sábado, 22 de junho de 2024

Artigo: Mulheres contra Cunha

Neusa Fleury de Moraes

Semana tensa esta que passou. A onda de conservadorismo e retrocesso político vai avançando, tentando tirar das mulheres direitos que demoraram décadas para serem conquistados. É o que pretende o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, com o projeto que dificulta o acesso à chamada pílula do dia seguinte, ao aborto decorrente de estupro, e cria dificuldades para a denúncia em caso de violência sexual. 

O assunto é espinhoso e as pessoas costumam não comentar, mas a verdade é que a violência contra a mulher talvez tenha crescido nos últimos tempos. Tanto que o tema da redação do Enem este ano exigiu que os alunos escrevessem a respeito (como os governos costumam andar atrasados em relação às transformações sociais, a coisa deve estar feia mesmo.)

Nos últimos dias pipocaram manifestações de mulheres nas principais capitais. Elas protestaram contra o projeto de lei do deputado Eduardo Cunha. Em Assis uma manifestação foi marcada para amanhã, sábado.  

Essa proposta do deputado – que representa o grupo de religiosos no Congresso – insinua que a mulher que sofre estupro precisa que o fato seja referendado por outra pessoa. Não bastam os exames médicos e a declaração da vítima; o que aconteceu vai ser sempre colocado sob suspeita. Além da violência física e moral sofrida e do constrangimento em enfrentar delegacias de polícia sempre aparece alguém insinuando que a mulher pode ter incentivado, aprovado ou ser a culpada da agressão sofrida. 

As agressões contra as mulheres podem começar muito cedo. É só ver a quantidade absurda de relatos nas redes sociais com o tema “primeiro assédio”, onde até pessoas públicas como a atriz Letícia Sabatella falaram a respeito, denunciando o quanto as meninas são vistas como objeto para serem desfrutadas. Triste é saber que cerca de dois terços dos casos de assédio são praticados por alguém conhecido da criança ou da própria família. É inevitável o trauma para toda a vida, dificultando os relacionamentos afetivos da pessoa que sofreu abuso. Porém, apesar de covarde e cruel, o comportamento do abusador nem sempre recebe o repúdio e a punição necessárias. 

Na tentativa de diminuir a importância do debate sobre a discriminação contra a mulher, o termo “feminismo” sofreu perseguição. Se na década de 1950 era entendido como um pensamento de mulheres mais cultas, nos últimos 30 anos o feminismo foi interpretado como manifestação panfletária e radical, feita por mulheres feias, mal amadas e que “queimavam sutiãs”. A manobra foi tão forte que muitas mulheres entraram nessa, sentindo vergonha de discutir o assunto. 

A palavra precisa voltar a ser entendida em seu sentido original, ou seja, feminista é quem luta pelos direitos das mulheres, que não são nada mais do que direitos humanos (e que precisam ser iguais entre homens e mulheres). 

Os protestos organizados pelas mulheres vão continuar acontecendo, na tentativa de barrar a implantação de leis que tiram das mulheres direitos que foram conquistados por suas mães e avós. 

Por falar em avó, a minha bem que foi feminista. Viveu de acordo com as regras estabelecidas para a sua época, mas questionava e incentivava as netas a viverem de forma mais livre. Em sua mocidade, tudo que a dona Paquita queria era cortar os cabelos, coisa que as moças “de família” não deviam fazer, correndo o risco de ficarem “faladas”. Ela me mostrou toda orgulhosa algumas fotos da década de 1920, onde aparece com os cabelos curtinhos “à la garçonne”, contrariando a imposição paterna. 

Espero que esse deputado fascista e corrupto encontre mulheres bem bravas em seu caminho. 

 

 

 

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