terça, 21 de maio de 2024

O governo de Getúlio Vargas, o rádio, música, futebol e o comunismo

José Luiz Martins

Nos 15 anos em que governou o Brasil, Getúlio Vargas (1930/1945) levou o país a muitas transformações políticas, sociais e culturais importantes e benéficas em várias áreas da vida nacional. A coisa começou a degringolar com o Estado Novo instaurado através de um golpe a partir de 1937, um ano antes da eleição que iria escolher o sucessor de Getúlio. Sob pretexto de ameaça de tomada do poder por comunistas o Estado Novo foi instituído e durou até 1945, ficou marcado pelo extremo autoritarismo que permeou por todos segmentos da sociedade.

Apesar da mão de ferro, na “Era Vargas”, houveram relevantes avanços no âmbito sócio cultural e uma especial preocupação com a modernidade. Um marco nesse sentido foi a criação da Universidade de São Paulo em 1934. Foi com os intelectuais da universidade encarregados de pensar o país e, no seio das artes em plena ditadura Getulista, que a preocupação com uma identidade nacional levou nomes como Mario de Andrade, Portinari, Oscar Niemayer, Carlos Drumond de Andrade entre outros a darem eco as ideias de identidade nacional dos modernistas de 1922.

O rádio tornou-se cada vez mais presente na vida de todos os brasileiros através das radio-novelas e dos programas de auditório, transmitidos ao vivo com artistas como Carmem Miranda, Noel Rosa, Ari Barroso, Orlando Silva, Francisco Alves, Vicente Celestino só para citar alguns entre dezenas de nomes que marcaram a música no Brasil dos anos 30 aos 50. Com o surgimento de novas emissoras e, mesmo com o rígido controle do governo a imprensa cada vez mais se fazia presente nas programações. Com as notícias e informações atingindo a maior parte da população o rádio passou a ser um importante meio de formação cultural.

No esporte também houve profundas mudanças, já no começo dos anos 30 o futebol já era a modalidade mais popular e nos anos que se seguiram iria sair da várzea e do amadorismo se profissionalizando. Por esses anos, estádios do Pacaembu em São Paulo e São Januário no Rio eram os principais palcos da bola.

Mas, assim relatando esses acontecimentos até parece que não houve autoritarismo, controle, censura e repressão no painel nacional de então. Em 1939 o governo de Getúlio criou o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), ampliando os mecanismos de controle da ditadura sobre a sociedade com a centralização da informação, o controle e censura de todas as manifestações culturais do Brasil.

Em Ourinhos alguns simpatizantes e mesmo militantes comunistas sofreram perseguições e tiveram que cair no anonimato por causa da atuação do DIP. Mas um outro fato emblemático que caracterizou a repressão e o patrulhamento ideológico do Estado Novo de Getúlio por aqui aconteceu no Futebol.

Foi por causa desse patrulhamento do DIP que em 1942, o Esporte Clube Operário, um dos mais importantes clubes na história do futebol ourinhense, fundado em 1920, mudou seu nome para E.C. Olímpico. Havia uma paranoia anti comunista pairando no ar que acabou até estigmatizando determinados termos da língua portuguesa. Palavras como socialista, proletário, operário, entre outras ficaram marcadas pela relativa associação ao comunismo. Foi nesse ambiente político que os dirigentes do Esporte Clube Operário, então com mais de 20 anos de existência, acharam por bem trocar o nome da agremiação para evitar problemas com a ditadura Vargas.

A escolha do novo nome se deu em homenagem ao presidente do clube na época, Olimpio Tupiná e no período em que a equipe existiu e atuou como Olímpico, o clube teve momentos grandiosos. Nos anos de 1944, 1945, 1946 e 1947 a equipe foi a grande campeã regional da Sorocabana. Em 1949 chegara a disputar a final do campeonato estadual mas caiu em uma má fase por conta de muitos desfalques no time.

O time do E.C. Olímpico/Operário, dos anos 40, era realmente a equipe de futebol mais popular e querida dos ourinhenses. Conforme relato de Valdomiro Arantes o “Chavantes”, ex-jogador que marcou época no futebol de Ourinhos, inclusive atuando pelo Operário/Olimpíco, até os treinos do time eram muito disputados pelos torcedores. “Dava até confusão, às terças e quartas-feiras, o estádio (do Operário) ficava lotado por torcedores. A distância entre as arquibancadas e o campo era muito pequena, apenas uma cerca de balaústre separava a gente (jogadores) dos torcedores. Teve um tempo que os treinos começaram a ficar tumultuados demais, pra evitar os corneteiros e brigas que acabavam acontecendo, o professor Silas (Silas Ribeiro de Moraes técnico à época), mandava fechar os portões proibindo quem não era ligado ao clube entrar. Foi uma reclamação geral, tinha até pessoas influentes da cidade que subia nos postes na beirada do muro pra ver o treino, a chiadeira foi muito grande mas foi assim por quase dois meses”.

Segundo ainda Valdomiro Arantes, o “Chavantes”, que faleceu no início deste ano, o autoritarismo, a rejeição que o governo de Getúlio Vargas tinha á palavras e termos que remetessem ao comunismo, fez com que a população se comportasse como mandava o figurino político da época. Mas embora oficialmente o clube tenha trocado de nome, os torcedores continuaram se referindo a equipe como E.C. Operário, denominação que voltou oficialmente no final dos anos 40. 

 

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