segunda, 15 de abril de 2024

Maquinista por 35 anos, João Ferreira de Araújo ganha praça com seu nome

Homenagem aconteceu em dezembro de 2021 e é contada aqui pela filha do ferroviário

 

 

Marcília Estefani

 

 

Na década de 30 Ourinhos já figurava como o mais importante entroncamento ferroviário na divisa de SP/PR. Pelo pátio ferroviário tanto da E. F. Sorocabana, quanto da Estrada de Ferro São Paulo-Paraná circulava uma grande variedade de produtos que iam de cereais, algodão, café, madeira, equipamentos industriais, gêneros alimentícios, ferragens entre outros. Junto com essa intensa movimentação comercial o fluxo de passageiros e migrantes com destino ao Paraná ou ao oeste do estado de São Paulo, era o maior da região.

Em 1957 as linhas da RVPSC seriam incorporadas ao controle federal da RFFSA e em 1999 privatizadas com controle da ALL – América Latina Logística. A ferrovia como componente importante na atividade socio-econômica de Ourinhos teve seu apogeu entre os anos 30 e 60, contribuiu para o crescimento da cidade que foi tornando-se o mais importante polo comercial da região. Nos quarenta anos do seu apogeu com a intensa e produtiva atividade ferroviária Ourinhos era chamada de cidade dos ferroviários.

O jornalista Jefferson Del Rios autor do livro “Ourinhos-Memórias de uma cidade paulista” lançado em 1991 – faz a constatação mais plausível ao analisar em sua obra a influência da ferrovia na origem da cidade. “O povoado iniciou-se em 1906, dois anos antes da inauguração da estação, em terras de Jacinto Ferreira de Sá. É possível que tal povoação tenha-se dado exatamente por ali ter se constituído uma frente de trabalho da Sorocabana no sentido de se implantar o pátio ferroviário. Nesse ano, a linha estava ainda em Manduri, de onde avançava para Salto Grande, no rio Paranapanema. “

 

Destacamos nesta edição, a história do Senhor João Ferreira de Araújo, que durante 35 anos dedicou sua vida como maquinista da Rede Ferroviária Federal, e que em dezembro de 2021 recebeu merecida homenagem, com a inauguração da “Praça João Ferreira de Araújo no estacionamento dos ferroviários”.

Araújo, como era conhecido, trabalhou por 35 anos como maquinista

 

A história do ourinhense de coração, que chegou na cidade aos 20 anos, e aqui fez família, é contada pela filha mais nova, Lúcia Helena Araújo.

João nasceu no município de Cravinhos/SP, filho de Josias Ferreira de Araújo e de Sebastiana Cândida de Jesus. Casou-se com Helena de Oliveira Pacheco Araújo aos 25 de outubro de 1958 e teve 6 filhos: Maria Aparecida Araújo, Roberto Ferreira de Araújo, Marilza Ferreira de Araújo, Marlene Ferreira de Araújo, Reinaldo Ferreira de Araújo (in memorian) e Lúcia Helena Araújo.

Filhos do Sr Araújo e Dona Helena, herdeiros das memórias da ferrovia

 

Iniciou sua profissão como maquinista na rede ferroviária federal em 15 de outubro de 1965, aos 20 anos de idade, trabalhando por 35 anos nesta profissão com muito amor, dedicação e profissionalismo. Viajou pelo estado do Paraná, transportando com muito zelo famílias, crianças, jovens, adultos e idosos.

Lúcia conta que o pai ficou muito conhecido pelos amigos e chefe de trabalho por “ARAÚJO”, sendo chamado assim por muitos anos no desempenho de sua profissão. A família morou por muito tempo na Vila Margarida, no tão conhecido pátio da rede, até que veio a aposentadoria, época em que o maquinista passou a se dedicar mais à sua família, pais e amigos.

O casal morou por muitos anos na Vila Margarida, no tão conhecido pátio da rede

 

Aos 4 de junho de 1996, veio a falecer, deixando seu legado para seu filho mais velho, Roberto Ferreira de Araújo, que seguiu a carreira do pai, trabalhando também na rede ferroviária, como maquinista.

“Para nós, da família Araújo, foi um dia de muito orgulho ao ver o nome do nosso pai numa praça que terá o nome de “Maquinista João Ferreira de Araújo.”

A inauguração da praça, aconteceu no dia 28 de dezembro e contou com a presença de autoridades do município e familiares do homenageado.

 

NOVOS E NÃO TÃO BONS TEMPOS – O desmonte ferroviário no estado começou com o Programa Nacional de Desestatização de 1992 com repartição das linhas estaduais agrupadas pela Fepasa para empresas privadas. A malha do estado na região centro oeste que inclui o trecho de Ourinhos foi para a empresa ALL que se fundiu com a Rumo Logística. Entre Botucatu e Presidente Epitácio foi totalmente desativado.

As atividades de transporte ferroviário na cidade estão em operação devido ao entroncamento com a antiga malha da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) que adentra pelo estado do Paraná e é utilizada para o transporte de carga que hoje se resume a fertilizantes e combustíveis.

 

 

RESGATANDO MEMÓRIAS – Em setembro de 2022, foi inaugurado em Ourinhos o “Museu Histórico Ferroviário de Ourinhos”, espaço idealizado para resgatar a história da ferrovia em Ourinhos. O local comporta um apanhado com cerca de 60 peças formando um pequeno acervo memorial ferroviário da cidade, e está sob responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo.

Estão em exposição num salão nas dependências da estação ferroviária peças como telégrafo usado para enviar mensagens entre estações, apito de aviso de saída de trem, modelos antigos de trilhos, placas de numeração de linhas, ferramental, caps utilizados pelos ferroviários entre outros equipamentos.

O maior feito da iniciativa foi à recuperação de uma locomotiva General Electric Série 2100 que operou na Estrada de Ferro Sorocabana/Fepasa e recebeu nesta ferrovia o apelido de “Mini-Saia”. A locomotiva pesa 75 toneladas e foi transportada com auxílio de um guindaste para uma área no centro de convivência Benedito Eloy ao lado da estação velha, está exposta em frente às antigas casas dos ferroviários da Sorocabana ao lado do Lanchódromo.

Parcialmente restaurada com pintura nas cores e desenho original dos tempos da Fepasa, a locomotiva ficou por anos abandonada no pátio da ferrovia juntamente com outras duas máquinas elétricas Série 2000 1-C+C-1, apelidadas de “Loba” também fabricada pela General Electric para a Sorocabana. As duas “Lobas” foram recolhidas para uma área coberta anexa à atual estação ao lado do salão onde estão expostas as peças do museu e uma parte das nossas memórias, sobre o principal meio de transporte do século passado, que não serão extintas com nenhum desmonte ou com a chegada de mais tecnologias de ponta.

 

Cena raríssima de 1995, a locomotiva elétrica apelidada de Francesa, importada nos anos 1980, aparece manobrando cargueiro na entrada da estação de Ourinhos

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