sábado, 15 de junho de 2024

Gente não é peça de reposição

Neusa Fleury

Uma novela recente revelou um personagem chamado Comendador, que rapidamente conquistou o público feminino, entediado com a beleza meio andrógina dos jovens galãs. Depois que apareceu no especial de final de ano cantando com Roberto Carlos então, sua popularidade explodiu. O que o público não sabia era que, além de ator, Alexandre Nero também é músico e compositor. Tem formação teatral, o que lhe garante uma boa cultura geral. Vi uma entrevista com ele, e gostei quando desmontou com bons argumentos uma frase que escutamos muito por aí, a de que ninguém é insubstituível. Alexandre Nero discordou, explicando que essa afirmação é usada para desqualificar pessoas, como se fôssemos todos iguais, fabricados em série, facilmente substituíveis.  

Essa expressão é usada quando se quer desconsiderar talentos pessoais, justificando o descarte. Gente não é parafuso nem peça de reposição, e todos temos talento para alguma coisa, contribuindo à nossa maneira com a família e a comunidade. Além disso, Nelson Rodrigues já disse que toda unanimidade é burra, e é bom pensarmos melhor a respeito de frases que repetimos sem analisar. 

Tem gente que passa pela vida e deixa sua marca graças ao trabalho, personalidade e maneira de ser. Assim foi com o Antonio Abujamra, ourinhense famoso que perdemos esta semana. A autenticidade foi sua marca. Transitou pelo teatro, cinema e TV com seu jeito irônico e irreverente, que deve ter rendido inimigos, desses que dizem que ninguém é insubstituível, e que morriam de inveja de seu talento.  

Abujamra provocava sempre. No programa da TV Cultura foi muito mais que um apresentador, exercitando sua performance teatral. Ele parecia se divertir com isso. As entrevistas buscavam um pouco do que o cineasta Eduardo Coutinho também fez, tentar descobrir mais do que o entrevistado queria mostrar. Ao contrário de Coutinho que deixava rolar, pouco interferindo no discurso de seus entrevistados, Abujamra desafiava, queria fugir do óbvio com perguntas provocadoras, questionando sobre tabus sociais e políticos. Fez sua parte como artista questionador e inquieto. Precisa coragem para um artista viver assim, numa época em que se você questiona ou não concorda com alguma coisa, logo vários pares de olhos inquisidores te condenam. Fica um vazio sem o “Provocações”, cujo apresentador não tinha medo do silêncio dos entrevistados. Enquanto Abujamra olhava no olho, buscando o ser humano atrás da máscara, a maioria dos outros programas de entrevistas se contenta com frases feitas e risadas falsas. Quando terminava o programa, ele abraçava o entrevistado, dizendo que aquele não era um abraço falso. Difícil manter a verdade e enfrentar as dificuldades quando se sabe que milhares de pessoas estarão assistindo, e isso o eterno “Ravengar” parecia não temer.

O velho Abu vai fazer falta. Tinha algumas perguntas recorrentes, e que não são facilmente respondidas por ninguém: “O que é a vida?” “Como você gostaria de morrer?” Ele se divertia com a resposta da maioria, que dizia preferir morrer dormindo, e provocava dizendo que não seria assim, que morreríamos entubados e sozinhos em frias camas de hospital. Também perguntava sobre Deus, curioso para saber a opinião das pessoas. Talvez Ele tenha ouvido o “bruxo” ourinhense, que dormiu e não acordou. Vão me dizer que será rapidamente substituído?

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