terça, 18 de junho de 2024

Morreu o professor Norival Vieira da Silva

Rose Pimentel Mader

Ao som do Hino de Ourinhos, o professor, jornalista e historiador Norival Vieira da Silva recebeu a última homenagem dos ex-alunos, colegas do Magistério e amigos, antes do sepultamento na manhã de segunda-feira, 1º de junho, no Cemitério Municipal. A prefeita Belkis Gonçalves Fernandes e o vice-prefeito Gilberto Severino juntamente com uma expressiva representação da comunidade ourinhense participaram do velório e prestaram solidariedade à família: às filhas Maria Olídia e Silvana, ao genro Olívio Guther Gregório e aos netos Rafael, Gustavo e Matheus.

Cidadão Ourinhense, com título outorgado pela Câmara Municipal, em homenagem e reconhecimento à edificante trajetória, especialmente na área da educação, e a sua contribuição para a vida cultural e política de Ourinhos, Norival Vieira da Silva era natural de Santa Cruz do Rio Pardo, onde nasceu em 25 de abril de 1914, filho de Tertuliano Vieira da Silva e Leocádia Mariani da Silva. Veio para Ourinhos em 1947, construiu uma bela carreira como professor, dedicando-se durante 60 anos ao Magistério, e participou ativamente da implantação do ensino superior. Em 1952 casou-se com a professora Dolores Alonso, mais conhecida como Lola, que faleceu em 1986.

Norival Vieira da Silva se formou em 1952 pela PUC São Paulo, em Pedagogia e Filosofia pura. Queria se preparar na Escola Rio Branco para ser diplomata mas acabou vindo para Ourinhos, onde lecionou História a vida toda. Ainda como aluno da PUC deu aulas no primário do Liceu Auxiliadora, das Salesianas, em Campinas; em Jacarezinho, logo após a criação da FAFIJA foi convidado a lecionar Didática e em Ourinhos lecionou durante 32 anos no Instituto Horácio Soares, nas FIO onde foi também diretor e na FATEC.

Juntamente com Jorge Herkrat, cuja família criou a Escola Técnica do Comércio, e o professor Carlos Nicolosi, iniciou a luta para a implantação de uma faculdade em Ourinhos. Causa abraçada na época pelo então prefeito Mithuo Minami e por outros baluartes da educação, empresários e educadores que mais tarde resultou na criação das Faculdades Integradas de Ourinhos.

Professor Norival foi grande colaborador de vários jornais locais, participou de maneira efetiva da expansão e consolidação da imprensa ourinhense, e durante muitos anos manteve na Rádio Clube de Ourinhos a Crônica da Cidade. Atuou e influenciou na vida política e cultural. Era apaixonado por Ourinhos e pela história e sempre defendeu a necessidade de valorizar e preservar a memória. Escreveu livros, fez poesia e deixou um riquíssimo acervo de crônicas e artigos sobre o cotidiano da cidade e todos os fatos que marcaram a vida e o desenvolvimento de Ourinhos nas últimas décadas.

 

O legado do professor Norival Vieira da Silva

Com o coração entristecido participei na manhã da segunda-feira, 1º de junho, do Adeus ao querido amigo e professor Norival Vieira da Silva. Ao lado de outros colegas de imprensa, como meus estimados Aurélio Alonso e João Paulo Rodrigues, ex-alunos, como a prefeita Belkis, o vice-prefeito Gilberto, colegas, companheiros de jornada e muitos admiradores e parceiros de vida do professor Norival fomos abraçar as filhas Silvana, terapeuta ocupacional, Maria Olídia (Marô), médica pediatra, o genro Olívio Guther Gregório (médico ginecologista) e seus três netos Rafael, 32 anos, médico cardiologista, Gustavo, 29 anos, engenheiro mecânico e Matheus, 27 anos, que também se forma em medicina este ano, três jovens maravilhosos que preencheram de alegria e orgulho o coração do eterno mestre, aos quais professor Norival devotou certamente, ao longo da vida, um amor incondicional e absoluto.

Ao som do Hino de Ourinhos que tanto gostava, ouvimos com os olhos marejados de lágrimas a comovente declaração de amor do jovem professor Eric, seu ex-aluno sobre a imortalidade de um professor. Sim, porque ele sobrevive através dos conhecimentos que transmitiu aos seus alunos, gerações e gerações de ourinhenses que enquanto viverem acalentarão boas lembranças do querido professor. Na noite anterior, Emery Farah igualmente fez todos chorar, falando em nome de uma comunidade que está de luto.

Norival partiu aos 92 anos, caminhando para uma vida centenária, deixando para todos nós uma riqueza incomensurável que foram os conhecimentos, a sabedoria, os exemplos de educador, de um cidadão ilustre que, inclusive, numa noite memorável teve a honra de receber da Câmara Municipal a cidadania ourinhense.

Professor, jornalista, historiador, Norival militou em todas as áreas da comunidade ourinhense, inclusive na vida política. Participou de momentos importantes de nossa história e fez história em todos os sentidos.

Como definir em um pequeno artigo a estatura de um homem como Norival, como resumir em poucas palavras décadas de atividades na educação, como destacar fielmente uma trajetória de vida tão rica e tão intensa como foi a dele. Enquanto pode, manteve a jovialidade da alma e do alto de sua sabedoria falava aos mais jovens como se fosse um deles, isto porque seus ideais nunca envelheceram e a chama do amor que dedicava à educação sempre esteve acesa em seu coração. 

Não tive o privilégio de ter sido sua aluna no tão querido Horácio Soares, mas tive a felicidade de conviver com ele, quase que diariamente, na redação de um jornal por quase vinte anos, sim porque ele sempre se manteve ligado à imprensa, de uma forma ou de outra. Durante muitos anos como colaborador de jornais e um dos mais importantes cronistas de rádio que Ourinhos já teve, através dos microfones da Rádio Clube.

Se orgulhava de ser jornalista também e o foi cumprindo bem a função de historiador do cotidiano. Tinha o dom de transformar, através das palavras, fatos corriqueiros da vida da comunidade em verdadeiras poesias. Sabia, como poucos, falar dos fatos e acontecimentos mais relevantes e marcantes da vida ourinhense.

Suas mãos se ocuparam com o giz, a pena, a máquina de escrever e, recentemente, dedilhavam com ardor o teclado do computador.

Colecionei na redação do jornal dezenas e dezenas dos famosos disquetes, nos quais enviava seus artigos e, por vezes me ligava pedindo que os devolvesse e eles voltavam à redação com histórias e mais histórias. Muitas vezes ligava e perguntava: O que achou Rose? Só havia uma resposta a dar: excelente professor.

Quando, por força do ofício, ficava difícil escrever sobre um determinado assunto ou fato, ligava para ele, relatava e rapidamente, como um articulista – com mais liberdade – assinava o texto com seus sábios comentários que não caberia ao texto jornalístico.

E quantas e quantas tardes, sentava à minha frente, na redação, para aqueles deliciosos bate-papos. Conversávamos sobre tudo, mas, felizmente, soube em muitas e muitas ocasiões, ouvir com presteza. Aprendi muito com o professor Norival, encontrei respostas para diversas indagações e guardo desses momentos as mais doces lembranças. Muitas vezes compartilhávamos a mesma indignação e, por vezes, os mesmos ideais, daqueles que militam na imprensa e desejam contribuir para que o leitor além de bem informado tenha condições de refletir melhor, formar a sua opinião e, também indignar-se. Tenho plena convicção de que também fui sua aluna. 

Tive algumas oportunidades para homenageá-lo e o fiz, mas ele me superou em todas com uma crônica maravilhosa que me dedicou há 19 anos quando meu filho nasceu, que guardo como relíquia de um grande amigo que fiz na vida.

Em 2011, ao escrever o livro sobre os 40 anos da Fundação Educacional Miguel Mofarrej (FEMM), professor Norival foi um dos entrevistados. Me acolheu em sua casa com imenso carinho, abriu seu baú de recordações e o seu coração e contou a sua história. Norival participou ativamente da criação das Faculdades Integradas de Ourinhos (FIO), foi professor e diretor da instituição.

Quando se afastou das FIO, já aposentado do Horácio Soares, foi convidado a dar aulas na Faculdade de Direito do Norte Pioneiro de Jacarezinho, onde se aposentou como professor doutor catedrático. Também lecionou na FAFIJA e na FATEC.

E foi no longo depoimento que me concedeu para o livro que contou que um dia acalentou o sonho de ser diplomata, mas formado pela PUC São Paulo em Pedagogia e Filosofia, veio para Ourinhos e aqui ficou, lecionando História durante 60 anos. Depois de uma vida toda dedicada à Educação me disse ele, em tom emocionado, “estou feliz e realizado por ter ajudado tantos jovens a semear e realizar seus sonhos”. Palavras de um mestre que agora faz parte da constelação divina. 

E entre tantas lições que ele nos deixou, numa delas ainda precisamos melhorar a nota: aprender a cultivar a memória. 

Não se trata de viver do passado, como muitos pensam, mas de preservar as origens que nos trouxeram até o presente. Isto, se quisermos que, no futuro, nossos filhos tenham orgulho e valorizem o que construímos.

 

 

 

 

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