sexta, 21 de junho de 2024

A violência contra a mulher só terá fim com o combate a cultura do machismo

Alexandre Q. Mansinho

“No Brasil a violência contra a mulher é cultural, os homens são educados para considerar que são mais importantes e que a vontade deles deve sempre ser atendida.” Com essa afirmação a Dra. Ana Rute inicia a conversa com o Novo Negocião e revela que, ao contrário do que se imagina, o combate à violência contra a mulher passa também pela revisão do papel do homem na sociedade atual: “machismo não interessa a ninguém, o homem também acaba sofrendo e morrendo prematuramente em razão das exigências que a sociedade faz para que ele seja considerado “macho” de verdade”, afirma.

Pesquisas sobre expectativa de vida, feitas pelo IBGE em 2015, revelam que as mulheres vivem em média 6 anos a mais que os homens, isso sem levar em conta que homens são mais propensos a vários tipos de doenças consideradas evitáveis pelos médicos. Segundo a Dra. Ana Rute, essa morte prematura dos homens é efeito colateral do machismo: “essa cultura misógina faz com que os homens pensem que a violência é a saída para problemas do cotidiano – não é à toa que eles são a maioria das vítimas em crimes violentos, acidentes e casos de morte prematura por doenças cardíacas”.

“O homem, quando criança, vê seu pai abusando física e psicologicamente da mãe – esse exemplo leva ele a acreditar que a violência contra a mulher é aceitável”, afirma a delegada. Para ela há uma tendência dos tribunais pelo Brasil a recomendar, além da punição para o abusador, um tratamento terapêutico: “ele também é vítima dessa cultura, deve ser punido sim, mas também deve ser levado a refletir sobre suas ações de uma forma mais direcionada”.

“Outro efeito colateral do machismo é a sensação que toda a mulher abusada tem de que foi, de uma forma ou de outra, responsável pela violência que sofreu, aliás, a sociedade pensa assim. O caso da menina que sofreu estupro coletivo no estado do Rio de Janeiro é um bom exemplo: depois que se percebeu que ela não tinha o perfil da “donzela indefesa”, começou-se a procurar argumentos para justificar a violência.”

Alguns dias depois dessa entrevista, o DATAFOLHA divulga uma pesquisa que revela: um em cada três brasileiros considera a mulher culpada pelo estupro. Essa pesquisa, além de ratificar tudo aquilo que a Dra. Ana Rute diz, alerta que ainda há um longo caminho a percorrer para acabar com a cultura do machismo.

Em Ourinhos, dados oficiais apontam que uma mulher é estuprada por semana, caso levemos em conta a subnotificação, não é exagero dizer que, a cada 3 dias uma mulher é vitimada em nossa cidade.

 

 

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