domingo, 21 de julho de 2024

O começo do nosso começo

Publicado em 13 dez 2018 - 02:27:54

           

Marcília Estefani

Um velho mapa de 1.908 mostra a cidade de Ourinho (no singular), no Paraná, no lugar da atual Jacarezinho. O mapa ainda não registra a existência de Ourinhos. Existe apenas o pontilhado vermelho indicando o trecho da estrada de ferro em construção entre Ipaussu e Salto Grande. O começo do nosso começo.

Há um falso mistério e algumas polêmicas entre historiadores municipais em torno desses nomes. Na realidade, a Ourinho paranaense foi também Nova Alcântara, devido a seu fundador, o mineiro Antonio Alcântara da Fonseca, que se fixou naquelas terras em 1.888. Jacarezinho era um distrito policial do município de Tomazina. Todas elas, pequenas e perdidas povoações.

Entre tantas denominações, o patrimônio de Nova Alcântara, ou Ourinho correu o risco de se chamar Costinha, em homenagem ao fazendeiro e político Antonio José da Costa Junior, que recusou a discutível honraria. Sua fazenda, aliás, chamava-se Ourinhos e, atravessando o rio Paranapanema, chegava até o lugar conhecido como Água do Jacu, atual bairro rural ourinhense. Nunca se estudou o fato, mas há a possibilidade de a fazenda ter ajudado a determinar o nome da cidade de Ourinhos, já que a cidade se formou entre a cidade de Ourinho, no Paraná, e a propriedade de Costa Júnior.

Ourinhos, o início – É claro, que no início Ourinho (singular), era apenas uma Vila e que estava subordinada a Salto Grande do Paranapanema. Com a implantação dos trilhos da Estrada de Ferro Sorocabana a cidade foi se desenvolvendo. Em 1.906, deu-se o início do povoado de Ourinhos, com reduzido número de casas. Em 1.908, foi criado o Posto da Estrada de Ferro, que foi quatro anos mais tarde, transformado em estação. Dessa época em diante, houve um desenvolvimento condicionado à exuberância de suas terras e pela sua excelente condição geográfica.

A fundação da cidade de Ourinhos, porém, teve o seu primeiro grande marco no dia 11 de fevereiro de 1910, quando em São Paulo, Dona Escolástica Melchert da Fonseca, passou a escritura de sua Fazenda das Furnas ou Salto do Turvo, uma vasta gleba de terras (quase a totalidade do atual município), para o coronel Jacintho Ferreira de Sá, figura tão importante para a cidade, que até virou nome de avenida. Ele loteou a parte central da cidade e doou terreno para a construção de um grupo escolar e de uma igreja. 

Em 1910 já existia um grande número de casas que abrigavam os trabalhadores que desmatavam as áreas para assentar os trilhos da ferrovia e pequenas pensões que atendiam principalmente os trabalhadores da estrada de ferro e caixeiros-viajantes. A princípio, a cidade tinha poucas casas. Por volta dos anos 1916 a 1918, havia, mais de 50 casas de madeiras e cinco de tijolos, sendo a maioria, feias, baixas, mal divididas. Nada possuía de conforto, ou melhoramento, era um poeirão vermelho, que somente desaparecia com as chuvas, quando então se transformava em lama, de arrancar sapatos.

Efetivamente, em 15 de julho de 1912, o posto da Estrada de Ferro Sorocabana foi elevado à categoria de Estação e no mesmo ano, o presidente da Câmara Municipal de Salto Grande, a quem Ourinhos era ligado, propôs a desapropriação de 10 alqueires de terras próximos da Estação Ferroviária para realizar melhoramentos e, principalmente, vender terrenos a preços acessíveis aos moradores e às pessoas que chegavam em busca de trabalho.          

No ano de 1915 foi criado o Distrito de Paz de Ourinhos, por meio do Decreto-lei Estadual n°. 21.484, com a nomeação do Juiz de Paz, Afonso Salgueiro, irmão de Eduardo Salgueiro, futuro primeiro prefeito da cidade. Cabia ao juiz de paz tomar as providências legais e administrativas para realizar eleições e viabilizar a criação do município, o que ocorreu em 13 de dezembro de 1918, por meio da Lei Estadual nº. 1.618.

Antes que isso ocorresse, a Câmara Municipal de Salto Grande teve que nomear um subprefeito para coordenar a transição. O médico, Américo Marinho Azevedo, ocupou o cargo por três meses, renuncian¬do sob a alegação de que estava se mudando para São Paulo. Assumiu, então, Fernando Foschini, que também renunciou após oito meses. A Câmara no¬meou, então, Leondino de Giácomo, que ficou até a posse de Eduardo Salgueiro, primeiro prefeito de Ourinhos, em 21 de março de 1919. 

Em seguida, torna-se paróquia, sob a invocação do Senhor Bom Jesus. Com o constante desenvolvimento e progresso, acaba se tornando sede da comarca, transferida que foi esta de Salto Grande para Ourinhos em 30 de novembro de 1.938, sendo de terceira entrância e com duas varas, apenas uma instalada.

Dentre os primeiros moradores do município citam-se os senhores Heráclito Sândano, Francisco Lourenço, Manoel Soutello, Abuassali Abujamra, Benedito Ferreira, Ângelo Christoni, José Felipe do Amaral e Isordino Cunha e muitos outros.

Pó, lama, barrro e falta d’agua – Não tinha água potável na cidade. Havia água somente para quem tinha poço e com pouca água; sua profundidade era enorme. Quem não tinha poço, tinha que buscar água da mina, que ficava longe, no sítio do Christoni. Não havia calçadinhas e também não havia calçamento nas ruas. Nas ruas havia um mar de poeira ao sol e transformavam-se em um mar de lama sob a chuva. Mesmo com todos esses problemas Ourinhos e região estavam destinadas ao avanço da exploração cafeeira, pela qualidade de suas terras. Com a expansão da lavoura cafeeira e o avanço da estrada de ferro a cidade também começava a prosperar. A estrada de ferro, trouxe consigo imigrantes japoneses, italianos, portugueses, alemães que vieram contribuir para um desenvolvimento ainda maior da nossa cidade.

Saneamento básico – Naquele tempo não havia água encanada na cidade. A água era tão suja que as lavadeiras só conseguiam lavar roupa no rio. A água de beber era comprada aos garrafões em caminhões e carroças aguadeiras. Hermelindo Agnes de Leão (1941-1945) foi o prefeito que encanou a água em nossa cidade, a qual vinha do Rio Turvo e da Água da Veada. O prefeito Antonio Luiz Ferreira (1960-1963) foi quem tratou a água do Rio Pardo. Os paralelepípedos, posteriormente, o asfalto e esgoto, surgiram como solução definitiva nas gestões dos prefeitos Cândido Barbosa Filho (1948-1951) e Domingos Camerlingo Caló (1952-1955), respectivamente. Além disso, a iluminação que existia tanto nas casas, quanto nas ruas, era muito precária; era uma cidade às escuras.

A Praça Mello Peixoto – A Praça Mello Peixoto recebeu esse nome em homenagem a um político e magistrado da região, o fazendeiro João Baptista de Mello Peixoto, um pernambucano de Garanhuns, nascido em 08.03.1856. Sua família tinha posses e grande influência na cidade e na região. Peixoto renunciou sua carreira da magistratura, para dedicar-se à advocacia e à política na região.

A nova estação dividiu a cidade – Em 31.12.1908, foi inaugurada a primeira Estação de trens de Ourinhos, e em 1926, foi construído um novo edifício devido ao aumento do tráfego na região. A nova estação de trem, com sua frente voltada para a parte acima dos trilhos da estrada de ferro (como permanece até hoje). A partir dessa construção (influenciada pelo Sr. Jacintho), a formação da cidade se deu mais acentuadamente acima da linha em detrimento da parte abaixo dela.

Avenida Jacintho Sá – A Avenida era a mais movimentada de ¬todas e se estendia até a porteira das terras dos Perino, onde hoje se cruzam a Rua Amazonas e a avenida Domingos Perino. Para baixo dela, tudo era mato. Centro de vida da cidade, a Jacintho abrigou as primeiras casas, bares, oficinas e o início do comércio da cidade. A partir da rua Antônio Prado, na avenida Jacinto Sá, virando à esquerda, no início da avenida, ficava o cemitério, onde hoje é o Centro de Ressocialização.

O crescimento da cidade – Na medida em que espichava a Estrada de Ferro, nossa cidade se desenvolvia, pois ela estava no entroncamento rodo-ferroviário. A partir do ano de 1926, com a construção da nova Estação, começou a acentuar o marco divisório de nossa cidade. Com essa divisão, a preferência para as novas construções de residências, lojas e outros estabelecimentos comerciais, era para a parte superior da linha, onde ao longo do tempo foram se estabelecendo as grandes lojas e as agências bancárias.

A posição geográfica de Ourinhos foi determinante para torná-la maior e mais populosa que as cidades vizinhas, hoje os empreendimentos imobiliários e o crescente número de faculdades continua colocando a cidade em pleno desenvolvimento. 

De um pequeno povoado, nascido às margens da ferrovia, até o município de mais de 110 mil habitantes, Ourinhos conseguiu desenvolver uma identidade única e que é repetida incessantemente por quem aqui mora ou visita, a identidade de um povo trabalhador, acolhedor, um povo que realmente carrega no peito um coração de ouro.

(Fonte: Livro Minha Vida, Minha Cidade do escritor ourinhense Heitor Martins)

 

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