sexta, 19 de abril de 2024

Por meio de cooperativas ou vivendo na informalidade ‘Catadores’ nas ruas reciclam mais do que parece

A atividade em muitos casos envolve famílias que conseguem boa parte do sustento recolhendo materiais que rendem o dinheiro para ir tocando a vida

 

 

José Luiz Martins

 

 

O lixo e resíduos produzidos pela atividade humana em escala sempre crescente – sua geração, coleta e descarte – são um grande desafio global do século XXI. A reciclagem de resíduos impulsiona a sustentabilidade ambiental, reduzindo as emissões de gases de efeito estufa e estimula a economia, fornecendo matérias-primas e materiais de embalagem.

Em Ourinhos o impulso na atividade de reciclagem deu-se a partir de 2003 com a fundação da Cooperativa de Catadores de Materiais Recicláveis de Ourinhos (Recicla Ourinhos). Hoje a associação conta com cerca de 100 cooperados que recebem um salário-mínimo, tem encargos garantidos como a contribuição ao INSS, seguro de acidente de trabalho, transporte e alimentação.

De acordo com Claudia da Silva, presidente da Cooperativa, de janeiro a julho do ano passado a cooperativa coletou 1.841,67 toneladas de resíduos recicláveis em Ourinhos. São papeis, papelão, caixas de leite, latas, alumínio, garrafas, vidros e frascos plásticos separados pela população em praticamente todos os bairros da cidade, material que gera renda às famílias dos cooperados.

 

 

CATADORES INFORMAIS – Embora o número de cooperativas como a Recicla Ourinhos esteja expandindo no país, os catadores chamados informais, ou seja, não cooperados, já estavam espalhados pela cidade bem antes, recolhendo esses materiais. Eles são os outros atores na recuperação de resíduos para a indústria de reciclagem, fato registrado em todo o Brasil com um grande número de pessoas de baixa renda e desfavorecidas, que ganham a vida coletando e separando resíduos para vender à indústria de reciclagem por meio de intermediários.

Onde a maioria das pessoas vê lixo, os se dedicam a classificar e agrupar diferentes tipos de resíduos – papel, papelão, vidro, metal entre outros, por peso e uso final para retornar as indústrias do setor. Não é difícil visualizá-los pelas ruas de Ourinhos. Eles estão em todos os cantos da cidade, em cada bairro sempre tem alguém garimpando recicláveis para fazer um dinheirinho extra, que para a grande maioria, é a renda principal da família.

Sem qualquer tipo de amparo que garanta o direito a aposentadoria e sujeitos à precarização e à exploração, a atividade em muitos casos envolve famílias que conseguem boa parte do sustento recolhendo materiais que rendem o dinheiro para ir tocando a vida. É o que revelou à reportagem do Negocião Alessandro Tavares que, junto com o irmão e alguns funcionários mantém um depósito de recicláveis localizado na SP 270 próximo a ponte sobre o Rio Pardo.

Alessandro conta que ele próprio está há quase 24 anos nessa atividade, que começou ainda bem garoto, ajudando seu pai, percorrendo a cidade buscando o material. “São muitas famílias que estão envolvidas com a reciclagem. Eles juntam em bags de 20 a 25 quilos nós passamos recolhendo nas vilas, mas tem os que entregam aqui também, são mais ou menos umas 70 famílias. A maioria da nossa coleta geralmente são das casas, onde pesamos os materiais já separados e fazemos o acerto ali mesmo”.

Alessandro Tavares e seu irmão Luiz Carlos depósito de reciclaveis

Ainda conforme Alessandro, juntando o trabalho desenvolvido pela Recicla Ourinhos e os catadores informais, cerca de 75% de resíduos recicláveis da cidade são recolhidos todos os meses e encaminhados para reaproveitamento.

Amélia Alves tem 63 anos, veio ainda jovem do Paraná onde trabalhava na roça colhendo algodão, café e no corte de cana por imposição do pai que colocou ela e seus irmãos para trabalhar desde pequenos. Depois que se mudou para Ourinhos viu que poderia, através da coleta de recicláveis, obter uma renda e há mais de duas décadas recolhe os materiais inservíveis descartados por comerciantes principalmente na área central da cidade e na região do bairro onde mora. Talvez ela seja a mais antiga catadora da cidade.

“Faz 26 anos que eu trabalho catando reciclável no centro, eu consegui comprar até um terreno, estou nessa lida desde 97 antes de ter surgido a Associação dos Recicladores aqui de Ourinhos. Eu faço a coleta aqui no centro e também no bairro onde eu moro, lá tem mais variedade, é garrafa, vidro, latinhas, ferro, plástico, é um material que é mais agradável porque vale mais”.

Amélia Alves – catadora de reciclaveis

Raramente reconhecidos pelo importante papel que desempenham na valoração a partir dos resíduos gerados por outros, o que os catadores têm a oferecer é bastante claro: serviços de coleta, triagem, recuperação e reciclagem de lixo a um custo razoável. Promovem um círculo virtuoso na gestão de resíduos sólidos que resulta da integração dos catadores com as pessoas que reciclam.

Assim é o dia a dia de Conceição Ferreira. Há sete anos ela começou coletando no bairro que mora e arredores, por ser perto de sua residência. Hoje passa boa parte do seu dia na área central recolhendo no comércio principalmente papelão e plástico.

O que a maioria dos catadores na rua pega é garrafa pet, o plástico cristal que é aquele que embala o fardinho de cerveja, latinhas de alumínio e às vezes a gente acha cobre, mas é muito difícil. Aqui na área central tem mais papelão, só que é o mais barato e é o que mais tem. O pessoal das lojas é bastante compreensível, colaboram muito comigo, alguns arrumaram tambores pra separar, por isso eu tenho a obrigação de retirar porque se eu não retirar ela passa para outra ou coloca na rua para quem quiser pegar”.

Conceição Ferreira – catadora de recicláveis 

 

 

DESVALORIZAÇÃO DOS MATERIAIS COLETADOS – Dona Amélia Alves também afirma que a maioria dos comerciantes são solidários ao seu trabalho guardando os descartáveis no fundo das lojas e ligam, mandam mensagens pelo WhatsApp para ela retirar. Mas ela reclama que os catadores já foram mais bem remunerados, hoje existe uma desvalorização de muitos materiais recicláveis.

“Hoje está tendo muita dificuldade porque o preço baixou muito, as fábricas não estão pegando de volta, os depósitos onde a gente vende e que repassam esse material para as fábricas estão cheios. Tá tudo meio parado, estão pegando mais plástico, alumínio e ferro. Por isso os depósitos que pegam papelão estão lotados. Aqui em Ourinhos não tô conseguindo mais vender o que recolho, eu consegui um depósito de Santa Cruz que vem buscar”.

Com o depósito abarrotado principalmente de papelão, Alessandro Tavares confirma que dentre os materiais que chegam até ele, o papelão é que mais caiu o preço, já que as indústrias de cartonagem estão recolhendo menos, compram conforme a demanda de fabricação de novas embalagens desse tipo de material. “O pessoal continua recolhendo, mas está sobrando muito, as indústrias estão fazendo menos embalagens de caixas de papelão, só compram o que recolho quando os pedidos de embalagens novas aumentam. Garrafa PET, embalagens de detergente e outros plásticos continuam saindo, mas menos também. Está sobrando na fábrica, é aí que abaixa o preço e a gente sofre a consequência, o catador também”.

Segundo Tavares o quilo do papelão já chegou a ser vendido por mais de R$ 1,00, hoje está em R$ 0,17, o metal na faixa de R$ 17, o alumínio já chegou a R$ 10 e desde o início deste ano as indústrias não pagam mais de R$ 5,00. O cobre é o mais valioso, mas difícil de encontrar. O pouco que recolhe de cobre é vendido para indústria por R$ 30,00 o quilo. Conforme o comerciante, Ourinhos possui ao menos cinco depósitos que compram os resíduos oriundos do trabalho dos catadores individuais.

Reciclagem deposito de Alessandro Tavares equipe de trabalho

Sidney Moraes, que também atua no comércio de sucatas e recicláveis reafirma a realidade vivida hoje. “Até um pouco antes do ano passado as latas de alumínio estavam no auge, naquela época chegou a R$ 9,00 o quilo, hoje não passa de R$ 4,00, a sucata de ferro era vendida a R$ 2,00 hoje é R$ 0,30. Para os meus amigos que recolhem mais, o papelão quase que não está compensando, antes o papelão chegou a R$ 1,70, hoje está entre R$ 0,17 e R$ 0,20 centavos”.

Sidney Moraes comerciante de sucatas e recicláveis

 

 

QUEDA DE PREÇOS X AUMENTO DE CATADORES – Segundo os profissionais entrevistados pelo Negocião, à medida que os preços dos inservíveis caem no mercado, diariamente aumentam os catadores pelas ruas das cidades.

“Nos últimos tempos, embora o preço pago tenha caído demais tem mais pessoas catando recicláveis nas ruas, a gente percebe muito isso”, conta Moraes.

Alessandro Tavares também diz que em outras cidades da região como Marília, Bauru e Botucatu, o aumento da quantidade de pessoas catando recicláveis também aumentou nos últimos anos.

“Aumentou e não é só aqui em Ourinhos, companheiros que mexem também com depósito em outras cidades também dizem isso. Acho que é pela falta de emprego, de oportunidade, às vezes as pessoas também não têm um estudo e então vai gerando isso, cada dia que passa vai aumentando mais. São aquelas pessoas de baixa renda que precisam achar um jeito de sobreviver, de não passar fome mesmo, de ter o que comer. Penso que a prefeitura deveria dar atenção para esses catadores. Começar a enxergar e valorizar, eles ajudam a cidade, o meio ambiente”, observa Tavares.

 

 

CONSCIÊNCIA SUSTENTÁVEL – A catadora Conceição Ferreira diz que a maioria das pessoas com quem conversa tem consciência da necessidade de reciclar, mas muitos não têm o conhecimento da importância da reciclagem para o futuro.

“O que nós fazemos também serve de exemplo para um incentivo, para continuar separando o lixo, para não ser jogado no aterro, mas querendo ou não a maior parte do lixo vai para os aterros. As pessoas têm que entender que o lixo, mais pra frente pode acabar com o ser humano, pois dificulta a natureza se renovar. Esse nosso trabalho ajuda melhorar a situação do meio ambiente, com um pouquinho de cada um se alcança o resultado para o planeta, para os nossos filhos, os nossos netos”, concluiu.

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