quinta, 20 de agosto de 2026

Operação da PF investiga delegado suspeito de vazar informações sigilosas em troca de dinheiro

Publicado em 20 ago 2026 - 10:53:29

           

José Navas Júnior foi afastado das funções por 120 dias; PF pediu prisão preventiva, mas MPF se manifestou contra e Justiça Federal rejeitou o pedido

 

Marcília Estefani

 

A Polícia Federal deflagrou nesta quarta-feira, 19, a Operação Sinon, que investiga um suposto esquema de corrupção envolvendo o fornecimento indevido de informações sigilosas de investigações policiais em troca de vantagens financeiras.

No centro da apuração está o delegado da Polícia Federal José Navas Júnior, suspeito de ter utilizado sua função e o acesso a sistemas corporativos da própria instituição para consultar informações de investigações e, posteriormente, repassá-las a pessoas investigadas.

 

 

A operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, além de medidas de bloqueio e sequestro de bens.

Durante as diligências, foram apreendidos R$ 358 mil em dinheiro, segundo informações obtidas sobre a operação.

 

 

As medidas foram autorizadas pelo juiz federal Alexandre Sormani, da 1ª Vara Federal de Marília.

 

PF PEDIU PRISÃO DE DELEGADO, MAS JUSTIÇA NEGOU

No decorrer da investigação, a Polícia Federal pediu a prisão preventiva de José Navas Júnior. O Ministério Público Federal, entretanto, manifestou-se contra a prisão e o pedido acabou rejeitado pela Justiça Federal.

Na decisão, o magistrado considerou não estar demonstrada, neste momento, a necessidade da prisão para garantia da ordem pública ou conveniência da instrução criminal.

A Justiça entendeu que outras medidas cautelares seriam suficientes para afastar o risco apontado pela investigação, especialmente relacionado ao acesso do delegado aos sistemas internos da PF.

O juiz ressaltou, porém, que eventual descumprimento das medidas impostas poderá levar à decretação da prisão.

Navas foi afastado das funções públicas por 120 dias, sem prejuízo da remuneração, além de ficar proibido de entrar na unidade da Polícia Federal e de acessar sistemas e recursos tecnológicos da instituição.

Também foram impostas restrições para deixar a cidade e o país, com determinação de entrega de passaporte.

 

INVESTIGAÇÃO TERIA COMEÇADO COM DENÚNCIA ANÔNIMA

A apuração teria começado a partir de uma denúncia anônima sobre possível fornecimento de informações sigilosas a pessoas relacionadas a crimes de contrabando.

Segundo elementos reunidos na investigação, a Corregedoria-Geral da Polícia Federal identificou, ainda em 2023, acessos atribuídos ao delegado a um inquérito relacionado à fabricação clandestina de cigarros, apesar de ele não possuir atuação formal naquele procedimento. A partir daí, as suspeitas foram ampliadas.

A investigação identificou consultas feitas no ePol, sistema utilizado pela Polícia Federal para gerenciamento de inquéritos e outros procedimentos.

Entre os procedimentos consultados estariam investigações conduzidas por diferentes unidades da instituição e operações como Ilusão, Servi Fumi e Terra Limpa.

A presença dessas investigações na apuração da Operação Sinon, entretanto, não significa que o delegado seja suspeito dos crimes investigados naquelas operações. O que está sendo apurado é se houve acesso indevido às informações e eventual repasse do conteúdo a terceiros.

 

MOVIMENTAÇÕES FINANCEIRAS ENTRAM NA MIRA DA INVESTIGAÇÃO

Outro eixo da investigação envolve movimentações financeiras entre Navas e o advogado e empresário Luís Gustavo Tenuta Araújo, que já manteve sociedade empresarial com o delegado.

De acordo com os elementos reunidos na apuração, Tenuta teria realizado 60 transferências para o delegado entre 2022 e 2025, que, somadas, alcançariam aproximadamente R$ 770,8 mil.

A investigação procura determinar a origem dos recursos e descobrir se alguma parcela desses valores estaria relacionada ao suposto fornecimento de informações obtidas nos sistemas da Polícia Federal.

Um dos episódios analisados envolve Alan Wladimir Bernardy. Segundo a investigação, Navas teria realizado consultas reiteradas a um inquérito no Rio Grande do Sul relacionado à apreensão de aproximadamente R$ 1,215 milhão em dinheiro.

No período analisado, uma empresa relacionada a Bernardy teria transferido R$ 197.280 para Tenuta. Posteriormente, entre maio e dezembro de 2023, Tenuta teria repassado aproximadamente R$ 189,6 mil ao delegado, por meio de 16 depósitos.

Outro episódio analisado está relacionado à Operação Terra Limpa e ao empresário José Amauri Bottura.

Conforme a investigação, uma empresa pertencente ao empresário teria transferido R$ 268 mil para Tenuta em janeiro de 2025. Posteriormente, o delegado teria recebido R$ 58,5 mil do empresário.

A Polícia Federal busca esclarecer se essas movimentações possuem alguma relação com consultas realizadas pelo delegado em procedimentos que envolviam Bottura.

A existência das transferências e consultas, por si só, não comprova que tenham ocorrido pagamentos em troca de informações. Essa é uma das hipóteses que ainda está sendo investigada.

 

ESPOSA DO DELEGADO TAMBÉM É INVESTIGADA

A advogada Ilka dos Santos Alvares, esposa de José Navas Júnior, também aparece na investigação.

Segundo os dados reunidos pela PF, ela teria recebido aproximadamente R$ 134,5 mil por meio de 101 transferências bancárias, além de terem sido identificadas movimentações superiores a R$ 1 milhão em suas contas. A investigação pretende esclarecer a origem e a natureza desses recursos.

Novamente, os dados financeiros não significam, isoladamente, que os valores tenham origem ilícita.

A Justiça autorizou acesso a dados telefônicos e telemáticos relacionados à advogada e a Tenuta, determinando a preservação das prerrogativas profissionais da advocacia.

 

BUSCAS CONTRA INVESTIGADOS

Além de José Navas Júnior e Luís Gustavo Tenuta Araújo, foram autorizadas buscas relacionadas a Alan Wladimir Bernardy, João Marcelo Grippa de Sousa, Thiago Grippa de Sousa, José Amauri Bottura e Paulo Alexandre Moitinho.

Moitinho também é mencionado na investigação por ter mantido anteriormente participação societária em uma empresa da qual Navas também participou.

A apuração identificou consultas relacionadas a Moitinho nos sistemas da PF e procura esclarecer se há alguma ligação entre a relação empresarial, os acessos realizados e os demais fatos investigados.

 

JUSTIÇA DETERMINA BLOQUEIO DE BENS

A Justiça também determinou medidas patrimoniais. No caso de José Navas Júnior, o bloqueio de bens e valores foi estabelecido até o limite de R$ 248.138,99.

Para Luís Gustavo Tenuta Araújo, o limite é de R$ 635.260. O mesmo teto foi estabelecido para duas empresas relacionadas a ele.

As medidas podem alcançar dinheiro depositado em contas, investimentos, veículos, imóveis e outros bens, respeitados os limites estabelecidos judicialmente.

O bloqueio patrimonial não foi estendido, neste momento, aos demais investigados porque a Justiça considerou não haver elementos suficientes para justificar a medida.

 

O QUE A PF INVESTIGA

Segundo a Polícia Federal, os fatos apurados podem configurar, em tese, os crimes de violação de sigilo funcional, corrupção passiva, corrupção ativa, associação criminosa e embaraço à investigação de organização criminosa.

A PF procura agora identificar todos os possíveis envolvidos, esclarecer a origem e o destino dos recursos movimentados e dimensionar eventuais prejuízos causados às investigações que teriam sido afetadas.

A Corregedoria da Polícia Federal também deverá avaliar eventuais medidas disciplinares.

A Operação Sinon permanece em andamento e nenhum dos investigados foi condenado pelos fatos apurados. As medidas determinadas pela Justiça têm natureza cautelar e as suspeitas ainda serão submetidas ao contraditório e à ampla defesa.

O EnDia tentou contato com José Navas Júnior para que pudesse se manifestar sobre os fatos apontados na investigação, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação da defesa de todos os citados.

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