segunda, 9 de março de 2026

Vício em “joguinhos de aposta” provoca dívidas e destroi famílias em Ourinhos

Publicado em 01 jun 2024 - 10:03:29

           

Vítimas e especialistas falam sobre o problema que, com a popularização dos aplicativos de jogos de apostas por celular, vem se tornando um verdadeiro caos para algumas famílias e levando pessoas à falência

Por Alexandre Mansinho

No início do ano de 2023 um casal, ambos com 23 anos, moradores da cidade de Ourinhos, foi apresentado a um aplicativo de celular no estilo “Cassino OnLine”, os jovens riram muito sobre a possibilidade de, com poucos reais, conseguirem parte do dinheiro que precisavam para terminarem os preparativos para o casamento: “foi meu filho que apresentou para minha nora o tal do aplicativo”, diz Joana* (nome fictício), a mãe do noivo e que foi quem procurou o Negocião Digital para falar sobre aquilo que ela chama de “maldito problema que deve ser divulgado para todo mundo”.

Joana continua seu relato: “meu filho, ainda naquela primeira vez, falou para a noiva: “vamos jogar R$50 só pra ver como é, os meus amigos do serviço estão todos falando sobre isso”. O resultado foi que eles jogaram e, para espanto dos dois, ganharam R$500: “eles deram risada, combinaram de pegar esses R$450 de lucro e comer em um restaurante”, continua Joana, “meu filho até falou para que eles nunca mais jogassem, porque tiveram sorte e essa sorte nunca mais iria se repetir”. 

Joana disse que os dois riram muito e o assunto havia “morrido ali”, pelo menos isso era o que o noivo havia pensado: a noiva continuou jogando escondida, acreditando que com a “ajuda” daquelas apostas ela poderia juntar mais rápido o dinheiro que ela precisava para comprar as coisas para o casamento.

Aqui convém dar uma pausa no relato e explicar duas coisas: o noivo é ainda trabalhador de uma indústria de Ourinhos, e a noiva era vendedora de uma conhecida loja de departamentos na mesma cidade — os dois têm curso superior e estavam namorando já havia 3 anos. Até aquele momento nenhum dos dois havia se envolvido com qualquer espécie de ilegalidade ou tinha manifestado tendência para qualquer adicção (vício).

A história continua: “minha nora começou a jogar escondido e começou a perder dinheiro, ela começou a apostar o dinheiro que estava com ela que era destinado à entrada no apartamento no qual os dois iriam morar depois de casados, só nessa conta ela perdeu R$15 mil (…) ela já estava apostando o dinheiro da conta de luz, da conta de água e começou a usar o cartão de crédito também para sustentar esses jogos: chegou a hora que, cheia de dívidas, ela pediu as contas do serviço e jogos mais da metade do dinheiro do acerto (…) foi aí que a pressão ficou insustentável e ela resolveu contar para a família dela e para nós, a família do noivo”, completa Joana.

Algumas coisas ainda aconteceriam na vida do casal, mesmo depois da noiva ter assumido para todos que era viciada e ter pedido ajuda, o noivo, a princípio, se separou dela, orientado pelos amigos a procurar conversar com um participante do NA — Narcóticos Anônimos de Ourinhos, ele resolveu retomar o noivado, mas desmarcou a data do casamento e passou ele mesmo a cuidar de todos os preparativos que envolvem dinheiro. A noiva ainda está endividada e, agora, desempregada e tendo de lidar com tudo aquilo que aconteceu, ela frequenta o NA – Narcóticos Anônimos em outra cidade (diz que tem medo de vir no grupo de Ourinhos e ser reconhecida por alguém e seu problema se tornar público) além de lutar diariamente para não jogar mais.

A crise dos R$500 — Joana contou que, com a noiva frequentando o grupo de apoio e fazendo acompanhamento com um psicólogo, as coisas acalmaram um pouco. Mas houve recaídas: ela conta para o Negocião que um dia ela pegou do seu pai R$500 para parar duas contas de luz que estavam em atraso, passaram alguns dias, veio a equipe da CPFL efetuar o corte: ela havia jogado os R$500 reais e, com vergonha, não contou para ninguém: “foi uma nova briga, novas ameaças de separação por parte do meu filho (…) o noivado continua, estamos todos (as duas famílias) empenhados em ajudar, mas eu acho que nunca mais vai ser como era antes desse maldito jogo de apostas”, desabafa.

O que são esses “aplicativos de jogos” — Cada vez mais comuns no Brasil, os aplicativos de jogos online envolvendo dinheiro funcionam como cassinos (entidades proibidas no Brasil a mais de 50 anos), alguns têm roletas virtuais ou outras formas formas da animação para a obtenção do “número da sorte”, outros usam dos campeonatos de futebol para organizar os apostadores. Independente da forma a chance de que o jogador ganhe dinheiro é sempre inferior a 0,1%. Um estudo conduzido pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Instituto Datafolha revela que 14% da população brasileira, equivalente a 22 milhões de pessoas, já utilizam os aplicativos de apostas, conhecidos como bets, como Tigrinho e Blaze.

Esses aplicativos são promovidos por influenciadores e páginas na internet, muitas vezes com o auxílio de perfis falsos, os chamados bots, que inundam os comentários. Esses jogos de apostas têm ganhado popularidade na internet, principalmente entre a população de menor renda. Os dados da pesquisa indicam que 40% dos jogadores buscam “ganhar dinheiro rapidamente em momentos de necessidade”.

Para se ter uma noção da escala, enquanto 22% estão envolvidos em aplicativos de jogos de apostas, apenas 4% investem em fundos de investimento – uma modalidade mais segura para aplicação de dinheiro. No total, as empresas que gerenciam essas plataformas movimentam cerca de R$120 milhões por ano.

Alguns desses jogos são ilegais, mas quem quiser tem acesso livremente — Como já foi dito, cassinos físicos são proibidos no Brasil há décadas, mas as empresas que estão explorando essa prática operam online no país com sedes no exterior, o que limita muito a ação da Polícia Federal. Os aplicativos que usam dos resultados de eventos esportivos, que são conhecidos como “bets” estão buscando regulamentação no Brasil e funcionam por meio de medida provisória.

De qualquer forma, os brasileiros têm grande facilidade de acesso às apostas, seja esportivas ou de cassino, o que permite até mesmo que menores de idade joguem, apesar de isso ser proibido em ambos os casos. Há muitos casos de jovens entre 14 e 20 anos com comportamentos compulsivos relacionados a esses aplicativos.

NA – NARCÓTICOS ANÔNIMOS DE OURINHOS — Entre os grupos de apoio existe o NA, Narcóticos Anônimos, organizado na filosofia do AA – Alcoólicos Anônimos, nesse grupo pessoas com histórico de adicção (vício) se reúnem e compartilham seus problemas.

O noivo da história que foi contada no início dessa matéria obteve as primeiras informações acerca do vício da noiva por um membro desse grupo: grupo Bom Viver de Narcóticos Anônimos, rua Dom José Marelo, 741 Vila Perino com reuniões acontecendo todas às 4ªs feiras às 20h e sábados às 19h (todo último sábado do mês é reunião aberta ao público).

Conversando com um membro do grupo, de forma extra oficial e sigilosa, o jornalismo do Jornal Negocião foi informado que, mesmo antes da popularização dos “joguinhos online”, o vício em jogos já era comum e atinge milhares de pessoas no Brasil. Esse vício é carregado de preconceitos e, com as facilidades do mundo Online, tornou-se ainda mais tóxico.

Bate papo com o especialista — Dr. Luiz Bosco S. Machado Júnior, psicólogo especialista em adicção (vícios), conversou com o Negocião Digital e esclareceu diversos pontos relacionados ao processo de tratamento do adicto (viciado) e do acolhimento que deve ocorrer, principalmente para os familiares e pessoas próximas.

Segundo Dr. Bosco, o vício em jogos pode ter causas genéticas (hereditárias) e está associado a outros transtornos mentais, como bipolaridade e ansiedade: “o adicto pode ser levado a buscar no jogo uma forma de escape e relaxamento para os estresses da vida, visto que o resultado é imediato, o que potencializa o prazer e o problema da compulsão”. Ainda segundo o Dr. Bosco: “o vício em jogos é um problema sério que pode prejudicar relacionamentos e a saúde mental (…) a família deve acolher o adicto e procurar ajuda logo que identificar os sinais o que a pessoa venha pedir socorro (…) buscar ajuda especializada, profissionais de saúde mental e grupos de apoio são passos importantes para superar essa condição (…) julgamentos, “apontar o dedo”, brigar e ser rude não serve em nada para ajudar a pessoa com problema (…) mais uma vez é importante dizer que a compreensão e o apoio da família e amigos também desempenham um papel crucial no processo de recuperação da pessoa em sofrimento”.

Não há níveis seguros para o jogo — ainda no bate-papo com o Dr. Bosco, ele revelou à equipe do Negocião Digital que, pessoalmente, acha um absurdo não haver nenhuma (ou pouquíssimas) regulamentação para esses aplicativos de jogos: “não há níveis seguros para que as pessoas tenham acesso a esses jogos, crianças e pessoas com comprometimento cognitivo são alvos fáceis para essas empresas (…) os viciados estão sendo sempre estimulados, em qualquer lugar que estejam, seja em sites e até em redes sociais, como profissional de saúde mental e como cidadão acho isso vergonhoso”, completa.

O que dizer dos jogos “oficiais” — os jogos de azar só podem, no Brasil, serem operados pela Caixa Econômica Federal ou, com autorização governamental, por instituições financeiras que sempre estão atreladas a instituições beneficentes (hospitais, casas de recuperação, clínicas ou associações). No entanto, o valor apostado é relativamente muito pequeno, dificilmente alguém irá se endividar para jogar na Lotofácil, só para dar um exemplo. Outro fator que ajuda a controlar os jogadores compulsivos é que não há a “adrenalina” do resultado sair na mesma hora, geralmente os sorteios têm dia e hora marcados e há um prazo grande entre as extrações, além do fato de ficar muito clara que a chance de ganhar é absurdamente pequena.

Propagandistas de luxo — As empresas estrangeiras que exploram esses jogos de azar utilizam influenciadores brasileiros para poder dar credibilidade a suas plataformas.

O uso de influenciadores digitais para promover jogos de azar de empresas estrangeiras tem sido alvo de investigações policiais no Brasil. Em diferentes regiões do país, influenciadores estão sendo investigados por promoverem atividades ilegais, contribuindo para a credibilidade de plataformas de cassino online, uma prática proibida por lei.

A cidade de Indaiatuba, na região de Campinas (SP), tornou-se o epicentro de uma operação policial destinada a desmantelar um esquema ilegal de jogos de azar e lavagem de dinheiro. O casal de influenciadores digitais, Ismael Belchior e Jade Belchior, estão no centro das investigações por supostamente promoverem o “jogo do tigrinho”. O casal, que usufrui de um estilo de vida luxuoso, incluindo viagens internacionais e carros importados, acumulou uma fortuna estimada em R$14 milhões, de acordo com as autoridades. A operação, denominada “Operação Infortúnio”, executou cinco mandados de busca e apreensão na manhã de terça-feira (23), com a suspensão das redes sociais dos investigados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

No interior de São Paulo, em Avaré, um influenciador digital de 24 anos está sob investigação por sua participação em sorteios ilegais através do Instagram. O influenciador, cuja identidade não foi revelada, ofereceu dinheiro e celulares como prêmios aos seus seguidores, em uma prática proibida que levou à sua prisão temporária. A polícia descobriu em sua residência um veículo de luxo avaliado em R$180 mil, motocicletas e uma quantia significativa em dinheiro, juntamente com celulares de alto padrão.

O Grupo de Atuação e Repressão contra o Crime Organizado (Gaeco) revelou uma rede de influenciadores digitais na região de Sorocaba (SP) envolvidos em um esquema ilegal de promoção de jogos de azar. Estes influenciadores, contratados por uma organização criminosa, exibiam uma vida luxuosa nas redes sociais para atrair seguidores e promover plataformas de cassinos online. A Operação Presa Fácil resultou na apreensão de uma grande quantidade de bens, incluindo uma Porsche avaliada em mais de R$ 750 mil, joias e armas de fogo, com o grupo agora sob investigação por lavagem de dinheiro e exploração de jogos de azar.

Na Região Metropolitana de Curitiba, influenciadores também estão sob escrutínio policial por promoverem o “Jogo do Tigrinho”. Dois influenciadores foram presos em uma operação policial, enquanto outro, alvo da mesma investigação, está fora do país. O grupo é acusado de disponibilizar links para sites de apostas em uma plataforma conhecida como “Jogo do Tigrinho”, proibida no Brasil.

Imagens: Reprodução/ Redes Sociais/Google.

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