sábado, 15 de junho de 2024

Mãe questiona quantas ainda vão chorar e filhos vão morrer?

Hernani Corrêa

Faleceu na manhã de 06 de abril, na Santa Casa de Misericórdia de Ourinhos, a menina Júlia Gabriela Macedo Batista. Ela estava internada desde o início da semana passada com sintomas de dengue, segundo a família.

A menina começou a sentir os sintomas no dia 31 de março e a família imediatamente procurou atendimento médico e foi atendida na Santa Casa por possuir convênio com o IAMSPE. No sábado seu estado de saúde piorou e no domingo deu entrada na UTI do hospital.

Júlia completaria 13 anos em 05 de Julho, era de uma família de cinco irmãos (Elton 27 anos, Carlos 22, Igor 18 e Gabriel 14) sendo ela a única do sexo feminino. A garota morava na Rua Paulo Ribeiro de Moraes nº 160 no Jardim São Carlos, era filha da dona de casa Neusa Macedo Batista e do professor Elias Batista, que atualmente dá aulas na Escola Estadual Josefa Cubas da Silva.

De família católica, Júlia integrava a equipe das Meninas de Nossa Senhora da Catedral do Senhor Bom Jesus em Ourinhos.

Polêmica – Apesar de familiares declararem categoricamente à reportagem que a menina estava internada para tratamento de Dengue (veja depoimento da mãe, com exclusividade, na quarta-feira, 08, no destaque), a prefeitura de Ourinhos, através de nota enviada pela direção da Santa Casa, segundo informou o secretário municipal André Mello, negou o fato (veja box). E ainda pediu aos órgãos de imprensa cuidados na divulgação do ocorrido (veja no final desta matéria).

Durante o velório da menina, profissionais da saúde que trabalharam no PSF – Posto de Saúde da Família do Jardim São Carlos – e moradores do bairro, informaram à reportagem que antes era feito o trabalho de prevenção com visitas realizadas nas casas das famílias. Que se tivesse continuado, jamais o bairro teria esse número elevado de casos de dengue. “Antigamente era muito melhor, as meninas já conheciam nossas famílias e orientavam, depois foi acabando e quase não tem médico ali”, informou uma moradora.

Segundo outro profissional que preferiu não se identificar, por receio de retaliações, Ourinhos pode estar chegando a quase 5.000 casos da doença, que já morreu mais gente desta forma e, com certeza, deve estar sendo camuflado pela Secretaria da Saúde.

A menina Júlia foi sepultada as 17:30 hs no cemitério local. Centenas de pessoas compareceram para dar o último adeus à garota.

O depoimento da mãe – Neusa Macedo Batista, mãe de Júlia, contou em detalhes à reportagem como foram os últimos momentos da menina e a agonia vivida pela família que não aceita até agora a sua morte.

“Ela começou com uma dor de cabeça e febre. Aí eu passei ela no plantão da Dra. Karina. Ela fez o hemograma e as plaquetas já estavam em 189.000. Neste momento, a doutora notificou a secretaria da saúde e me deu a Carteirinha de Dengue. Eu assinei a notificação de que seria Dengue”, contou Neusa.

E prossegue. “Ela ficou tomando soro e medicação durante três horas. Aí melhorou muito e nós viemos embora. 48 horas depois repetiu os exames e as plaquetas estavam em 120.000. É tudo normal, me informaram, até o terceiro e quarto dia, as plaquetas caem. Voltei lá com a Júlia, pediram outro exame, ela colheu sangue no sábado e as plaquetas estavam em 70.000”, informou a mãe, mostrando os resultados dos exames feitos.

“Ninguém quis internar no sábado, fui atendida pelo plantonista da Santa Casa que anotou na carteirinha da Dengue o valor das plaquetas. Ele disse que estava bom, que não era perigoso, que abaixo disso, é perigoso, mas iria subir. Só que de sábado para o domingo ela começou a não se sentir bem, eu disse que a levaria de manhã na Santa Casa e ela concordou. Fomos atendidas por uma pediatra, que não me lembro o nome, que me informou que internaria a menina. Aí ela colocou no laudo que a Júlia iria para a emergência pois precisava de certos cuidados. O médico que passou a cuidar dela me disse: “Mãe, pai, foi uma Dengue que evoluiu mal. A Júlia é um paciente grave e preocupante, a Dengue dela é grave”, lembra Neusa.

“No domingo de manhã ela amarelou todinha, o olho amarelou, a Júlia inchou e ficou muito agitada. Às 5 hs da tarde no domingo, ela foi para a UTI. Eu fiquei um pouco a noite com ela, mas não tive coragem de ficar mais. Chamei meu marido pra ficar, mas ele não conseguiu também e aí ela já estava com o olhar parado e não esboçava reação. Tinha momentos de lucidez e em outros ficava confusa, delirava. Dizia que via seis baratas querendo pegar ela, não me reconhecia, falava pra mim: “senhora, senhora, chama minha mãe”. Foi quando perguntei o dia do aniversário dela e respondeu corretamente 5 de julho”, conta a mãe.

“Perguntei pra ela como chamava seu pai, sua mãe e ela respondia que não lembrava, e depois quando eu perguntava de novo, ela dizia corretamente: “Elias, Neusa”. Em seguida ela tinha aqueles “apagões” novamente”.

Revolta – “Eu não tenho dúvidas, é Dengue, eu tive durante 20 dias, as minhas duas vizinhas tiveram, outra daqui de traz também, o filho da vizinha da outra rua também. Aqui a população do Jd. São Carlos, mais da metade teve esse ano. E a prefeita não faz nada. Esses tempos atrás não tinha remédios nos postos, agora essa maldita dengue, não passa nebulização por aqui. Na época de outros prefeitos passava, tinha um caso, dois casos e já passava. Vai morrer quem mais? Quantas mães vão chorar? Quantos filhos vão embora?

No tempo em que os médicos trabalhavam aqui, no Posto de Saúde da Família, eles cuidavam das nossas famílias. Eles sim, davam orientação, eles não descuidavam. Eu não sei o que aconteceu agora, eu não vejo médico aqui do nosso posto, nas ruas visitando a população. Só vai quando tem uma pessoa lá na casa morrendo. Mas não faz mais aquelas visitas, as reuniões de orientação que eles faziam”, finaliza Neusa.

Outro lado – Em nota à imprensa, a Prefeitura Municipal de Ourinhos, por meio da Secretaria da Saúde, informou “que no dia 05 de abril de 2015, foi realizado o teste de sorologia laboratorial para Dengue com a paciente Julia Gabriela Macedo Batista e que o referido exame resultou em NEGATIVO para Dengue. 

Vale ressaltar que nos prontuários realizados pela Santa Casa de Ourinhos, em nenhum momento o caso foi tratado como Dengue. 

Como costumeiramente, foi enviado amostragem hoje pela manhã para o Instituto Adolfo Lutz em São Paulo, para que fossem realizados exames para as seguintes doenças: Dengue, Leptospirose, Febre Maculosa e Hantavirose. A Prefeitura de Ourinhos lamenta profundamente a morte da jovem Julia e consternada oferece solidariedade para a família.

A Prefeitura de Ourinhos também solicita responsabilidade por parte da imprensa local na divulgação de notícias, já que para cumprir sua função social, tão primordial e relevante para os cidadãos, deve primar pelo princípio básico dos manuais de jornalismo, que é a apuração correta das informações antes da divulgação”.

Por telefone, o secretário municipal da Saúde, André Mello informou que estava requisitando à Santa Casa o prontuário da paciente para analisar a conduta no tratamento, que no caso, como é convênio com o IAMSPE, quem poderá responder futuramente, caso for necessário, será o governo do estado.

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