sexta, 19 de julho de 2024

Suicídio: É preciso falar sobre ele

Publicado em 03 fev 2019 - 12:05:33

           

Letícia Azevedo

O surgimento de novos casos de suicídio na cidade e no país têm aumentado significativamente e é considerado um problema de saúde pública. O suicídio mata 1 brasileiro a cada 45 minutos e 1 pessoa a cada 45 segundos em todo o mundo. O assunto, que ainda é tabu entre a sociedade, só colabora para o aumento dos casos, pois as pessoas muitas vezes não sabem que devem procurar ajuda, e nem onde encontrá-la. 

O Jornal Negocião ouviu a psicóloga Fernanda Marques (CRP 06/146434) a fim de esclarecer algumas dúvidas em relação ao comportamento de um suicida. Diversas pessoas tem dúvidas em relação ao assunto e nós tentamos trazer de maneira simples aos leitores e subsídios para desmistificar o caso.

COMO IDENTIFICAR O SUICIDA – Perguntamos a psicóloga se há como traduzir de maneira geral, o que leva uma pessoa a cometer o suicídio. A profissional foi categórica em dizer que não existe uma “receita” para a pessoa que tem a pré-disposição em cometer o suicídio “(…) Não existe uma cartilha sobre o assunto, seria bem mais fácil se soubéssemos os sintomas, o que a pessoa apresenta, como ela age. Seria muito mais fácil para o profissional da psicologia e também para a família interpretar que o indivíduo não está bem psicologicamente. E essa é uma das perguntas mais sem resposta: O que levou essa pessoa a tirar a própria vida? Infelizmente essa questão é levantada por quem fica, e na maioria das vezes fica sem resposta, ela morre com quem cometeu o ato. Na maioria das vezes as pessoas tentam apontar os “porquês” daquele ato suicida, que seria o término de um relacionamento, ou a perda de um emprego, porém, apenas quem comete o ato, sabe de suas verdadeiras razões” – explica Fernanda. 

A psicóloga alega que geralmente as pessoas dão sinais – inclusive nas redes sociais – de que algo não vai bem, apresentam queda na produtividade, na vida social e chegam a se colocar em situações de risco indireto “(…) A vida corrida que a sociedade nos impõe hoje, impede que consigamos notar diferenças nos comportamentos das pessoas que estão com problemas ou dificuldades psíquicas. Nem todas as pessoas com pré disposição ao suicídio tem mudanças comportamentais, e quando apresentam essas mudanças, a correria do dia a dia impede que os familiares ajudem na sua recuperação, ou até mesmo num início de um tratamento psicológico” – afirma.

PROBLEMA SOCIAL – Sabemos que a sociedade impõe diversos padrões de beleza, de classe social, e as redes sociais estão cada vez mais impondo isto, e a cada dia, mais pessoas estão descontentes com o seu padrão de vida. Fernanda aponta que esse fator vem contribuindo com o aumento do número dos suicídios “(…) O suicídio é um ato social, e a sociedade está diretamente relacionada a esse ato que implica em como nós nos relacionamos socialmente. As pessoas se relacionam completamente errado. As pessoas evitam o afeto a todo custo, e perdem o sentimento de pertencer a um grupo. Como na maioria das vezes o contato é extremamente restrito as redes sociais, a tendência é que quem se sente sozinho se sinta cada vez mais sozinho, quem se sente isolado se sinta cada vez mais isolado. As pessoas estão dando muito mais valor no tempo de trabalho, do que no tempo em que pode passar com a família e com os filhos. Isso vai tornando o indivíduo cada vez mais afastado, o que pode trazer a depressão, que é uma das maiores causas do suicídio em si” – explicou a psicóloga.

A IMPORTÂNCIA DE UM PSICÓLOGO – O papel de um psicólogo é de extrema importância na vida das pessoas. Fernanda afirma que se faz necessário enxergar a psicologia como uma maneira preventiva, e não remediativa como as pessoas a encaram. Ela disse que muitos pacientes só procuram pela clínica, após terem um surto psicótico, ou já estando sem esperanças de viver “(…) As pessoas não tem mais tempo para nada, nem para si próprias. Elas não conseguem tirar um tempo para uma terapia, ou acham que é bobagem, ou até mesmo falam a frase mais comum: “Psicólogo pra quê, eu não sou louco”. Esse tabu ainda existe, menor, porém ainda se faz presente nos dias de hoje. O grande mal é não enxergar a psicologia como algo preventivo. É necessário abrir os olhos, e se voltar para aquilo que te angustia, e procurar ajuda. Quantas dessas pessoas que já tiraram suas próprias vidas não tiraram esse momento pra si, e não conseguiram ao menos pedir ajuda. Viver traz sofrimentos, alegrias, desgastes, é um mix de sentimentos, e nem todas as pessoas conseguem lidar com as tristezas e frustrações. Todos deveriam fazer terapia, tirar um momento pra ser você, desabafar com o psicólogo às vezes é a única saída para aquele indivíduo que não vê abertura com a família para uma conversa franca. A ajuda de um profissional pode contribuir de diversas formas para minimizar os riscos que o indivíduo oferece a si próprio, e a falta de acessibilidade ao psicólogo às vezes traz danos irreversíveis” – esclareceu.

SAÚDE PÚBLICA – A profissional acredita que há uma falha na saúde pública prestada à população, pois o acesso ao tratamento psicológico é escasso, e poderia ajudar as pessoas que não tem acesso a esse tipo de tratamento particular, ou seja, a parcela mais carente da sociedade “(…) A prática da psicologia clínica tem um custo alto, então nem todas as pessoas tem acesso à esse tipo de tratamento. É muito difícil ver em unidades básicas de saúde um psicólogo atendendo a população, e é mais difícil ainda ver as portas se abrindo pra esse tipo de profissional. Todas as pessoas passam por problemas que tem dificuldades para lidar, e o nosso papel é ajudá-las para que passem pelo problema sem entrar em depressão, sem tentar o suicídio. Ajudá-las a passar por esse tipo de problema é nosso papel, mas somos privados de oferecer esse serviço. O ideal seria ter um profissional em cada escola, nas empresas, nos hospitais. A sociedade normalmente impõe um mal estar, e nem todos estão preparados pra esse tipo de “frustração”, e essa falta de acesso a esses profissionais aumenta o número de pessoas que não saberão lidar com essas frustrações” – finalizou a psicóloga.

Aceitar que não somos perfeitos pode ajudar a viver a vida sem carregar o peso que a sociedade trás. A imperfeição faz do ser humano ser belo e simples. E procurar ajuda para carregar os fardos da vida é sempre o melhor a se fazer. Sendo ela profissional ou religiosa, sempre há alguém disposto a oferecer um ombro amigo.

Em Ourinhos foi criado o grupo no WhatsApp “Helping Hands” na sua tradução é “Mãos que ajudam”, um projeto que tem por objetivo contribuir com a prevenção do suicídio, apoiar familiares e levar conforto e esclarecimento às pessoas aflitas e com ideação suicida.

Acesse o link do grupo do WhatsApp, fique por dentro das informações e datas sobre as reuniões, https://chat.whatsapp.com/Dp9rJGzjl2e0vQHqRa8YbH

O grupo G.V.V. de valorização à vida também foi criado por munícipes e conta com profissionais que se uniram para ouvir e ajudar pessoas e familiares, para que possam estabelecer relacionamentos construtivos e novos laços. O grupo se reúne quinzenalmente na escola Racanello, localizada à Rua José Felipe do Amaral, 300 – Vila Boa Esperança, Ourinhos

No Brasil também está disponível uma linha de prevenção ao suicídio, o disk 188.

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