quarta, 10 de junho de 2026

O RENASCIMENTO DOS TRILHOS: Como a nova concessão da Malha Sul pode mudar o futuro econômico da nossa região

Publicado em 10 jun 2026 - 09:38:28

           

A retomada deste trecho não é um fato isolado ou um mero “golpe de sorte” regional

David Vico

 

Janeiro de 2024 ficou marcado como um dos capítulos mais tristes da história recente da nossa região. Às 08h40 daquela manhã de segunda-feira, o último apito do trem ecoou por Ourinhos.

Sob o argumento corporativo de “ausência de demanda comercial”, a concessionária Rumo Logística interrompeu as operações no Ramal São Paulo-Paraná, sepultando temporariamente quase um século de tradição ferroviária.

O impacto foi imediato e doloroso. Famílias de ferroviários foram desestruturadas entre demissões e transferências forçadas, enquanto lideranças políticas e o setor empresarial local — como a Associação Comercial e Empresarial — digeriam o prejuízo óbvio: estradas sobrecarregadas, fretes rodoviários mais caros e a perda drástica na arrecadação de impostos regionais.

Conforme podemos acompanhar em matéria na edição do dia 08/06 do jornal EN DIA & NEGOCIÃO de Ourinhos – Agora, o cenário mudou drasticamente. A aprovação da Audiência Pública pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) para a nova concessão da Malha Sul sinaliza que o erro estratégico do passado está prestes a ser corrigido. E o mérito direto dessa reviravolta precisa ser dado a quem de direito: o Governo Federal.

 

 

PARTE DE UM PLANO NACIONAL: O FIM DO ABANDONO – A retomada deste trecho não é um fato isolado ou um mero “golpe de sorte” regional. Ela é fruto direto de um robusto estudo técnico encomendado pelo Governo Federal à estatal Infra S. A. em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Esse levantamento realizou um verdadeiro “raio-X” da infraestrutura nacional, mapeando quase 10 mil quilômetros de linhas férreas abandonadas ou subutilizadas pela iniciativa privada nas últimas décadas.

O diagnóstico apontou que mais de 7,4 mil quilômetros de trilhos pelo Brasil têm total viabilidade de voltar a funcionar, desde que recebam o desenho econômico correto promovido pelo Estado.

O trecho que conecta Ourinhos (SP) a Cianorte (PR) foi classificado como uma das prioridades nesse plano de metas. Portanto, o que estamos prestes a testemunhar na nossa região é o reflexo de uma política federal macroeconômica que pretende reativar, de forma idêntica, outras malhas esquecidas no Nordeste, no Centro-Oeste e no restante do Sul do país.

 

A FORÇA DO PLANEJAMENTO FEDERAL SOBRE A LÓGICA PRIVADA – O fechamento do ramal em 2024 deixou claro que, para o setor privado, o lucro imediato fala mais alto que o desenvolvimento regional.

O Sindicato dos Ferroviários chegou a denunciar, na época, um aumento abusivo de 65% nos fretes para “forçar” uma falsa falta de demanda.

Para quebrar essa lógica, o Governo Federal desenhou um modelo inovador de Investimento Cruzado para a nova licitação da Malha Sul. Funciona assim: o Corredor Paraná-Santa Catarina, onde Ourinhos e as cidades vizinhas estão inseridos, é a grande joia do sistema, concentrando 78% de toda a carga (grãos, açúcar e celulose).

O dinheiro arrecadado nesse trecho altamente rentável será obrigatoriamente usado para subsidiar e reconstruir as malhas menos lucrativas ou afetadas por crises climáticas. Quem quiser o “filé” da concessão, terá que carregar o compromisso de reativar e manter o restante rodando.

 

O IMPACTO NA PRÁTICA: QUEM GANHA NA NOSSA REGIÃO? – A reativação desse eixo cria uma onda de prosperidade que vai lavar toda a nossa microrregião, reabrindo portas que pareciam trancadas e trazendo uma oportunidade ímpar para o desenvolvimento e progresso imediato das cidades relacionadas:

 

– Ourinhos: Consolida-se novamente como o grande entroncamento multimodal, atraindo novas empresas de logística, centros de distribuição e gerando empregos diretos na manutenção e operação da linha férrea.

 

– Bernardino de Campos: Historicamente ligada aos trilhos da antiga Estrada de Ferro Sorocabana, a cidade volta a se posicionar estrategicamente na rota do desenvolvimento regional. O resgate da malha reduz o isolamento logístico, valoriza as terras produtivas do município e abre portas para atrair pequenas indústrias, além de empresas de suporte técnico e manutenção que darão apoio à operação ferroviária.

 

– Canitar e Ipaussu: Cidades vizinhas colhem os frutos imediatos com a geração de postos de trabalho locais e o aquecimento do comércio de autopeças, serviços e hotelaria para atender o fluxo técnico da ferrovia.

 

– Santa Cruz do Rio Pardo: Um dos maiores polos industriais e de alimentos da região, Santa Cruz ganha uma alternativa de transporte muito mais barata e competitiva para escoar seus produtos e receber matéria-prima.

 

– Piraju e Manduri: O agronegócio e a produção de café e grãos dessas cidades ganham acesso direto e barato aos portos de Paranaguá (PR) e São Francisco do Sul (SC). Menos custo com caminhão significa mais lucro para o produtor local.

 

ECONOMIA REAL NÃO TEM IDEOLOGIA – Existe um detalhe político fascinante nessa engrenagem. Nossa região é de matriz conservadora, majoritariamente bolsonarista e, por vezes, cética em relação ao papel do Estado na economia.

No entanto, a ironia da realidade bate à porta: é justamente através do braço forte do Governo Federal — por meio do Plano Nacional de Ferrovias e do Novo PAC — que o resgate desse patrimônio regional está acontecendo.

A reativação dos trilhos prova que a infraestrutura de um país deve estar acima de disputas partidárias. Quando o trem voltar a apitar na nossa região, ele não trará consigo uma bandeira ideológica, mas sim vagões cheios de emprego, competitividade e o orgulho recuperado de um povo que aprendeu a crescer sobre os trilhos.

Cabe agora à sociedade e às lideranças locais participarem das audiências públicas para garantir que esse projeto saia do papel com a força que a nossa região merece.

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