terça, 23 de abril de 2024

O antirracismo na arte musical ourinhense

Não é de hoje que a música é utilizada como instrumento de luta contra o racismo e forma de denunciar e condenar a opressão racial brasileira

 

José Luiz Martins

 

O racismo nem sempre é consciente, explícito ou prontamente visível, mas que ele está profundamente enraizado permeando todos os setores da sociedade em sistemas, leis, políticas, práticas e crenças que produzem e toleram o preconceito, não há dúvida.

Essa forma chamada de racismo estrutural tem perpetuado no Brasil preconceitos, tratamentos injustos e opressivos a negros, pardos, nordestinos e indígenas. E isso costuma ser invisível para muitos que o praticam prejudicando não somente quem é vitima, mas também o bem-estar de uma sociedade como um todo.

Quando a maioria das pessoas pensa em racismo, provavelmente pensam em calúnias raciais, crimes de ódio ou outras ações abertamente racistas naturalizadas em hábitos, situações, falas e pensamentos que já fazem parte da vida cotidiana do povo brasileiro.

Existem, no entanto, outras formas de racismo menos óbvias, porém ainda mais destrutivas que marginaliza essas pessoas impedindo-as de exercerem a plena cidadania.

E a arte é uma ferramenta importante para jogar luz sobre a questão num esforço de mostrar como o racismo opera e principalmente para comunicar, esperançar a força de superação em meio ao que parece impossível. Não é de hoje que a música é utilizada como instrumento de luta contra o racismo e forma de denunciar e condenar a opressão racial brasileira.

Quando se fala nos significados sociais da música como símbolo de ativismos e antirracismo, dentro da Musica Popular Brasileira abre-se um leque de gêneros e estilos entre eles o samba, passando principalmente pelo reggae, hip hop produzidos no país.

Em Ourinhos pelo menos três grupos de artistas ligados a esses gêneros musicais têm as conexões entre música e o combate à discriminação racial, desigualdade e outras causas. Esse é um dos objetivos do coletivo CrewAtividade que através do Hip Hop faz abordagens que vão além do preconceito de cor e da própria música.

O Hip Hop (movimento cultural, de rua) também conhecido como rap, é um gênero de música popular desenvolvido nos Estados Unidos por afro-americanos e latino-americanos no bairro do Bronx em Nova York na década de 1970.

Consiste em uma música rítmica estilizada que comumente acompanha o rap, uma fala rítmica e rimada que é cantada. O movimento Hip Hop compõem-se ainda, além do rap (ritmo e poesia), grafites, Dj’s e Mc’s e danças de rua (Street Dance, Break).

Em 2015 os jovens ourinhenses Walter Alves e Vicinius (Guerrero), moradores da COHAB, tiveram a iniciativa de criar um evento de Hip Hop no bairro, chamado Feira da Rua. A ideia era abrir espaço para apresentações dos artistas do gênero na cidade, levar sua arte dentro dos quatro elementos do Hip Hop.

No ano seguinte a partir do evento Feira da Rua surge o Coletivo CrewAtividade, com Danilo Santos, também morador do bairro, passando a fazer parte do Coletivo e da organização dos eventos que se seguiram.  Conforme Danilo, o grupo busca se aproximar das pessoas nos espaços públicos, reivindicando seu território e marcando sua identidade com Hip Hop como vetor de engajamento.

“As atividades do Coletivo tem possibilitado aos jovens a valorização de si mesmos e da periferia, levando informações, conhecimento em substituição a violência pela força das ideias e das palavras. O Hip Hop é preto e na sua maioria é realizado por pessoas de uma classe social menos favorecida, ele nasceu em um cenário de muita violência e segue sendo superação e resistência. Em Ourinhos não é diferente, os pretos são a periferia e também são marginalizados aqui”, definiu.

Segundo Danilo, assim como aconteceu no rock e no jazz é preciso que não haja o “embranquecimento” da cultura Hip Hop para que não se apague a história dos que sofrem com a discriminação. É a essência do movimento.

“Ninguém questiona uma música clássica, mas o Rap é visto como música de favela e sem qualidade, o grafite não é menos arte que uma tela em óleo, mas é visto como pichações, muitas pessoas vão olhar as piruetas do balé, mas não valorizam as piruetas do Break Dance no semáforo”, concluiu.

Já os músicos do grupo ItamaraRoots fazem um som basicamente calcado no Reggae com influências da música brasileira. O Reggae é um gênero musical criado na Jamaica e a base desse estilo tem raízes profundas no ativismo negro.

O grupo apresenta um trabalho autoral com composições próprias e surgiu em 2016 na periferia de Ourinhos, no bairro Jardim Itamaraty, o nome da banda faz clara referência a isso. Foi quando os amigos de infância Renan Monteiro, Hemerson Henrique, Cristiano Michelato e Mateus Serafim sentiram a necessidade de se comunicar através da música.

“Podemos dizer que nossa música e mensagem são uma mescla temática, o grupo traz um pensamento crítico sobre o sistema capitalista e fomenta a cena regional contra o racismo, desigualdade social e falamos também sobre questões existenciais e perspectiva de vida”.

De acordo com Renan, os integrantes do grupo acreditam que podem conscientizar as pessoas contra o racismo estrutural e conta uma situação que viveu e demonstra como a discriminação afeta a vida das pessoas vítimas do preconceito. “Quando penso em racismo, a primeira lembrança que me vem à cabeça é um fato recente muito triste, uma sobrinha negra veio chorando até mim questionando o porquê do cabelo dela ser crespo. Porque havia outras crianças que a maltratavam e criticavam sua aparência na escola, expos o músico.

TONS AFRO – O grupo vocal Tons Afro formado por quatro mulheres surgiu em 2014 com a ideia de exaltação da ancestralidade afrodescendente cantando músicas que enaltecessem a cultura preta.

Vanessa Gomes, Andreisy Natel, Vanessa Monteiro e Jéssica Prado apresentam um repertório de compositores de referência que passeia por estilos, ritmos com vertentes e origens da música Yorubá, resgatando a cultura africana na música brasileira.

“Nosso país é racista e o racismo não é um problema nosso “povo preto”. As pessoas precisam reconhecer que o racismo existe, ele tá aí no nosso cotidiano e precisa ser enfrentado. Existe uma certa neutralização e uma negação sobre essa questão, e isso contribui para que cada vez mais as pessoas não repensem suas atitudes. Nós usamos nossa arte como ferramenta para ocupar os espaços, muitas das canções que interpretamos trazem uma temática que faz as pessoas refletirem, temas esses que vivenciamos no nosso cotidiano. Pra nós a música é uma forma de resistir e se opor diante das atrocidades que acontecem, e esperamos um dia cantar somente histórias que caminham no ritmo que queremos”, relata Vanessa Monteiro.

O grupo foi premiado no Festival Afro Unidad, realizado em 2021 por uma organização sem fins lucrativos sediada na Califórnia, que tem objetivo de capacitar jovens e comunidades por meio das artes, educação e ativismo.

O evento ocorreu de forma virtual contando com a participação de diversos países como: Argentina, Brasil, Colômbia, Panamá, Equador, Peru, Cuba, Jamaica, Nigéria, África do Sul, Trinidad, Tanzânia, EUA.

Vencedoras na categoria música como melhor obra com “Do Bulbo ao Coração”, o trabalho do Tons Afro estabeleceu a conexão cultural que propõe parcerias com artistas ao redor do mundo focado na disseminação da cultura afrodescendente, proposta central do festival.

 

 

O ItamaraRoots tem se dedicado a produzir o primeiro EP com músicas inéditas. O grupo tem várias músicas gravadas em vídeos postados no youtube (https://www.youtube.com/@itamararoots4250) que remetem a crítica ao capitalismo e reflexões internas, como na faixa “Preço do céu”.

Toda ideia de raiz independente se opõe a grande flora de pedra

Mantive o que é matriz

Transparecer a mensagem mente afora

Sombras vistas no farol querendo luz para buscar uma vitória

Outras deitadas ao sol

Vestem o capuz de aceitação da eliminatória

O homem já encontrou seu lar

Benção a aquele que pagar

 

Tenha consciência do atual lugar em que estamos

Onde prédios tentam ir além do que pensamos

Até parecem estar competindo com o egoísmo de seus donos

Que continuam a crescer sem pensar nos danos

Sem pensar

 

PreviousNext

© 1990 - 2023 Jornal Negocião - Seu melhor conteúdo. Todos os direitos reservados.