segunda, 9 de março de 2026
Publicado em 04 out 2024 - 09:43:00
A pesquisa, realizada este ano, trouxe dados preocupantes
Fernando Lima
Uma pesquisa realizada este ano sobre o racismo no ambiente escolar trouxe dados preocupantes. Segundo os resultados colhidos pelo Observatório Fundação Itaú, em parceria com o Equidade.Info, mais da metade (54%) dos professores entrevistados, já presenciaram casos de racismo envolvendo alunos em sala de aula.
O levantamento apontou que esse percentual é maior entre professores do ensino fundamental II (6º ao 9º ano) e chega a 67%. Nos professores do fundamental I (1º e 5º ano), a taxa é de 48% e nos professores do ensino médio, o percentual é de 47%.

A pesquisa apontou que a maioria dos professores já presenciou situações de racismo no ambiente escolar
Já entre os alunos, os números são diferentes. A pesquisa observou que alunos negros e brancos tem visões diferentes sobre o racismo. 8% das crianças e adolescentes brancos acreditam que seus colegas negros não são respeitados no ambiente escolar. Mas o número sobe para 13% entre os alunos pretos e pardos. Ao todo, 70% acreditam que os alunos negros são respeitados no ambiente da escola.
Entre os professores brancos e negros, também há divergência. Enquanto os 56% dos professores negros apontam que existem situações de racismo entre os alunos, 48% dos professores brancos tem essa mesma opinião.
O enfrentamento ao racismo
Outro dado apresentado pela pesquisa mostrou que 21% dos professores brancos dizem não saber como lidar com o racismo dentro da escola. Entre os professores negros o número cai para 9%.
Em entrevista à Agência Brasil, a coordenadora do Observatório Fundação Itaú, Esmeralda Macana disse que: “As escolas precisam promover um clima escolar positivo. E isso se dá de várias formas, inclusive a arte e a cultura podem ajudar nessa promoção. Também é preciso um currículo escolar mais enriquecido com arte e cultura para o enfrentamento do racismo. Há a lei 10.639, que existe há 20 anos, e que traz a obrigação do ensino das relações étnico-raciais e do ensino da história afro-brasileira, que precisa ser implementada. Isso implica ter materiais pedagógicos adequados e que tragam referências de representações negras”.

Esmeralda Macana, coordenadora do Observatório Fundação Itaú
Na média geral, 75% dos professores apontaram que existem procedimentos para lidar com casos de racismo em suas escolas. “É preciso que exista a formação dos professores para identificar essas situações [de racismo]”, disse a coordenadora.
Esmeralda ainda destacou que o enfrentamento ao racismo não é tarefa apenas dos professores. Para ela, somente ações estruturais e que envolvam toda a rede de ensino, juntando comunidade, funcionários e familiares dos alunos, podem superar o problema. “Quando as crianças se sentem mais valorizadas por sua identidade, seu território e sua cultura, elas vão se sentir mais acolhidas”, disse ela.
Realidade Local: como o racismo é abordado nas escolas de Ourinhos?
Segundo o Secretário Municipal de Educação de Ourinhos, Lucas Suzuki, em entrevista ao EnDia/Negocião, a questão racial é trabalhada nas escolas de diversas formas transversais. Seja pela interdisciplinaridade dos projetos que englobam o tema, palestras de conscientização, rodas de conversa, momentos de escuta e oitivas. A rede municipal, inclusive, possui o programa Círculo Antirracista, que aborda o tema nas escolas.
“Trabalhamos frequentemente o tema nas nossas escolas abordando a cultura antirracista, explicando que o preconceito é um mal que temos que combater todos os dias”, comentou o secretário.

Secretário Municipal de Educação de Ourinhos Lucas Suzuki
Lucas nos informou que os alunos recebem projetos da educação e também projetos externos com frequência. “No primeiro semestre realizamos o Círculo Antirracista nas escolas de fundamental II. Também realizamos recentemente uma palestra com o professor Dr. Natanael dos Santos, no teatro municipal, para cerca de 1.100 professores, que falou, com propriedade, dessa questão para todos”.
O professor Dr. Natanael dos Santos é historiador, palestrante, escritor de livros didáticos e paradidáticos, pesquisador e membro fundador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O secretário informou também que “professores formadores” abordam frequentemente o tema com seus pares, e abrem para sugestão de ideias de combate ao preconceito racial nas escolas municipais.
Lucas ainda finalizou com sua opinião sobre a pesquisa: “Penso que essa porcentagem descrita no documento está abaixo ainda, pois acredito que 80% dos professores já presenciaram alguma cena de preconceito racial, afinal o racismo existe e não existe só na escola, existe na sociedade, e a escola é a parte dessa sociedade que precisa combater veementemente essa “cultura” em que estamos inseridos”, finalizou.

A conscientização e educação são apontadas como instrumento para o combate do racismo
A Pesquisa
A pesquisa de Enfrentamento ao Racismo teve os dados colhidos entre abril e maio de 2024, com 160 escolas públicas e privadas e entrevistou 2.889 alunos, 373 professores e 222 gestores.
As margens de erro variam por ator e por onda, em função das diferentes amostragens. Com 95% de confiança, elas são 1,8 pontos percentuais (alunos), 5 pontos percentuais (docentes) e 6,5 pontos percentuais (gestores).
Imagens: Reprodução/Arquivo Pessoal.
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