terça, 18 de junho de 2024

Alunos ocupam duas escolas contra reorganização do ensino imposta por Alckmin

José Luiz Martins

Já passa de 170 o número de escolas estaduais ocupadas por estudantes em todo o estado São Paulo numa mobilização contra a “reorganização escolar” proposta pelo governo, que culminou na transferência de alunos e no fechamento de dezenas de escolas.

Desde setembro em várias cidades paulistas, pais, alunos e professores vêm realizando manifestações contra as mudanças, porém sem sucesso. No final de outubro a ocupação dos estabelecimentos escolares começaram a acontecer na capital. O governo reagiu recorrendo ao Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) pedindo reintegração de posse das primeiras escolas ocupadas na cidade de São Paulo, mas o tribunal negou o recurso do governo e desde então uma onda de ocupação vem se alastrando pelas cidades do interior com dezenas de escolas fechadas pelos estudantes. 

Em Ourinhos alunos da E.E. Maria do Carmo Arruda no Jardim Matilde e Dalton Moraes Vilas Boas, na Vila Musa, aderiram a onda de ocupação e desde o dia 24 permanecem em vigília dentro dos estabelecimentos, contra a reorganização do ensino estadual, como quer o governo de Geraldo Alckmin.

Para os sindicatos e entidades ligadas aos professores o que o governo pretende é enxugar gastos com a educação para tapar buracos no orçamento estadual sem se preocupar com a condição que será imposta a docentes, servidores da educação, alunos e comunidades escolares. Avalia-se que as medidas irão precarizar ainda mais o ensino estadual com demissões de professores, fechamento de salas de aula e o aumento do número de estudantes por sala, além do remanejamento de alunos para escolas mais distantes de onde moram.

A Reportagem do NovoNegocião conversou com um dos líderes da ocupação, o estudante Pedro Henrique Lino do Rego, que frequenta a escola Maria do Carmo Arruda desde a 5ª série. Hoje cursando o 3º ano do ensino médio, disse a reportagem que a ocupação da escola nasceu da indignação diante da imposição do governo; “Sabemos da luta diária dos professores sempre oprimidos pelo governo. O que o governo está querendo promover está mexendo com vida deles, dos alunos e pais. Da forma como está sendo imposta sem ouvir todos que serão afetados não é correto”.

Conforme o aluno, a ideia de ocupar a escola surgiu entre os alunos que sentiam a necessidade de fazer alguma coisa dentro desse processo de mudança. Na escola onde ele estuda seriam retiradas as turmas de 5ª e 8ª series transferindo os alunos para escola Justina de Oliveira Gonçalves, de onde seriam transferidos para a escola ocupada os alunos do 1º, 2º e 3º anos do ensino fundamental. 

O movimento foi iniciado exclusivamente por alunos, começou com manifestação de protesto com cerca de 200 alunos na segunda-feira, 23, em frente a escola com bloqueio parcial da Avenida Domingos Camerlingo Caló. No dia 24, terça-feira, os alunos realizaram reuniões e decidiram pela ocupação da escola. Conforme Pedro, praticamente todos os estudantes do estabelecimento se engajaram aos protestos e a ideia de ocupação.

Desde que os alunos ocuparam a unidade não há nenhuma atividade escolar, eles se recusaram inclusive a fazer a prova do SARESP na manhã da terça-feira, 24. Dezenas de estudantes vêm se revezando na permanência dentro da escola, com intuito de fortalecer o movimento e conscientizar cada vez mais todos que serão afetados, pais, alunos, professores e funcionários da escola, da importância de se contrapor a algo que será prejudicial a todos.

Segundo o estudante, o cotidiano dentro da escola foi alterado com os manifestantes que ali permanecem dormindo no local, saindo somente para se alimentarem e tomar banho. Durante o dia dezenas de jovens se juntam a ocupação e durante a noite um número menor permanece no local. “Há um revezamento, todos estão interessados em dar o seu apoio, seja dormindo na escola ou simplesmente passando algumas horas aqui discutindo o que faremos enquanto não se chega a uma solução. A conscientização de que juntos temos mais força é o entendimento entre a gente”, enfatizou Pedro Henrique.

Sobre a interlocução junto a Diretoria Regional de Ensino, Pedro revelou que uma comissão de alunos procurou por duas vezes os dirigentes e não foram atendidos, isso foi determinante para que resolvessem mobilizar a comunidade para os protestos e a ocupação da escola. Após a ocupação a Diretoria Regional chamou os manifestantes para uma reunião, o grupo recusou o encontro na sede da regional pedindo para que a reunião fosse realizada na escola.

Não houve a reunião, um representante compareceu à escola para dissuadi-los da ocupação, mas as discussões sobre a questão não avançaram. A Polícia Militar esteve na unidade escolar e limitou-se a averiguar se havia algum tipo de depredação do patrimônio escolar sem interferir na ocupação.  

O grupo que está a frente do movimento quer aproveitar o momento para realizarem palestras e reuniões com os pais explicando o que realmente o governo pretende. A determinação dos estudantes é para que o governo reveja as medidas tomadas e volte atrás reconhecendo que deveria primeiro ter dialogado com todas as comunidades escolares afetadas, expondo e ouvindo professores, funcionários, pais e alunos para que se chegasse a uma solução que fosse a contento de todos. Hoje a ocupação da escola entra no quinto dia e segundo Pedro Henrique Lino do Rego, a maioria dos professores apoia a ação, os alunos permanecerão ordeiramente na escola até que se resolvam os impasses.

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