sexta, 21 de junho de 2024

Grupo denuncia trabalho em regime de escravidão

Notícia publicada em 08/07/2016, às 08h41

 

A equipe de reportagem do Jornal Novo Negocião foi procurada, em meados da semana passada, por dois trabalhadores da J. F. Citrus Agropecuária S. A. com uma denúncia grave: um grupo de 19 trabalhadores rurais estavam sendo mantidos em condições análogas a de escravos, amontoados em uma casa sem comida e em condições precárias de higiene. Ao averiguar a denúncia o que se viu foi uma realidade digna de um filme de terror: muita sujeira nos alojamentos, trabalhadores sem registro, relatos de privações e ameaças de violência física.

“Eu fui convidado, na cidade de Pindaré Mirim/MA, para trabalhar na colheita de laranja. Lá prometeram, para mim e para mais 18 pessoas, um trabalho com salário de R$ 3 mil além de comida e alojamento. Aqui, na realidade, nós ganhamos cerca de 30 reais por dia e temos que pagar por tudo, não sobra nada para nós”, diz Wanderson V. Melonio. “Em Ipaussu fomos recebidos por Jhonny, que é nosso encarregado. Ele deveria cuidar do nosso bem-estar, mas pouco se importa. Às 5h somos levados para uma fazenda em Avaré/SP e trabalhamos até às 17h. Isso todos os dias, sobrando apenas o domingo”, afirma Wanderson.

“Eu estou devendo aluguel, devendo no mercado e devendo até o gás. Quando eu receber o salário, não vai sobrar nada para eu mandar para minha família lá em Pindaré” afirma U.M.C., outro funcionário da J. F. Citrus que pediu para não ter seu nome divulgado por medo de represálias. U.M.C. ainda conta: “a gente é do Maranhão, meu senhor. Estou aqui há 3 mil quilômetros da minha casa, aqui faz um frio do cão. Deixei minha mulher grávida lá na minha cidade. Só quero poder trabalhar para mandar dinheiro pra eles. Todos os dias a gente sai de ônibus de Ipaussu para Avaré, isso não é vida”, reclama.

A reportagem do Novo Negocião confirmou que esses trabalhadores tem vivido de doações da população ipaussuense. Há registros de verdadeiras campanhas para arrecadar roupas de frio e mantimentos. A equipe também teve acesso a cópia de um boletim de ocorrência registrado na Delegacia de Ipaussu, no qual um trabalhador alega que Jhonny o havia ameaçado caso ele fizesse alguma denúncia. “Quando eu reclamei que aquilo não era nada do que havia sido prometido e que eu iria denunciar no sindicato, ele disse que iria quebrar minhas pernas se eu falasse alguma coisa.”

Procurados pela equipe de reportagem, Rafael Cominati, responsável pela J.F.Citrus, disse, que: “a empresa não contrata funcionários de outras regiões do país para prestar serviços nas fazendas onde se mantém os negócios. As contratações são feitas sempre por meio dos postos do P.A.T. (Posto de Amparo ao Trabalhador) mantidos pelo Governo do Estado. Cientes dessa denúncia nós faremos uma minuciosa apuração para verificarmos quem está usando do nome da J.F. Citrus de forma indevida.”

O empreiteiro citado nessa matéria, Jhonny de Souza, também foi contatado pelo jornalismo do Novo Negocião. Ele afirma que apenas é empregado da J.F. Citrus e que jamais negociou em nome da empresa ou recrutou funcionários. Perguntado sobre o B.O. de ameaça que foi feito contra ele, Jhonny nega que tenha ameaçado quem quer que seja. “Eu ajudo essas pessoas que vem do Maranhão por amizade – eu conheço alguns deles e dou uma força sendo fiador do imóvel alugado”. Por fim, ele também negou que seja responsável por qualquer problema que esses trabalhadores venham a ter. No desenvolvimento desta reportagem, os dois funcionários entrevistados foram, às pressas, mandados de volta a Pindaré Mirim/MA e seus contratos rescindidos.

 

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