segunda, 27 de maio de 2024

Fornecimento irregular de remédios compromete tratamento de diversos munícipes ourinhenses

Reportagem do Jornal Negocião acompanhou o drama de quem sofre a falta de remédios psiquiátricos e dos diabéticos insulinodependentes

 

Alexandre Mansinho

 

Manhã do dia 21 de julho, em frente à Farmácia Central ao lado do Posto de Saúde I, mais conhecido como Postão, em Ourinhos/SP, a munícipe Vanessa Lopes, 37 anos, passa por mais um dia de transtorno: tanto ela quanto o seu filho são diabéticos insulinodependentes e, nos últimos meses, têm encontrado dificuldades em obter doses da insulina que fazem uso: “eu uso a Insulina Levemir, e é um remédio caro (…) já me falaram que vem lá de Assis/SP e, por isso, está chegando com atraso”. Ela afirmou para a reportagem que já precisou comprar o medicamento algumas vezes e, conforme pesquisa feita nas farmácias ourinhenses, esse medicamento, que pode ser usado por, no máximo, quatro dias, tem um valor médio de R$ 400,00 – isso significa dizer que um tratamento para 1 mês ultrapassaria os dois mil reais de custo.

 

Insulinodependente, Vanessa Lopes afirma que já teve que comprar o medicamento algumas vezes

 

M.P.S., de 62 anos, é usuária de remédios psiquiátricos, afirmou que já há algum tempo que tem encontrado muitas dificuldades em manter o tratamento corretamente: “quando tomo os remédios de forma desregulada, acabo tendo crises e faltando ao trabalho (…) aqui no Postão eles já até me conhecem, os atendentes já falam que o remédio não tem, e, quando chega, acaba em menos de dois dias”. A idosa faz uso de Tegretol 400, indicado para síndrome do pânico e outras moléstias psiquiátricas.

O aposentado S.V.A., 75 anos, é cardíaco, já passou por cirurgias complexas e faz uso do medicamento Daflon. Assim como os outros munícipes, o idoso costuma fazer “peregrinações” até o Centro de Saúde I para poder manter o tratamento conforme prescrito pelo médico: “eu não posso ficar sem o remédio, sou cardíaco e tenho que “andar na linha” para poder ter mais alguns anos de vida (…) às vezes meu filho ou meu neto vem aqui para buscar o remédio, só que é comum chegarem aqui e não ter (…) a caixa custa R$ 90,00 e eu preciso de duas por mês (…) se for pagar, sai caro”.

 

Munícipes se deslocam de suas residências e saem desolados da farmácia central pela falta de medicamentos

 

O Sistema Único de Saúde, conhecido também como Rede SUS, tem uma organização prevista em lei e, por meio de acordos e leis complementares, define as responsabilidades da prestação dos serviços médicos entre a União (Governo Federal), estados e municípios: nessa divisão, os remédios de uso contínuo mais comuns, chamados de “farmácia popular”, são fornecidos e pagos pela União – há também um conjunto de medicamentos de uso hospitalar e substâncias ultracontroladas (como procedimentos que exijam insumos radioativos) que também saem por conta da verba federal. Por outro lado, remédios de alto custo são, na maioria, fornecidos pelo estado, sobrando para as prefeituras medicamentos de baixo e médio custo.

O QUE É O DRS IX DE ASSIS – Os remédios que cabem ao governo estadual, no caso da cidade de Ourinhos e municípios próximos, são redistribuídos pela 9ª Diretoria Regional de Saúde, com sede em Assis. De acordo com as autoridades ouvidas pelo Negocião, é lá que tem havido problemas. O vice-governador Rodrigo Garcia, quando esteve na região para compromissos oficiais, disse que está em estudo uma grande reorganização das regiões administrativas para que o estado possa “chegar mais rápido” nos municípios: “a regionalização que temos hoje na área da saúde vem de 1980, de lá pra cá muita coisa mudou (…) precisamos refazer esse mapa para evitar problemas”.

O vereador Éder Mota, presidente da comissão parlamentar de saúde, conversou com a reportagem sobre o problema: “os remédios de alto custo são competência do governo do estado, dessa forma nós, enquanto comissão parlamentar, fomos atrás de informações (…) estivemos em Assis na farmácia do DRS IX, e também fomos a Marília, município no qual há também um centro de distribuição do governo do estado (…) o que constatamos é que os medicamentos têm chego, mas têm faltado servidores para fazer o trabalho de despacho (…) são 64 cidades, milhares de remédios, e um efetivo de quatro servidores (…) entregamos um ofício em nome da comissão para o governo estadual, aguardamos as medidas (…) do jeito que está, é impossível”.

Guilherme Gonçalves, vereador, afirmou que aproveitou a passagem do vice-governador por Ourinhos e fez uma cobrança em nome da população: “há diversos munícipes que me procuram, sobretudo mães que têm filhos insulinodependentes, e têm sofrido muito com a falta dos remédios contínuos e de alto custo (…) sabemos que há poucos funcionários para o serviço de despacho, e isso é algo inaceitável (…) pagamos muitos impostos e esse problema de logística tem sido algo vergonhoso (…) se o problema continuar, irei até o DRS IX para reiterar a reclamação”.

 

O vereador Guilherme Gonçalves afirma que se o problema continuar irá pessoalmente até o DRS IX para reiterar a reclamação

 

REMÉDIOS VENCIDOS – A demora no despacho do DRS IX tem provocado outros problemas gravíssimos no que diz respeito à saúde pública: medicamentos que necessitam de refrigeração estão demorando mais para chegar, por questões logísticas mais complexas, e munícipes têm reclamado que os tem recebido muito próximos da data de vencimento ou até com a dada de vencimento vencida.

COMISSÃO DE SAÚDE – A Comissão Permanente de Saúde e Assistência Social de Ourinhos, composta pelos vereadores Éder Mota (presidente), Raquel Spada (vice-presidente) e Latinha (membro), também tem trabalhado buscando soluções para a questão dos medicamentos de alto custo. Ainda durante a passagem do vice-governador Rodrigo Garcia pelo município, foram cobradas soluções para a questão e entregue um pedido para que o Governo do Estado agilize a entrega dos medicamentos. A demanda também foi levado ao Secretário de Saúde Donay Neto.

 

Vereadores que compõem a Comissão Permanente de Saúde também buscam solução

 

Consultamos a prefeitura de Ourinhos, sobre o que a administração pública pode fazer a respeito desta problemática, mas até o fechamento desta edição não tivemos retorno.

Também foram feitos contatos com o DRS IX de Assis, mas, até o momento, não houve respostas.

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