terça, 23 de julho de 2024

Morte dos Radicais

Publicado em 29 ago 2018 - 08:42:55

           

Gustavo Gomes

A frase acima foi uma das melhores “frases de camisetas” que já li na vida. É de uma ironia absoluta alguém ser radical a ponto de desejar a morte de alguém que seja radical. Mas escolhi a frase como título desta coluna por causa do cenário político atual.

Estamos em plena campanha política (apesar do calendário oficial dizer que ainda não começou) e temos um espectro de 13 candidatos oficiais à presidência do país.

Alguns são candidatos profissionais que estão em todas as campanhas, apesar de nunca terem atingido sequer um dígito na porcentagem de votos. A tal da campanha deve render lucro!

13 candidatos: é impossível que haja 13 orientações políticas, 13 ideologias diferentes, que justifiquem este número de candidatos.

Mas, apesar de tantos candidatos, quase todos já conhecidos das urnas, a campanha está se configurando muito diferente do que tem sido normal. Como já escrevi acima, não existem tantas variações ideológicas, mas podemos facilitar a leitura, agrupando um pouco os candidatos.

Do lado direito, os direitos convictos apresentam a opção de Bolsonaro, Cabo Daciolo e Eymael (apesar de que este jamais conseguiu definir exatamente o que seria seu governo). Na direita, mas um passo ao centro, estão os candidatos João Amoedo e Álvaro Dias. No centro, representando o fiel da balança (ou em cima do muro), Alckmin e Meirelles defendem a situação existente (apesar dos discursos tentando se descolar do “governo” atual). Dirigindo-se para a esquerda, temos Ciro Gomes, Marina, Lula (leia-se Haddad) e Goulart Filho (uma incógnita?). Na esquerda convicta estão Boulos e Vera Lucia.

Esta é uma leitura simplista, baseada em duas visões: a econômica (onde o que muda é o tamanho do Estado) e a social (onde o que muda é o respeito ao indivíduo e às minorias).

Apesar de que a esquerda radical não tem apresentado números expressivos nas pesquisas, um fenômeno tem criado um grande medo. E, onde há medo, há exageros.

O fenômeno é o crescimento dos radicais de direita, traduzidos pelo discurso de Bolsonaro. Em um mundo cheio de desesperança, é normal que aflorem alguns sentimentos animais, instintivos, primitivos. Deste caldo de sentimentos brutos, brotam preconceitos como forma de garantir lugar numa luta selvagem. Num cenário assim, vemos um retrocesso nos avanços sociais do último século, e justificam-se espaço para massacre de minorias, censura e ditaduras.

Os simpatizantes desta direita radical usam como explicação para esta postura o medo do crescimento dos radicais de esquerda, erroneamente personificados em Lula. Aquele Lula e aquele PT que defendiam o fim dos empresários e um governo proletário não existem mais. Mas continua sendo o alvo do discurso direitista.

Essa polarização entre os radicais de direita e os “radicais” de esquerda tem provocado uma sensação de ódio e vingança que não tem feito nada bem para o país e para uma possibilidade de reconstrução da pátria, destruída moral e economicamente pelo governo Temer, que esfacelou o Executivo (a palavra “poder” não cabe mais) loteando-o para o Legislativo (cada vez mais “poder”).

Mas, creio eu, não há risco do radicalismo puro vencer as eleições. O Centro (cuja ideologia é definida pela falta de ideologias), gordo de tempo e dinheiro, representado por todos os partidos fisiológicos nacionais, terá certamente um lugar no segundo turno das eleições, por motivos óbvios. Metade do tempo de propaganda será deles. Quanto ao dinheiro para cada campanha, não vale a pena acreditar nos números oficiais (o caixa dois é proibido, mas os caixas 3, 4, 5, etc, continuarão escondidos).

Contra o Centrão (“dividido” de araque, pois só minha tia Chiquita acreditaria na “independência” do MDB) teremos uma das extremidades radicais. Aparentemente, Bolsonaro tem vantagem inicial. Mas só testaremos seu nível de rejeição, às vésperas da eleição.

Seja lá quem for o adversário do Centrão, no segundo turno, teremos veremos os radicais opostos somando-se ao Centrão, para afirmar o lema do “entre ‘ele’ (o representante de um dos lados) e o diabo, voto no diabo”, que ambos os lados repetem. Assim, o diabo vai ganhar. E o “diabo” da vez se chama Alckmin.

Se, por um lado, é bom saber que o radicalismo-separador-violento não vai vencer, por outro, saber que o “diabo” da vez (e as aspas não atenuam muito o cenário) vai continuar trilhando o caminho desastroso em que estamos.

Mas ainda resta esperança: eu estar totalmente enganado e uma outra opção, mais ou menos moderada e fora do centro, ganhar espaço por meio de um discurso convincente e seguro, e arrebatar um eleitorado numeroso. É difícil? Lógico! Mas não custa torcer.

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