoráveis bailes e carnavais no salão do clube até o início dos anos 70.

A partir de meados dos anos 60 a tradição das orquestras já não seduzia as novas gerações de jovens de então, elas foram dando lugar aos grupos musicais que traziam em seu repertório o rock de Elvis, Celi Campelo, Carlos Gonzaga e músicas da jovem guarda de Roberto Carlos e sua turma.

No início dos anos 70 os ecos da contracultura que chacoalhou o mundo na década anterior com toda aquela revolução de costumes e valores, influenciava comportamentos, modismos, as artes e a música.

A última geração de jovens ourinhenses que frequentaram o Grêmio até o fim da década de oitenta ainda experimentaram os bailes que foram ficando menos frequentes, com isso outros espaços e formas de curtir música surgiram. Como a famosa “Boatinha do Grêmio” que fora instalada num pequeno salão num anexo superior do clube, onde os jovens de então curtiram as várias transformações que o rock sofreu, a febre da “disco music”, a época das discotecas onde dançar era o que importava.

Frequentada quase que exclusivamente por jovens entre 15 e 25 anos, nesse período a “boatinha” era uma discoteca com equipamentos de som e jogo de luzes, luz negra e estroboscópica era o que havia de mais moderno. Os toca discos de vinil, tape decks (toca fitas de rolo ou cassete) era o que botava a turma (tinham várias) pra dançar.

Com o fim da era das discotecas no final dos 80, as atividades do clube foram decaindo e parte do imóvel foi vendido para uma empresa da cidade, justamente o grande salão de bailes. O clube ainda existe, mas somente oferecendo aos seus associados academia de ginástica e sauna, montadas nessa parte do prédio onde funcionou a “Boatinha do Grêmio”.

Muitos dos ex-frequentadores e ex-associados com quem converso ainda se perguntam, porque e como isso foi acontecer? Tanta tradição desaparecer por completo assim é assustador. A verdade é que as tradições eram mais fortes, generalizadas e resistentes em outros tempos.

Na sociedade atual, dita moderna, esse tipo de tradição sociocultural é cada vez mais fraca e restrita. Isso tudo foi uma forma de cultura espontânea que perdeu força (haja visto os carnavais) na oposição entre tradição e modernidade. São coisas do capitalismo que a tudo influência e meios oligopolistas de comunicação, principalmente a televisão e o rádio que ditam a cada minuto, o que devemos consumir, ler, ouvir, comer, dançar e em qual igreja devemos rezar. 

OBS. No velho salão de bailes do clube que continua com suas principais características interiores, hoje funciona a Igreja Universal do Reino de Deus. 

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