sexta, 20 de março de 2026

Força-tarefa une pesquisadores e IA para ampliar chances de desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos

Publicado em 20 mar 2026 - 09:36:58

           

Registradas em várias partes do Brasil, estratégias incluem Ourinhos e podem ampliar janela de oportunidades para auxiliar desenvolvimento cognitivo na primeira infância

 

Juliana Neves

 

Uma força-tarefa no Brasil tem unido pesquisadores de várias partes do país e a tecnologia de inteligência artificial generativa para ampliar as chances de desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos.

 

Esta faixa etária, chamada de primeira infância, é considerada por especialistas das áreas de saúde e educação como fundamental para determinar o sucesso do desenvolvimento humano em outras fases da vida, sobretudo a vida adulta.

 

A iniciativa une pesquisadores dos setores público e privado de várias cidades brasileiras, como as paulistas Ourinhos e Barueri e a capital do Rio de Janeiro. O financiamento vem de órgãos de fomento nacionais e internacionais.

 

O psicólogo Luis Anunciação, professor e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO) integra esse seleto grupo de pesquisadores brasileiros, focados em propiciar melhores condições de vida a milhares de pessoas.

 

“O desenvolvimento infantil nos primeiros anos de vida tem grande influência sobre a evolução cognitiva, social e emocional ao longo da vida”, justifica Anunciação.

 

O psicólogo coordena a pesquisa “O Entrelaçamento de Novas Tecnologias para Promover o Desenvolvimento Infantil: Inteligência Artificial e Métodos de Aprendizado de Máquina em Psicologia”.

 

O estudo une métodos computacionais e técnicas de inteligência artificial para melhorar o rastreio do desenvolvimento infantil, especialmente na fase da primeira infância. E é realizado em parceria com a Universidade de Oregon, nos Estados Unidos. (Leia mais abaixo).

 

Além da PUC-RIO, essa força-tarefa conta com pesquisadores da Faculdade de Tecnologia (FATEC) de Ourinhos, liderada pelo professor pesquisador Miguel José das Neves, do curso de Ciência de Dados e coordenador do projeto “FATEC Cidadã”.

 

O foco da pesquisa, realizada em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde, pretende auxiliar nos diagnósticos de neurodivergências na primeira infância realizados na rede pública municipal de saúde de Ourinhos.

 

A partir da análise de prontuários, a expectativa é que o estudo identifique parâmetros de neurodivergências, como Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo. A iniciativa pode contribuir com diagnósticos e acelerar o encaminhamento de pacientes infantis aos serviços de saúde, incluindo os especializados.

 

O impacto também envolve estudantes do ensino superior e o erário público. “Além da melhora do atendimento dessas crianças, haverá o desenvolvimento de práticas reais aos alunos e maior eficácia do uso de recursos públicos em demandas da população em geral”, explica o professor Neves.

 

A pesquisa ourinhense, que alia inteligência humana e artificial, é aguardada com expectativa pelos profissionais de saúde que atuam diretamente com crianças da primeira infância a adolescentes de 11 anos.

 

Este é o caso da enfermeira Ellen Adriana Kiliam Silva dos Anjos, profissional atuante no ambulatório infantil municipal para pacientes neurdivergentes mantido com verbas do Sistema Único de Saúde (SUS).

 

“Creio que a pesquisa com inteligência artificial vai facilitar o dia a dia de atendimento dessas crianças, contribuindo no processo de avaliação, produção de relatório e planejamento de intervenção, garantindo os direitos delas e favorecendo sua relação cotidiana com a sociedade. Nossa expectativa é otimizar os atendimentos, reduzir os erros e aumentar as chances de sucesso nos tratamentos”, afirma Ellen.

 

A enfermeira Ellen Adriana Kiliam Silva dos Anjos explica à responsável o tratamento e o plano de intervenção para melhora de qualidade de vida da criança. Foto Arquivo Pessoal

 

Tamanha expectativa e esforço conjunto de cientistas e tecnologias se explicam pelas características da primeira infância, compreendida entre o dia do nascimento da criança até os 6 anos de idade da criança.

 

Essa fase é caracterizada por intensas transformações cognitivas, emocionais, sociais e neurobiológicas. E, por essa razão, compreendida por especialistas como uma etapa fundamental para a organização das bases do desenvolvimento humano e, portanto, determinante para o futuro de muitos cidadãos.

 

No caso da neurodivergência, essa expectativa se amplia ainda mais. Isto porque o diagnóstico e as intervenções ainda na primeira infância favorecem a atuação urgente sobre a plasticidade neurológica, descrita como um rápido desenvolvimento das conexões neurais e das bases das funções executivas do ser humano.

 

Ou seja: por apresentar cérebro extremamente maleável, crianças da primeira infância têm potencial de melhor desenvolvimento se submetidas a intervenções de saúde e educação, impacto que não se replica em fases posteriores.

 

A primeira infância é considerada uma janela de oportunidade para intervenções precoces na saúde e promoção de melhor desenvolvimento infantil. Foto: Imagem produzida com IA

 

“Quando identificamos precocemente um transtorno do espectro autista, por exemplo, podemos iniciar intervenções em comportamento, comunicação e integração sensorial em um momento em que os circuitos ainda estão sendo construídos e podem ser direcionados”, explica Ellen Balielo Manfrim, neuropediatra.

 

Além disso, segundo a profissional, quando os familiares recebem o diagnóstico de seus filhos durante a primeira infância, a compreensão é facilitada, reduzindo-se a chance de eles considerarem seus filhos birrentos, preguiçosos ou sem limites, estigmas que podem limitar as chances de desenvolvimento da criança.

 

IAs podem somar ao trabalho de diagnóstico, relatório e intervenção de crianças neurodivergentes de 0 a 6 anos; atenção e acolhimento são fundamentais. Foto Arquivo Pessoal

 

Outro ponto positivo se dá nas políticas públicas. “O diagnóstico precoce reduz custos: intervenções na primeira infância têm retorno social comprovado muito superior às intervenções tardias, sejam elas em saúde, educação ou assistência social”, complementa a neuropediatra.

 

Em razão de tais impactos, as iniciativas de estudos e pesquisas de brasileiros têm sido avaliadas como excepcionalmente importantes no campo da neuropediatria e da neuropsicologia infantil, mesmo que possam existir desafios estruturais e metodológicos.

“Estas pesquisas ajudam a compreender melhor o perfil cognitivo das populações brasileiras, considerando fatores socioculturais e educacionais que influenciam o desempenho neuropsicológico”, argumenta Gabriela Corrêa Marques, neuropsicóloga e psicopedagoga e que atua com pacientes infantis.

 

Pensando nesses fatores, pesquisadores do Portal Telemedicina estão em fase de consolidação e escala da pesquisa sobre o impacto do uso de plataforma própria, uma inteligência artificial, para aumentar a cobertura vacinal infantil da primeira infância.

 

A escolha do tema deve-se ao fato que a vacinação infantil completa previne doenças graves, reduz a mortalidade, garante desenvolvimento saudável da criança, proporciona imunidade coletiva, melhora a educação e a socialização e traz economia de recursos.

 

O piloto foi implementado em Tarumã – SP por meio do SUS, com dados de prontuário eletrônico e novos fluxos de trabalho em atenção primária. E tem apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF – Venture Fund).

 

A empresa brasileira foi uma das nove do mundo escolhidas pelo órgão da ONU para desenvolver uma solução de inteligência artificial de contribuição de melhoria com o índice de desenvolvimento infantil e acesso à saúde.

 

“O impacto que buscamos é duplo. Em saúde, esperamos manter ou recuperar altas coberturas vacinais, especialmente na faixa etária da primeira infância. Queremos mostrar que é possível organizar o trabalho das equipes com base em dados, evitando custos decorrentes de falhas na imunização”, comenta Josué Silveira, engenheiro de software desenvolvedor da pesquisa.

 

As pesquisas desenvolvidas pelos cientistas brasileiros constroem uma perspectiva de futuro melhor para as crianças do país. E atendem marcos jurídicos importantes em relação à primeira infância, definida por especialistas como uma janela de oportunidades para aquisição de saúde física, mental e emocional.

 

“É na primeira infância que o ser humano se desenvolve mais, e mais rápido. Nesse período, formam-se as bases do desenvolvimento cognitivo, físico e socioemocional. Até os 6 anos, o cérebro realiza 1 milhão de sinapses por segundo e 90% das conexões cerebrais são estabelecidas”, explica o site da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, dedicada a essa fase da vida infantil.

 

É com base em dados como esse que o artigo 227 da Constituição Federal, regulamentado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, sustenta que a criança tem o direito de receber prioridade, condições de desenvolvimento pleno e proteção integral da família, do Estado e da sociedade.

 

Outro referencial importante é o Marco Legal da Primeira Infância. Instituído em 2016, reconhece legalmente da necessidade de políticas públicas para promover o desenvolvimento integral da criança. Esse dever é garantido pela Política Nacional Integrada da Primeira Infância, de agosto de 2025.

 

 

Primeira infância é janela de oportunidades

 

A primeira infância é o período inicial da vida de um ser humano e vai do primeiro dia de vida até os 6 anos de idade.

 

Esse período é marcado por grande desenvolvimento. Exemplo disso é o cérebro: ao nascer, representa 25% do volume do cérebro adulto. Já aos cinco anos, a porcentagem sobe para 90%. Essa impressionante velocidade de crescimento não irá se repetir em outras fases da criança, adolescência ou vida adulta.

 

O fenômeno tem o nome de sinaptogênese: fase em que o cérebro forma conexões neuronais em ritmo acelerado, vertiginoso, muito mais do que será capaz de manter. Ao mesmo tempo, há o processo de poda sináptica, situação em que as conexões pouco utilizadas são eliminadas e as mais ativas são consolidadas.

 

Os ambientes, vínculos afetivos e experiência são determinantes para definir quais circuitos sobreviverão. Segundo a neuropediatra Ellen Balielo Manfrim, existem três eixos que se desenvolvem de modo interdependente na fase da primeira infância.

 

“O primeiro é o neurobiológico: a mielinização avança em ondas, partindo do tronco encefálico para as áreas límbicas e, por último, para o córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas. O segundo é o da linguagem e cognição: dos primeiros balbucios ao redor dos 6 meses até a explosão vocabular entre os 18 e os 24 meses, passando pela aquisição das frases e da teoria da mente. O terceiro eixo é o socioemocional: o vínculo de apego estrutura o eixo de resposta ao estresse e constrói, literalmente em termos bioquímicos, a arquitetura da resiliência”, elucida Ellen.

 

Essa é a razão pelo que a primeira infância pode ser descrita sob diversas perspectivas. “Desenvolvimento cognitivo, sociocultural e linguagem, emocional e vínculo, psicossocial, concepção neuropsicológica e cerebral e as funções executivas”, explica a neuropsicóloga e psicopedagoga Gabriela Corrêa Marques.

 

Tamanho desenvolvimento permite que a criança seja capaz de evoluir do pensamento sensório-motor para o início do pensamento simbólico. Isso permite a ela explorar ativamente os ambientes, ser curiosa e iniciar resoluções simples de problemas. Além de ampliar o vocabulário, formar frases mais completas, compreender instruções simples, se expressar e aprimorar a fala interna.

 

Mas há outros pontos de desenvolvimento esperados de uma criança na primeira infância. A psicopedagoga cita a capacidade de esperar, conseguir seguir regras simples, melhorar a atenção sustentada, sensação de segurança emocional, confiança nos cuidadores, regulação das emoções e brincar com outras crianças.

 

“Além de apresentar maior autonomia em atividades cotidianas, ter senso inicial de competência, melhorar a coordenação motora e o desenvolvimento da coordenação motora fina, integrar informações sensoriais e ter maior controle corporal”, enumera Gabriela.

 

Os locais, as relações efetivas e conhecimentos de mundo são fatores determinantes para a construção neurológico na primeira infância.Foto: Imagem produzida com IA

 

Neurodivergências podem ir além do indicando em censo

 

No Brasil, 18.117.158 crianças encontram-se na primeira infância, segundo estatísticas da iniciativa “Primeira Infância em Dados”, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. De acordo com o estudo, de 2022, essa faixa etária representaria 8,92% da população brasileira.

 

Em meio a essas pessoas, há as crianças neurodivergentes. A estimativa é que haja 2,4 milhões de brasileiros com diagnóstico de autismo (TEA), ou 1,2% da população, segundo a última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

 

Os dados, extraídos do Censo 2022, divulgado em 2025, indicam que a maior prevalência de neurodivergência está entre as crianças de cinco a nove anos (2,6%) e de zero a quatro anos (2,1%).

 

Os dados são reveladores porque a primeira infância para uma criança neurodivergente é vivida com intensidade particular, e, quase sempre, incompreendida pelos adultos presentes em sua vida, já que as chamadas “limitações” nada mais são do que as diferenças do modo como o sistema nervoso processa o mundo.

 

“As principais dificuldades que observamos nesta fase incluem: atrasos ou atipias na aquisição da linguagem, dificuldades na regulação emocional e no processamento sensorial, rigidez em rotinas e transições, desafios na interação social e na leitura de pistas não verbais, e atrasos motores que podem impactar desde a fala até a escrita. A neurodivergência é uma variação, não uma deficiência absoluta”, conclui a neuropediatra Ellen Balielo Manfrim.

 

E essa variação pode ir além do indicado no Censo 2022 do IBGE. Segundo Nancy Doyle, pesquisadora e psicóloga organizacional fundadora da Genius Within CIC, empresa especializada em apoio à neurodiversidade do trabalho no Reino Unido, 15% a 20% da população apresentaria algum tipo de neurodivergência.

 

Se a pesquisa britânica fosse aplicada à realidade brasileira, isto significaria que, possivelmente, no Brasil, haveria índice muito superior de brasileiros neurodivergentes, além do indicado no censo. Ou seja, uma quantidade significativa de pessoas sem diagnóstico e, por consequência, impossibilitadas de ter acesso a serviços de saúde e educação especializados.

 

A realidade social brasileira mostra que a força-tarefa dos pesquisadores em buscar soluções tecnológicas, criativas e inovadores para identificar neurodivergência na primeira infância é uma oportunidade de aperfeiçoar o desenvolvimento humano infantil precocemente, criando melhores oportunidades a esses pequenos brasileiros.

 

 

 

Pesquisa da FATEC Ourinhos pretende ampliar acesso de crianças atípicas à saúde

 

O estudo da Faculdade de Tecnologia (FATEC) de Ourinhos – SP, liderado pelo professor pesquisador Miguel José das Neves e a Secretaria Municipal de Saúde de Ourinhos, teve início em fevereiro deste ano.

 

Para Carla Cristina de Oliveira Andrade, assessora especial de atenção primária à saúde de Ourinhos, a parceria entre as instituições pode favorecer a criação de um padrão de atendimento à população neurodivergente.

 

Atualmente, segundo Carla, o processo é manual, executado por equipe multidisciplinar de saúde e com envolvimento de diversos setores da Prefeitura, como Educação, Assistência social e serviços especializados.

 

Por meio do apoio do programa a ser desenvolvido pelos pesquisadores da FATEC com uso de inteligência artificial, a expectativa é reduzir as divergências e subjetividades das informações indicadas nos prontuários das crianças atendidas. Isto, avalia, pode favorecer a identificação de padrões de neurodivergências e acelerar os encaminhamentos e atendimentos.

 

“A inteligência artificial é algo que ainda não temos e virá para qualificar e unificar todo o processo de atendimento às crianças neurodivergentes. E, principalmente, as que ainda vão chegar até nós com suspeita de ter uma neurodivergência”, comenta Carla.

 

Para o pesquisador Neves, a parceria tem como objetivo contribuir com a sociedade de forma geral. “Esse braço do projeto principal auxiliará uma área muito importante da saúde, que pode vir a beneficiar muitas famílias que sofrem, às vezes, simplesmente, por falta de diagnóstico em tempo ou completo”, afirma Neves.

 

Fonte: FATEC Cidadã – FATEC Ourinhos

 

No momento, a pesquisa encontra-se na fase de planejamento dos estudantes envolvidos, definição de funções, identificação de tarefas do projeto e execução dos primeiros levantamentos de dados.

 

Os dados que alimentarão a inteligência artificial virão dos prontuários das crianças e contatos com familiares assistidos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e no ambulatório da Prefeitura de Ourinhos.

 

O perfil do público infantil em tratamento no SUS é diverso. “A identidade é flutuante. Temos pacientes de muita vulnerabilidade e crianças que estão no particular e a família não consegue mais pagar pelo tratamento. Não seguimos uma linha de mercado, ofertamos um tratamento multidisciplinar e personalizada para cada criança. A inteligência artificial vem para entendermos melhor estes tratamentos e qualificar o atendimento público”, celebra a assessora especial de atenção primária à saúde.

 

Diante deste cenário, a pesquisa proporciona benefícios diretos e indiretos, segundo o professor coordenador da pesquisa. “A inteligência artificial vai permitir um diagnóstico melhorado e mais rápido, com a possibilidade de ter uma documentação mais eficiente diante da realidade atual. Além das crianças receberem um atendimento de qualidade, os alunos da FATEC envolvidos recebem mais conhecimento pela prática e a sociedade ganha em eficácia do uso de recursos públicos”, sintetiza Neves.

 

Outro benefício do sistema tecnológico para a realidade de saúde pública do município de Ourinhos será a maior integração entre os setores do órgão público e da equipe multidisciplinar de atendimento às crianças.

 

A expectativa futura é a melhoria na qualidade de vida e a ampliação de chances de a criança viver com dignidade em sociedade, um direito constitucional e previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

 

“Porque se eu não consigo, por exemplo, todo tipo de atendimento que a criança precisa, eu não estou fazendo um atendimento integral e deixo de garantir um direito. Esperamos que o estudo possa mudar essa realidade”, afirma a enfermeira Ellen Adriana Kiliam Silva dos Anjos.

 

 

Estudo da PUC-Rio visa à detecção precoce de atrasos de desenvolvimento infantil

 

Ampliar a capacidade de detecção precoce de possíveis dificuldades do desenvolvimento infantil é o objetivo do  estudo “O Entrelaçamento de Novas Tecnologias para Promover o Desenvolvimento Infantil: Inteligência Artificial e Métodos de Aprendizado de Máquina em Psicologia”, liderado pelo psicólogo Luis Anunciação.

 

Entre essas dificuldades estão atrasos no desenvolvimento social, emocional e cognitivo das crianças da primeira infância. “Muitos casos de atraso ou risco de atraso são identificados tardiamente, inviabilizando chances de intervenção e melhora de resultados de evolução ao longo da vida dessas crianças. A pesquisa surgiu da necessidade de desenvolver ferramentas mais acessíveis e eficientes que auxiliem na identificação precoce destes sinais”, comenta o psicólogo.

 

Atualmente, o estudo está na fase de desenvolvimento e validação dos modelos computacionais. Já com alguns artigos publicados sobre a temática, parte dos instrumentos foi aplicada em amostras de pais e cuidadores e os dados estão servindo para aperfeiçoamento do algoritmo.

“Entre os benefícios diretos está a possibilidade de identificar precocemente crianças com risco de atraso no desenvolvimento, permitindo encaminhamento mais rápido para avaliação especializada ou intervenções apropriadas. Indiretamente, a pesquisa contribui para a promoção de ferramentas digitais de apoio a profissionais de saúde e educação, além de gerar conhecimento científico sobre a progressão infantil e métodos de avaliação baseados em dados”, explica Luis.

 

A perspectiva é que os resultados possam ser incorporados em ferramentas digitais de triagem e monitoramento do desenvolvimento infantil. “Uma inteligência artificial para ser usada por profissionais da saúde, pesquisadores e pelas famílias como apoio e acompanhamento da vida de suas crianças”, sintetiza o pesquisador.

 

Pesquisas com inteligência artificial contribuir com intervenções no desenvolvimento infantil: esperança de melhores condições de vida e busca por direitos. Foto: Imagem produzida com IA

 

Pesquisa do Portal Telemedicina usa IA para ampliar cobertura vacinal infantil de Tarumã

 

A cidade de Tarumã – SP ampliou a cobertura vacinal de crianças de 0 a 6 anos com a ajuda da inteligência artificial. A iniciativa é coordenada por pesquisadores da empresa Portal Telemedicina com o apoio da UNICEF Venture Fund.

 

A empresa, criada em Baurueri – SP em 2013, utiliza de plataforma de inteligência artificial para telediagnóstico, teleconsulta e gestão de saúde populacional, e conta com apoio de parceiros para que suas soluções tecnológicas gerem impacto mundial.

 

No caso de Tarumã, o impacto esperado se deu a partir da implementação do módulo de vacinação e de análise de resultados em crianças de 0 a 15 anos, com atenção especial ao público da primeira infância.

“A cidade de Tarumã já tem uma trajetória conosco de uso de telemedicina e inteligência artificial, então fazia sentido escolher o município como laboratório vivo para provar que a mesma lógica pode ser aplicada à primeira infância e à imunização”, explica Josué Silveira, engenheiro de software desenvolvedor da pesquisa.

A escolha da cidade paulista de 14.882 habitantes, segundo o último censo do IBGE, se deveu aos dados preocupantes da cobertura vacinal, abaixo da meta de 95%. “Era uma realidade que pedia soluções para sair do discurso e que fossem testadas em campo”, complementa Silveira.

Para tanto, o objetivo central da pesquisa é qualificar o uso de dados, reduzir sub-registro, consolidar históricos vacinais e mostrar, com números, a possibilidade de apoiar políticas públicas com tecnologia focada em gestão populacional.

 

O estudo nasceu do aproveitamento de experiência prévia da empresa com grandes volumes de dados clínicos com adaptação para o contexto de saúde em massa.

 

“Desenvolvemos um código determinístico, com regras definidas que ranqueia crianças de acordo com a criticidade, levando em consideração a idade, vacinas atrasadas e a relevância destas vacinas para os primeiros anos de vida. E criamos um mapa georreferenciado para mostrar quais crianças estão em atraso e uma espécie de ‘caderneta de vacinação digital’, documento que resume, rapidamente, o que falta, o que já foi feito e o que precisa ser atualizado no sistema”, sintetiza o pesquisador.

 

Simulação de sistema de acompanhamento da cobertura vacinal realizada na cidade de Tarumã – SP. Foto: Imagem produzida com IA – Portal Telemedicina

 

Atualmente, a pesquisa está em fase de consolidação e escala, porque o piloto já foi realizado no município. Agora, os resultados do aprendizado do caso em Tarumã estão sendo usados para levar a mesma abordagem para outras cidades.

 

Para Silveira, é uma pesquisa que gerou benefícios diretos para a saúde e desenvolvimento infantil e indiretos para uma melhor gestão da Secretaria Municipal de Saúde de Tarumã.

 

“O maior benefício foi tirar as crianças do status de ‘vacinação atrasada’ e levá-las para o grupo de cobertura adequada em um período curto. Além da melhora da qualidade dos dados e a capacidade de gestão: os cadastros ficaram mais limpos, os históricos mais completos e a secretaria ganhou uma visão estratégica do território, o que abre caminho para decisões melhores e uso mais eficiente dos recursos”, finaliza o engenheiro de software.

 

A perspectiva é aplicar essa solução como um componente de infraestrutura nacional de saúde voltada à primeira infância. Pois, como explica o pesquisador, é uma inteligência artificial que se integra aos sistemas já utilizadas no município, facilitando a gestão vacinal e monitoramento de indicadores de programas nacionais de saúde em diferentes contextos do Brasil.

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