quinta, 18 de abril de 2024

“Fraternidade e fome” Bispo da Diocese de Ourinhos fala sobre o tema da campanha deste ano

Pela terceira vez ‘a fome” é o tema central da igreja católica no Brasil para Campanha da Fraternidade, a primeira vez foi em 1975 e dez anos depois em 1985

 

José Luiz Martins

 

Em sua mensagem à Campanha da Fraternidade 2023, lançada no mês passado pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o Papa Francisco lembrou as milhões de pessoas que sofrem e morrem de fome pelo mundo e a responsabilidade de todos no combate ao que chamou de “peste”. O flagelo que continua afetando milhões de brasileiros, a fome, pela terceira vez é o tema central da igreja católica no Brasil para Campanha da Fraternidade, a primeira vez foi em 1975 e dez anos depois em 1985.

No Brasil muito além do folclore do carnaval e a boa fama do futebol, infelizmente, em pleno século XXI, milhões de homens, mulheres e crianças não têm acesso a esse direito humano fundamental que é a alimentação. Não há comida? Absolutamente não. Sabe-se que a cada ano o Brasil atinge níveis altíssimos de produção de inúmeros alimentos. Na realidade, sobra a desigualdade social e o que falta é a abrangência da autêntica fraternidade da partilha e justiça.

Após séculos de cristianismo, a força revolucionária do evangelho retoma a luta para transformar as estruturas injustas que afligem a sociedade brasileira. Em entrevista ao Jornal Negocião o Bispo da Diocese de Ourinhos, Dom Eduardo Vieira dos Santos, manifestou-se inicialmente sobre o tema lembrando o texto bíblico de Mateus 14:16, cujo lema é “dai-vos vós mesmos de comer”.

“O evangelho de Mateus nos provoca para o problema para que todos nós possamos assumir a responsabilidade de provermos o necessário para os nossos irmãos. O objetivo da Campanha da Fraternidade desse ano busca sensibilizar toda a sociedade e a igreja a enfrentar o flagelo da fome que tem feito muitos irmãos e irmãs sofrerem esse drama. E assim sensibilizar e nos trazer de fato a assumir um compromisso que nos leve a transformar essa realidade a partir do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”, destacou.

Para Dom Eduardo a questão da fome no país é de fato uma luta que se tem pela frente, tendo o lema da campanha no centro da quaresma, um tempo favorável para a conversão de modo particular dos cristãos. Observando que se trata de um movimento inicialmente pessoal e interior de cada um, uma atitude individual, mas também uma atitude comunitária, sobretudo uma atitude social.

Ele lembra que a CNBB vem dedicando-se há 60 anos junto com os fiéis brasileiros no incentivo e empenho dos trabalhos das Campanhas da Fraternidade ao longo dos anos.

Desde 1964, essa é a septuagésima Campanha da Fraternidade e é também agora em 2023, a terceira vez que se trata da realidade fome. E dessa vez a campanha é de fato o exercício de piedade com o qual se busca refletir sobre a oração, sobre o jejum e sobre a caridade e assim busca nos levar então aos exercícios quaresmais, a refletir sobre uma questão social. É nos exercícios quaresmais onde se busca de fato nos levar a conversão, essa é a realidade da fome que é um instinto natural e poderoso de sobrevivência de todo ser vivo”, salientou.

 

O bispo destaca que é dessa forma que todos os cristãos se comprometem diante da realidade posta a buscar meios de sair dessa situação e que a fome de fato não é uma condição plausível para ninguém nem para o ser humano nem para os animais. Ele lembra que o papa Francisco durante as comemorações dos 75 anos das organizações das Nações Unidas para a alimentação e agricultura, disse que a humanidade passa fome e isso é uma tragédia e também uma vergonha para toda a sociedade.

 

De acordo com o economista Ladislau Dowbor, a existência da fome no Brasil é grotesca em termos econômicos e um crime em termos éticos. O país havia saído do mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU) em 2014, por meio de estratégias de segurança alimentar e nutricional, mas as últimas estatísticas mostram no país, cuja população é de 211,7 milhões de habitantes, que existem milhões de pessoas que convivem com algum grau de insegurança alimentar e, destas, 33,1 milhões (15,5%) estão em situação gravíssima de fome.

Só no ano passado houve um aumento de 14 milhões de famintos no Brasil e do ponto de vista geográfico, o flagelo da fome concentra-se principalmente no Norte e Nordeste do país, onde quatro em cada dez famílias não têm o que comer.

Essas estatísticas têm rostos, nomes e histórias e as crianças são as principais vítimas, pois o seu crescimento, bem como o seu desenvolvimento físico e cognitivo estão comprometidos devido à falta de uma alimentação saudável, regular e suficiente. Nesse sentido Dom Eduardo destaca que a fome tem a desigualdade como principal causa:

“Grande parte é provocada pela má distribuição dos alimentos, dos frutos da terra e ela tem crescido com consequências dramáticas. A fome leva o planeta à decadência e o Papa fala com todas as palavras que a fome é repudiada por todos, mas também não é enfrentada por todos com seriedade. Portanto, a igreja é a primeira instituição a repudiar a fome e a buscar meios para enfrentar essa triste realidade”.

Conforme os especialistas o problema da fome no país passa pela questão fundiária citando como exemplo, a má distribuição de terras que ainda é um problema não resolvido a contento. Da mesma forma, pouca ou nenhuma atenção é dada à agricultura familiar, priorizando-se políticas agroexportadoras a serviço do sistema econômico-financeiro. Essas são apenas algumas das causas que estão na raiz do mal da fome no Brasil naturalizado pela sociedade.

“Então vemos que a partilha, a distribuição é o caminho. Aqui no Brasil se produz muito alimento e batemos recordes de produção de milho, trigo, cana-de-açúcar, carne e tantos outros alimentos todos os anos. Porém, pessoas perdem a própria dignidade ao arrastar-se pelas ruas, a revirar o lixo para matar a fome, não é algo natural, ou seja, desejado por Deus. No Brasil a fome não é simplesmente um problema ocasional é um fenômeno social e coletivo, estrutural, produzido e reproduzido no curso ordinário da sociedade que normatiza e naturaliza a desigualdade, criticou Dom Eduardo.

Ele completa exortando a conversão ao evangelho e ao olhar com sinceridade a necessidade de tantos que passam fome numa sociedade que normatiza e naturaliza a desigualdade como parte de um projeto de manutenção da miséria em vista de perpetuação do poder.

“Milhares e milhares de pessoas passam fome todos os dias, então basta levantarmos os olhos para vermos uma multidão de brasileiros que não tem nada ou pouco tem para comer todos os dias. Tudo começa com o ato de ver, é preciso fazer como Jesus, levantar os olhos e ver a realidade da fome dos brasileiros. A Campanha desse ano nos convida a refletirmos sobre essa realidade.

Finalizando Dom Eduardo Vieira dos Santos convida a todos da diocese de Ourinhos e cristãos de todo o país a tomar nas mãos o material da Campanha e prestar atenção sobre a realidade da fome que assola uma grande parte da população brasileira.

“Convido a todos da Diocese de Ourinhos para que tenhamos o coração aberto e generoso para a partilha e fraternidade e, de modo particular, através dos exercícios quaresmais do jejum da oração e da esmola. Que Deus nos abençoe a todos e nos ajude a todos a vivermos o que Jesus nos ensina – amai-vos uns aos outros”, concluiu.

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