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terça, 19 de outubro de 2021

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O cotidiano da guerra das drogas em Ourinhos

Com um número sempre alto de apreensões e flagrantes, bandidos procuram novas formas de fugir das autoridades e manter o lucrativo mercado do tráfico funcionando

 

Alexandre Mansinho/Marcília Estefani

 

Noite de sexta-feira, Maria (nome fictício) acaba de chegar em casa após um dia estressante no comércio ourinhense. Para poder “ficar de boa no final de semana” já entra em contato com o “patrão” – essa é a forma que ela usa para se referir ao homem que a vende droga: “eu chamo ele de “patrão”, mas o coitado é nóia (…) vive devendo “pros caras” e, quando a coisa fica feia pro lado dele, o baseado de “cinco contos” chega até “vinte contos” brincando”.

Maria é um exemplo da forma “desencanada” que algumas pessoas vêem o tráfico de drogas: o Negocião foi às ruas e conversou com diversas pessoas sobre o tema, a jovem comerciária de pouco mais de 20 anos é apenas um exemplo de quem fomenta o comércio de entorpecentes na cidade – a grande maioria dos usuários tem pouca idade; são bem relacionados e, ao contrário da imagem tradicional do “usuário”, estão inseridos em todos os grupos sociais: há “marias” e “patrões” nas periferias e também nos condomínios de alto padrão.

“VOU PUXAR UM F1” – Embora não seja novidade para ninguém dos problemas de saúde que as drogas provocam, boa parte dos jovens entrevistados pelo jornal para essa matéria afirmam que um “baseado” (cigarro de maconha) ou um “pó de 10” (quantidade de pouco mais e 1 grama de cocaína que cabe dentro de um “tubo eppendorf”) não representam nada de errado e nem poderia ser considerado crime. Pedro (nome fictício) diz que consegue com “uma galera” as drogas que revende para os amigos – não se considera um criminoso, diz que: “o pessoal vai puxar um F1 (cigarro de maconha) de qualquer jeito (…) tem uns caras que perdem a noção, mas a maioria é de boa”.

 

Traficantes e usuários de drogas estão inseridos em todos os grupos sociais (Imagem ilustrativa)

 

ALTERNATIVAS – Para fazer chegar as drogas na região de Ourinhos/SP, os “atacadistas” têm procurado reestruturar as formas de transporte e distribuição de países como Bolívia e Paraguai, onde há produção/plantio, até os pequenos traficantes ou os “traficantes privilegiados”. Um método que tem sido bastante usado é o de aliciar mulheres e pagar a elas quantias de 1 mil até 2 mil reais para que, usando transporte rodoviário e sem chamar a atenção, elas possam transportar de 10 a 15 quilos de entorpecentes embalados a vácuo e prensados (tijolos). Essa forma é uma reação aos avanços que as autoridades têm conseguido no combate a esse mercado criminoso: “ah, velho, isso é uma briga de gato e rato”, afirmou Pedro.

TRÁFICO PRIVILEGIADO – No entanto, ao contrário do que nossos entrevistados afirmaram, a Lei reprime sim o porte de drogas e também o tráfico, mesmo que em pequenas quantidades – no caso das pessoas sem relação com o crime organizado e que são flagradas com pouca quantidade de drogas, a Lei os considera “usuárias” e, dessa forma, elas são conduzidas à delegacia e assinam um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO), documento que vai registrar os detalhes do flagrante. Não haverá um inquérito policial ou qualquer tipo de prisão – essas pessoas ficam em liberdade, mas à disposição do Juizado Especial Criminal para que sejam orientadas por profissionais ou encaminhadas para trabalhos de ressocialização. Já o indivíduo, mesmo que usuário, mas que é flagrado com quantidades maiores de entorpecentes e que trafica para poder sustentar o vício, como o personagem “patrão”, é considerado pela lei um “traficante privilegiado”, ou seja, não é tão grave quanto o grande traficante, mas não pode ser considerado apenas um usuário – acaba sendo preso e, durante o processo, o advogado tem que reunir os elementos de prova para poder pleitear uma pena mais branda: dessa forma é que muitos viciados acabam encontrando a cadeia em vez de um atendimento de saúde.

 

A Lei reprime sim o porte de drogas e também o tráfico mesmo que em pequenas quantidades (Imagem ilustrativa)

 

“ESSES NÓIAS MALDITOS” – Joana (nome fictício) costuma ficar na porta de entrada de uma padaria conhecida na cidade de Ourinhos, sempre com um olhar perdido e uma história triste para quem passa, a mulher de 52 anos é uma usuária crônica de crack (um dos subprodutos da cocaína). Ela pede dinheiro “para comprar remédios” mostrando uma receita médica qualquer e, quando cai a noite, vai para os pontos de venda, as “biqueiras”, a fim de comprar o entorpecente com aquilo que conseguiu pedindo esmolas. Enquanto o jornalismo do Negocião tentava conversar com ela, um homem passou e disse: “não dá dinheiro pra ela não, esses nóias malditos precisam tomar vergonha”. A entrevista com Joana acabou não acontecendo, além da desconfiança que essas pessoas geralmente têm, o gesto de agressividade verbal do transeunte tirou por completo a já pouca vontade que ela tinha de falar algo.

“MAIS DE 40 TONELADAS EM APREENSÕES DE ENTORPECENTES” – Por outro lado, enquanto o tráfico continua buscando alternativas para continuar a manter a demanda atendida, as autoridades de segurança procuram estar sempre reprimindo e apreendendo os entorpecentes. O 2º Batalhão de Polícia Militar Estadual Rodoviária, com sede em Bauru/SP, já soma em 2021 mais de 40 toneladas de drogas apreendidas e incineradas. O comandante da 3ª Companhia, sediada em Assis/SP, Capitão Daniel Aparecido Demétrio, afirma que o trabalho que resultou no aumento das apreensões nas estradas da região é resultado de um aprendizado diário por parte dos homens e mulheres da Polícia Militar: “nós estamos sempre verificando as formas que os traficantes têm usado para diversificar o transporte e distribuição de entorpecentes (…) nós verificamos ônibus intermunicipais, ônibus interestaduais e desenvolvemos um “olho clínico” para identificar características dos veículos que são usados para o transporte de drogas”.

 

Comandante da 3ª Companhia, sediada em Assis/SP, Capitão Daniel Aparecido Demétrio

 

POLÍCIA CIVIL NO COMBATE AO TRÁFICO – Dr. Fernando da Silva Freitas, delegado da Delegacia de Investigação Sobre Entorpecentes (DISE) de Ourinhos, delegacia criada pela Polícia Civil de São Paulo para dedicação exclusiva ao combate ao tráfico, diz que os resultados positivos que estão sendo observados na “guerra ao tráfico” é resultado da especialização dos agentes e do trabalho conjunto: “os policiais militares estão todos os dias nas ruas, eles são nossos grandes parceiros para retirar das ruas esse produto que faz perder muitos dos nossos jovens”. Dr. Fernando também critica o pensamento de que “é só um baseado” ou “é só uma carreirinha de cocaína”: “por trás daquela porção de entorpecente há toda uma cadeia de violência, crimes e morte (…) quem compra qualquer entorpecente está, mesmo sem intenção, sendo parceiro de toda a violência que a criminalidade proporciona (…) eu, como pai, recomendo que todos os pais ajudem seus filhos a resistir às mentiras que o mundo das drogas conta para tentar aumentar o número de usuários”.

 

Delegado da DISE informa que há um 0800 exclusivo para denúncias, o 0800-7770014 (imagem de arquivo)

 

O delegado também ressaltou que apenas com as denúncias que a população faz é que o trabalho de investigação e apuração pode ser bem feito: “há um 0800 exclusivo para denúncias, o 0800-7770014 (…) a identidade dos denunciantes vai ser mantida em sigilo”.

POLÍCIA MILITAR – Em entrevista ao Negocião, Cap PM Lucas Viol Franciscon, Cmt da 1ª Cia do 31º BPM/I afirma que o tráfico de drogas é considerado um delito de extrema gravidade pelo potencial lesivo que causa à Sociedade. “Suas consequências negativas atingem diretamente não só os usuários de entorpecentes, mas também suas respectivas famílias, gerando ainda diversos outros crimes associados à traficância, como furtos, roubos e homicídios, impactando diretamente na tranquilidade e na ordem pública”.

 

Cap PM Lucas Viol Franciscon, Cmt da 1ª Cia do 31º BPM/I (Imagem de arquivo)

 

Capitão Viol destaca que no primeiro semestre de 2021, a Polícia Militar de Ourinhos realizou 114 (cento e catorze) flagrantes de tráfico de drogas e associação ao tráfico, 128 (cento e vinte e oito) pessoas foram presas, e mais de 45 Kg (quarenta e cinco quilos) de drogas foram apreendidas.

O Capitão conta ainda que a Polícia Militar estimula a sociedade denunciar toda e qualquer ação criminosa, colaborando efetivamente com a preservação da ordem e tranquilidade pública. Para tanto, denúncias podem ser feitas por meio do telefone de Emergência da Polícia Militar 190, pelo Disque Denúncia da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo pelo telefone 181 ou por outros canais de comunicação disponibilizados pela Polícia Militar, como o aplicativo WhatsApp, um novo canal de comunicação o qual está vinculado ao número (14) 99793-6237.

O App tem como finalidade facilitar ainda mais o contato entre a PM e os cidadãos da região de Ourinhos para questões ou fatos não emergenciais e não urgentes. Porém, situações que demandam imediata resposta das Unidades de Serviço da Polícia Militar devem ser acionadas somente via telefone de emergência 190.

Dentre os assuntos que podem ser comunicados pelo aplicativo WhastApp, podemos citar demandas dos Programas Vizinhança Solidária e Vizinhança Solidária Escolar, fotos e informações de pessoas desaparecidas, condutas irregulares referentes à trânsito, com infrações, denúncias de tráfico de drogas, com a possibilidade inclusive de envio de arquivos de áudio, fotos e vídeos. No caso de denúncias criminais, será mantido o anonimato do denunciante, não havendo qualquer exposição de seus dados.

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