domingo, 14 de abril de 2024

Museu pretende resgatar a memória ferroviária de Ourinhos

O local abriga um apanhado com cerca de 60 peças formando um pequeno acervo memorial ferroviário

 

 

José Luiz Martins

 

 

Inaugurado no início de setembro de 2022 e denominado Museu Histórico Ferroviário de Ourinhos, o novo espaço que pretende resgatar a história da ferrovia no município segue em formação sob-responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo.

Embora tenha sido inaugurado, o local que abriga um apanhado com cerca de 60 peças formando um pequeno acervo memorial ferroviário ainda não está plenamente aberto à visitação pública.

Estão em exposição num salão nas dependências da estação ferroviária peças como telégrafo usado para enviar mensagens entre estações, apito de aviso de saída de trem, modelos antigos de trilhos, placas de numeração de linhas, ferramental, caps utilizados pelos ferroviários entre outros equipamentos.

O maior feito da iniciativa foi a recuperação de uma locomotiva General Electric Série 2100 que operou na Estrada de Ferro Sorocabana/Fepasa e recebeu nesta ferrovia o apelido de “Mini-Saia”. Quase sempre, essas locomotivas operavam em tração dupla, tracionando trens de carga e passageiros na linha-tronco de 800 km de extensão entre São Paulo/Presidente Epitácio passando por Ourinhos.

A “Mini-saia”, pesando 75 toneladas, foi transportada com auxílio de um guindaste para uma área no centro de convivência Benedito Eloy ao lado da estação velha, está exposta em frente às antigas casas dos ferroviários da Sorocabana ao lado do Lanchódromo.

Parcialmente restaurada com pintura nas cores e desenho original dos tempos da Fepasa, a locomotiva ficou por anos abandonada no pátio da ferrovia juntamente com outras duas máquinas elétricas Série 2000 1-C+C-1, apelidadas de “Loba” também fabricada pela General Electric para a Sorocabana. As duas “Lobas” foram recolhidas para uma área coberta anexa à atual estação, ao lado do salão onde estão expostas as peças do museu.

 

Situação atual das ferrovias do estado de São Paulo

A maior parte das linhas ferroviárias do estado de São Paulo está em estado de ruína. A maioria das estações ferroviárias ao longo das linhas foram fechadas e permanecem em estados lamentáveis. No estado de São Paulo hoje, apenas uma parcela em determinados trechos é utilizada para transporte modal de alguns produtos industrializados e do agronegócio.

O desmonte ferroviário no estado começou com o Programa Nacional de Desestatização de 1992, com repartição das linhas estaduais agrupadas pela Fepasa para empresas privadas. A malha do estado na região centro oeste que inclui o trecho de Ourinhos foi para a empresa ALL que se fundiu com a Rumo Logística; entre Botucatu e Presidente Epitácio foi totalmente desativado.

As atividades de transporte ferroviário em Ourinhos estão em operação devido ao entroncamento com a antiga malha da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) que adentra pelo estado do Paraná e é utilizada para o transporte de carga que hoje se resume a fertilizantes e combustíveis.

 

 

Da ferrovia nasceu Ourinhos…

 

E. F. Sorocabana surgiu em 1870 em São Paulo concluindo seu primeiro trecho de linha até Sorocaba em 1875. Trinta anos se passaram e a linha-tronco só foi chegar ao povoado de “Ourinho” em 1906, em 1908 era inaugurada a primeira estação, e no ano seguinte, foi instalada nessa estação uma agência de correio.

Jacinto Ferreira de Sá, pioneiro e dono das terras cortadas pela Sorocabana, era bem relacionado com os políticos e conseguiu com que os trilhos avançassem por sua propriedade.  No mesmo ano loteou uma área no entorno dos trilhos da ferrovia que rapidamente foi sendo urbanizada.

O avanço da cultura cafeeira no norte do Paraná, na primeira década dos anos 20, com extensas áreas e super produção do grão, fez com que no ano de 1923, partindo de Ourinhos, uma nova estrada de ferro começasse a ser construída. Em 1926 a Cia Ferroviária São Paulo-Paraná conclui o primeiro trecho até a Cambará, cuja região era a maior produtora de café do estado.

Assim, a ferrovia SPP cumpriria em parte sua principal meta, uma ligação para o porto de Santos via Ourinhos através da E.F. Sorocabana. Com o grande aumento do tráfego de mercadorias e passageiros em Ourinhos, também em 1926, uma nova estação ferroviária foi construída ao lado da primeira que virou armazém. Quatro anos depois os trilhos da ferrovia SPP chegariam à cidade de Cornélio Procópio, Londrina em 1935 e Apucarana em 1942 ano em que a SPP, foi encampada pela RVPSC – Rede de Viação Paraná santa Catarina.

Na década de 30 Ourinhos já figurava como mais importante entroncamento ferroviário na divisa de SP/PR. Pelo pátio ferroviário tanto da E.F. Sorocabana, quanto da Estrada de Ferro São Paulo-Paraná, circulava uma grande variedade de produtos que iam de cereais, algodão, café, madeira, equipamentos industriais, gêneros alimentícios, ferragens entre outros. Junto com essa intensa movimentação comercial o fluxo de passageiros e migrantes com destino ao Paraná ou ao oeste do estado de São Paulo era o maior da região.

Em 1957 as linhas da RVPSC seriam incorporadas ao controle federal da RFFSA e em 1999 privatizadas com controle da ALL – América Latina Logística. A ferrovia como componente importante na atividade socio-econômica de Ourinhos teve seu apogeu entre os anos 30 e 60, contribuiu para o crescimento da cidade que foi tornando-se o mais importante polo comercial da região. Nos quarenta anos do seu apogeu, com a intensa e produtiva atividade ferroviária, Ourinhos era chamada de cidade dos ferroviários.

O jornalista Jefferson Del Rios, autor do livro “Ourinhos-Memórias de uma cidade paulista” lançado em 1991 – faz a constatação mais plausível ao analisar em sua obra a influência da ferrovia na origem da cidade. “O povoado iniciou-se em 1906, dois anos antes da inauguração da estação, em terras de Jacinto Ferreira de Sá. É possível que tal povoação tenha-se dado exatamente por ali ter se constituído uma frente de trabalho da Sorocabana no sentido de se implantar o pátio ferroviário. Nesse ano, a linha estava ainda em Manduri, de onde avançava para Salto Grande, no rio Paranapanema.“

 

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