quinta, 13 de junho de 2024

Nosso querido amigo e grande sapateiro Ivo Robles Godoi nos deixou

Rose Pimentel Mader

Aquela porta na rua Benjamin Constant, 380, tão tradicional e familiar para nós, se fechou para os clientes e amigos, infelizmente, mas Ivo, há muitos anos, já havia entrado para sempre em nossos corações.

Só fiquei sabendo uma semana depois, assim como muitos outros ourinhenses que Ivo havia partido. Mas quem somos nós para questionar os desígnios de Deus. Como escreveu Fernando Pessoa, entre as certezas que temos na vida uma delas é a de que seremos interrompidos antes de terminar…

Na verdade, esse poema traduz nosso pensamento e sentimento quando morre um ente querido, de que muito ainda tinha a fazer, mas para Deus significa que a nossa missão terrena já se cumpriu. E é esse grande mistério da vida e da morte que nunca devemos esquecer. Não sabemos a hora da partida e, por certo o nosso querido Ivo, tão religioso, sabia disso. Sabia ele também daquela passagem bíblica, do homem muito rico que não tendo celeiros suficientes para acomodar toda a sua safra, se desesperou e apressou em providenciar a construção de muitos outros para guardar a sua produção e diante de tamanha preocupação um anjo lhe falou: não se preocupes homem, pois, ainda hoje, Deus vai chamá-lo para junto Dele.

E mesmo assim, continuamos nossos dias preocupados com uma infinidade de coisas tão pequenas e insignificantes e com tarefas e compromissos que assumimos, com o que temos ou precisamos ter e, muitas vezes, esquecemos de prestar atenção no dia, nas pessoas e nas pequenas coisas à nossa volta e a pressa acaba abreviando o nosso tempo e tira o melhor que temos da vida que é simplesmente viver, viver de forma serena, sem deixar que as grandes preocupações terrenas ocupem cem por cento da nossa mente e dos nossos pensamentos.

Pensando nisso e lembrando bem do semblante do Ivo, me vem uma constatação: ele inspirava a serenidade e a sabedoria que devemos ter da vida.

Não perdemos apenas um exímio sapateiro, mas principalmente um amigo de anos, décadas. Particularmente acho que perdi um admirador sincero que nos dedicava tanto carinho e atenção. Ivo me cobrava sempre que a Festa das Nações que idealizamos e durante oito anos foi realizada no Campus das FIO deveria voltar a acontecer. E como ele curtiu todas as edições. E que bom que ela existiu e deixou saudade…

Ivo, agora nós é que experimentamos a saudade, em toda a sua dimensão, de um homem bom que viveu para o trabalho, para a esposa e filhos, viveu com sabedoria e humildade e, por certo, cumpriu a sua missão.

Ivo, ourinhense de nascimento e de coração, morreu aos 68 anos, no último dia de outubro e foi sepultado no dia 1º de novembro, véspera de Finados. Deixou como herança uma bela família, a esposa Ana Lúcia Negrão Fernandes Robles, professora de Matemática há mais de 30 anos, 20 dos quais no Ensino Médio do Horácio Soares, com que viveu plenamente o matrimônio durante 33 anos e 10 meses, os filhos Jivago, de 23 anos, estudante de Geografia na UNESP e Dielise, de 28 anos, bióloga. Deixou também uma legião de amigos e admiradores.

O nobre ofício de sapateiro Ivo abraçou ainda menino, herança do pai Diego Robles Godoi, mais conhecido como Romão. E não foi o único da família do Seu Romão e da Dona Elisa. Seus dois irmãos, o Coca e Wilson também seguiram o mesmo caminho. A família se completava com o irmão Inézio (falecido) que foi protético e com as irmãs Iria e Ivani (falecida).

Ivo estudou na antiga escola Jorginho, tinha formação de técnico em Contabilidade, mas atuou como sapateiro durante 50 anos, ofício que amava e tinha grande orgulho.

Além de um excelente sapateiro tinha outras qualidades que vai deixar saudade, especialmente, entre os familiares e amigos, era brincalhão, um bom cozinheiro, corintiano roxo e um maravilhoso pai de família.

Católico praticante, há mais de 20 anos ia à missa todos os dias na Catedral e confessava todas as semanas, Ivo procurou viver plenamente os ensinamentos do Pai, cultivou a bondade e fez caridade. Colaborava com diversas entidades e ao longo do ano reservava uma parcela de seus ganhos para a compra de cestas básicas. Sempre estendeu a mão a quem bateu à sua porta.  

Preocupou-se em acumular alguns tesouros valiosos que o dinheiro não pode comprar como a humildade e a generosidade e construiu um belo exemplo de vida que certamente vai confortar e inspirar a esposa e os filhos a continuar a sua caminhada.

 

 

 

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