segunda, 9 de março de 2026
Publicado em 05 fev 2024 - 17:07:14
Cabos elétricos, medidores de energia e de água são os alvos principais dos ladrões que, na maioria das vezes, executam esse tipo de crime para obter dinheiro para comprar drogas. As autoridades miram nos receptadores e senadores e deputados estudam aumentar as penas para esse tipo de crime.
Alexandre Mansinho
Um dos princípios básicos das atividades comerciais é o direito que o empresário ou prestador de serviços têm de divulgar seu produto. No entanto, uma recente onda de furtos em casas para venda ou locação tem obrigado profissionais da área de corretagem a rever suas práticas: “somos vendedores que não podem divulgar o produto que está à venda”, afirma o corretor de imóveis Leandro Gasperoto. “As placas de “vende-se”, ou “aluga-se” estão servindo de chamariz para bandidos que, quando percebem que o imóvel está desocupado, executam furtos de fios elétricos, medidores de consumo de energia e até de relógios de água”. Ainda segundo Leandro, esse tipo de crime sempre existiu, mas, nos últimos meses, a cidade de Ourinhos tem vivido aquilo que ele chama de “epidemia”.

Prejuízo para os corretores e para os clientes — Júnior Vasconcelos, profissional da corretagem com mais de 15 anos no ramo imobiliário e que já atuou em diversas outras cidades pelo Brasil, disse ao jornalismo do Negocião Digital que o problema que a cidade de Ourinhos enfrenta hoje já é comum em outras partes do país: “há cidades que nós somos proibidos de por placas nos imóveis, seja porque a prefeitura teme que dê uma ideia de crise por ter muitos imóveis desocupados, seja porque as placas funcionam como alvos para os bandidos”. O corretor afirma que os prejuízos são vários, primeiro pelo fato de não haver uma boa divulgação da venda ou da locação do imóvel e também pelo fato do cliente passar a ter medo de ter seu bem furtado ou vandalizado: “a placa já é tradição, a pessoa que quer comprar ou alugar imóveis se guia por ela e entra em contato conosco para obter mais informações, sem a placa, parte da força do marketing é perdida”, completa.

O Negocião Digital foi às ruas e conversou com donos de imóveis, empresários do ramo da reciclagem e até com um indivíduo que afirmou já ter furtado cabos elétricos, o que há de comum entre eles é o medo de revelar a identidade e os sentimentos controversos a respeito da ação das autoridades no combate a essa modalidade criminosa.

“A gente fica com medo e tem que amargar os prejuízos” — Dona Vera* (nome fictício) disse que já teve um de seus imóveis furtado enquanto estava desocupado aguardando um novo inquilino: “vieram de noite, furtaram os fios todos da parte externa da casa e roubaram o relógio de água, tive a dor de cabeça de fazer o B.O., mas de nada adiantou (…) consegui alugar a casa, mas, praticamente os três primeiros alugueis foram para quitar a nova fiação e o novo relógio de água (…) a polícia não deu nenhuma resposta, acho que nunca vamos saber quem foi que roubou os fios”.
“A gente conhece os malandros e não compra o que eles oferecem” — Uma proprietária de um “ferro-velho”, empresa que compra e vende materiais recicláveis em Ourinhos, aceitou falar “em off” com o jornalismo do Negocião. Ela afirmou que evita comprar coisas de “pessoas suspeitas” ou, segundo ela, “gente que mexe com coisa errada”: “tem os catadores que são conhecidos da gente, que a gente sabe que não mexem com coisa roubada (…) eles mesmos me avisam quando tem um ou outro que vem trazer problema pra gente (…) os “noia” são os piores, eles trazem aqueles fios queimados, tá na cara que foi tirado de alguma casa, eu não compro de jeito nenhum”, afirma.

“É fácil e a gente sabe como “fazer dinheiro” com o material” — Um indivíduo em conflito com a lei aceitou falar com o jornalismo do Negocião Digital, ele afirmou que é morador de Jacarezinho e que “faz os corre” nas casas que estão, segundo ele, “abandonadas”. Perguntado sobre como ele consegue vender os fios e peças dos medidores de consumo de energia e água, ele afirmou que tem “donos de ferro-velho” que não perguntam nada, mas pagam bem menos pelo material: “eles sabem, claro que sabem, tanto que eles pagam menos (…) eles mesmos têm o esquema de derreter o cobre e “mocozar” (esconder) dentro de uma geladeira velha ou um fogão velho”. Perguntado se é aqui em Ourinhos que existe esse esquema de receptação, o indivíduo desconversou e falou que ele vende em “outras quebradas”.
Aumento no rigor das leis — Mudanças nas leis estão previstas para 2024, o problema do furto de fios elétricos atingiu níveis que forçaram o Senado Federal a debater o assunto. Em 2023, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou um Projeto de Lei que propõe o aumento das acusações para crimes de furto, roubo e receptação de fios, cabos e equipamentos fundamentais para o conjunto de energia elétrica, telefonia e transmissão de dados. Este projeto aguarda agora a análise da Câmara dos Deputados, prevista para 2024. O Projeto de Lei estabelece penas mais severas, variando de 3 a 8 anos, para crimes de furto, e prevê o acréscimo de um terço até metade da pena para casos de roubo, inicialmente estipulados entre 4 e 10 anos de reclusão pelo Código Penal.
O mercado ilegal que alimenta esses crimes é alvo do projeto: os senadores autores do projeto propõem penas de 2 a 8 anos de reclusão para casos de receptação simples e de 6 a 16 anos em situações de reincidência ou quando confirmada a associação criminosa. O texto também ressalta que o furto de cabos representa uma ameaça crescente, infiltrando-se em túneis, rodovias, pontes e avenidas, comprometendo a segurança pública. O receptador desses materiais é o alvo principal das autoridades, pois é ele que estimula o ladrão a praticar o crime. O projeto também abrange medidas punitivas e administrativas para empresas e seus dirigentes que utilizam equipamentos obtidos de maneira criminosa em suas operações. Os detentores de concessão, permissão ou autorização de serviços relacionados à radiofrequência e exploração de satélites estão sujeitos a sanções pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que vão desde advertências até a declaração de inidoneidade, sem prejuízo de outras lesões civis e criminais.

Várias ações de combate atualmente por todo o estado — A Polícia Civil de São Paulo encontra-se atualmente diante de uma série de investigações em várias regiões do estado, todas compartilhando um denominador comum: o foco nas empresas de reciclagem. Estas empresas estão sob investigação devido à suspeita de estarem adquirindo produtos provenientes de furtos perpetrados por usuários de drogas, que visam estabelecimentos comerciais, residências e, especialmente, cabos de iluminação pública. Os cabos de energia elétrica, compostos por cobre, um material altamente negociado nos conhecidos “ferros-velhos” ou “sucatões”. As investigações também têm em comum o fato de os principais executores dos furtos, sobretudo os de pequeno valor, serem usuários de entorpecentes.
“É importantíssimo que o Boletim de Ocorrência seja registrado” — Dr. Pedro Telles, delegado da Polícia Civil de Ourinhos tem em seu currículo diversas ações contra receptadores de material roubado: “em 2019 nós fizemos, em parceria com a Polícia Militar e a Prefeitura de Ourinhos, uma grande operação para prender e coibir a ação de receptadores de material roubado (…) na ocasião os registros de ocorrências serviram como estopim para que as autoridades pudessem agir, foram diversas empresas de telefonia e iluminação pública que procuraram a polícia e deram informações que serviram para efetuar prisões e apreensões (…) é primordial que os proprietários de imóveis e os corretores façam os registros das ocorrências, é só assim que nós poderemos traçar um mapa dos locais de crime e, em conjunto, agir para levar à justiça os criminosos”, afirma.

Todo mundo divide a conta — Vale ressaltar que o impacto desses furtos vai além do prejuízo direto às vítimas e empresas afetadas. O furto de energia tem como consequência o aumento das tarifas para os demais consumidores, uma vez que o custo é repassado a todos. Este repasse é regulamentado pelos contratos de concessão das distribuidoras, com limites estipulados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Diante dessa situação, é importante que as vítimas de furto ajam prontamente para assegurar sua segurança e iniciar o processo de recuperação dos bens subtraídos. O primeiro passo é acionar imediatamente a polícia para registrar um boletim de ocorrência. Este é o caminho inicial para a colaboração na investigação e busca por justiça diante dos danos causados.
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