quarta, 24 de junho de 2026
Publicado em 24 jun 2026 - 10:53:14
Minhas primeiras lembranças futebolísticas são vagas, mas intensas
Por David Vico Machado
A Copa do Mundo é muito mais do que um evento bilionário que movimenta a economia global ou dita o ritmo do calendário esportivo. Para quem já cruzou a barreira dos quarenta anos, ela é, antes de tudo, uma máquina de fabricar saudade.
Mais do que isso: olhando para trás, percebo que a competição tem um papel fundamental na formação cultural, social e afetiva de uma criança.
Minhas primeiras lembranças futebolísticas são vagas, mas intensas. Volto a 1982, na Copa da Espanha. Eu tinha apenas 5 anos de idade.
Em casa, na Vila do Sapo — bairro humilde de Itapevi, na Grande São Paulo —, não tínhamos aparelho de televisão. Nessas horas, a solidariedade periférica entrava em campo e o vizinho fazia a vez de cinema comunitário.
Não me recordo da tática dos jogos, mas os nomes de Zico, Sócrates e Serginho Chulapa ficaram gravados na mente. E, claro, o italiano Paulo Rossi, o algoz que, com três gols, fez a vizinhança inteira chorar.
A Copa de 82 se resumiu a isso: a transição abrupta da euforia das ruas pintadas e das bandeirolas verde-amarelas trançadas entre os telhados para uma tristeza profunda, coletiva e inesquecível.

CHICLETES, FIGURINHAS E GEOPOLÍTICA NA CALÇADA – Quatro anos depois, em 1986, a Copa do México me pegou mais maduro, aos 9 anos, embora o cenário doméstico ainda fosse sem TV. A grande febre daquela edição não estava na tela, mas nas bancas de jornal: as figurinhas dos chicletes Ping-Pong.
Sabíamos os nomes de todos os jogadores de todas as seleções. Acordávamos mascando aquele inesquecível sabor de maçã verde com um único objetivo: enriquecer o arsenal para as disputas acirradas de “bafo-bafo” na calçada.
Hoje, lembro disso com uma nostalgia gostosa e uma certeza matemática: os quatro canais que tenho nos dentes molares são subprodutos diretos daquela doce obsessão.
Foi também em 1986 que o futebol se misturou com a história do mundo diante dos meus olhos de criança. Vi Diego Maradona desenhar o “Gol do Século” contra a Inglaterra, partindo do meio-campo e driblando meio time inglês
E, no mesmo jogo, o polêmico gol de mão, a “La Mano de Dios”. Anos mais tarde, compreendi o peso geopolítico daquela partida: era o troco simbólico dos argentinos contra os ingleses pela Guerra das Malvinas, travada quatro anos antes. O futebol se mostrava maior que a bola.
A nossa Seleção daquele ano era fantástica. Do goleiro aos atacantes, ostentávamos nomes como Leão, Branco, Oscar, Mauro Galvão, Falcão, Sócrates, Zico, Careca, Casagrande e Müller. Tínhamos certeza do título.
Mas, nas quartas de final, um tal de Michel Platini estragou a festa e nos eliminou nos pênaltis. Nova choradeira.
Mas ali aprendi outra lição social: no meu próprio bairro, um grupo soltou rojões comemorando a queda do Brasil. Demorei a entender que eles não torciam pela França; secavam o Brasil por questões internas.
Ver brasileiros celebrando a derrota da própria pátria esportiva foi um choque de realidade que me marcou tanto quanto o drible de Maradona.

A CHEGADA DA TECNOLOGIA E A MUDANÇA DE CENÁRIO – Em 1990, a vida mudou de tom. Já não estava mais em Itapevi; assisti à Copa na cidade de Bernardino de Campos, no interior paulista.
E com um coadjuvante de luxo: a nossa primeira televisão, comprada em 1988 — aparelho que me permitiu ver, naquele mesmo ano, o jovem atacante Viola dar o título paulista ao Corinthians (mal sabia eu que ele seria tetracampeão mundial em 1994).
A Copa de 90, sob o comando de Sebastião Lazaroni, foi terrível plasticamente, fomos eliminados pela Argentina, mas o rito de passagem estava feito.
As Copas seguintes vieram na adolescência e na vida adulta. Vi telas mais modernas, vi o Brasil ser campeão com o brilho de Romário, Rivaldo e Ronaldo, e assisti ao traumático 7 a 1 contra a Alemanha.
No entanto, nenhuma dessas coberturas em alta definição superou o impacto das Copas da minha infância. Naquela época de inocência, eu pouco me importava se as estatísticas apontavam favoritismo ou não.
Eu queria a festa, a união da vizinhança, o abraço coletivo no gol e o consolo mútuo na derrota.
UM APELO PEDAGÓGICO: A COPA NAS ESCOLAS – É por isso que defendo que a Copa do Mundo deveria ser um projeto pedagógico obrigatório e intenso em todas as escolas primárias e de educação infantil no ano de sua realização.
Há ali uma riqueza humana, geográfica e histórica viva. Estudar cada país participante, entender suas relações com o mundo, suas culturas e bandeiras através do esporte tornaria o aprendizado algo fascinante e eterno para os estudantes.
Independentemente de o Brasil levantar o caneco ou amargar uma derrota, o meu conselho aos pais é: curtam com seus filhos. Deixem que suas crianças pintem a rua, colecionem figurinhas, sintam a emoção do jogo.
Permitam que elas sonhem e imaginem. Daqui a dez ou vinte anos, os números econômicos da Copa do Catar, da Rússia ou das próximas edições terão sido esquecidos, mas a memória daquele abraço no sofá e da união do povo estará eternizada na alma deles.
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