quinta, 23 de maio de 2024

Novas modalidades de golpes surgem para extorquir dinheiro de vítimas

A extorsão por meio de ‘nudes’ que tem como alvo principal homens casados, o “golpe do falso crush” já fez vítimas em Ourinhos e região

 

Alexandre Mansinho

 

Se por um lado a crise do novo coronavírus despertou em boa parte da população a vontade de ajudar o próximo e o até então um pouco adormecido espírito da fraternidade, por outro lado, entre aqueles que ganham a vida por meio de ilegalidades e “trambiques”, a pandemia foi um estímulo à criatividade: novas “arapucas” foram criadas com base nos recursos digitais e até golpes já antigos e conhecidos foram adaptados para o meio virtual – tudo isso com o único objetivo de aumentar ainda mais o número de vítimas.

As delegacias do Sudoeste Paulista e do Norte Pioneiro do Paraná têm registrado aumento no número de ocorrências – as estatísticas estaduais confirmam que a tendência é geral. Os números são muito assustadores: ocorrências registradas nas delegacias paulistas cresceram em torno de 250% e, nas unidades de polícia civil paranaenses, o aumento já ultrapassou os 30%.

Nos anos 90 houve uma onda do crime conhecido como “boa noite cinderela”: uma mulher bonita e atraente estava sozinha em um bar ou em uma balada; ela selecionava o homem ideal para ser a vítima, de preferência bem vestido, rico e casado. Ela “dá moral” para o homem e o atrai para um quarto de motel – nesse momento entra em ação um comparsa que afirma ser o marido da mulher e ameaça expor o caso se não receber dinheiro em troca – ou até a mulher dá um sonífero em uma bebida para a vítima e ela acorda tempos depois sem seus pertences de valor. O “golpe do falso crush” é muito parecido, mas conta com as redes sociais e os aplicativos de paquera.

 

Exemplo de perfil fake

 

Paulo (nome fictício) aceitou falar com o Jornal Negocião com a exigência de que seu nome fosse mantido em sigilo. Ele é empresário, casado e morador de uma cidade da região. Ele criou, no início do mês de abril, um perfil em um aplicativo de paquera – ele tinha o objetivo de ter relações casuais com mulheres.

Um dia ele recebeu um “match” de uma jovem que, no seu perfil, afirmava ter 19 anos. Paulo acabou fornecendo seu número de celular e diariamente manteve conversas com essa suposta “moça”. As conversas incluíam assuntos de cunho sexual e até troca de fotos.

Um dia ele recebeu uma ligação de um número do Rio Grande do Norte, de um indivíduo se identificando como delegado de polícia, dizendo que estava com a moça e o pai da moça na delegacia e que ele poderia ser indiciado por pedofilia, visto que a jovem com a qual se correspondia era menor de idade.

No entanto, o suposto “delegado” afirmou: “pelo preço certo podemos virar essa página”. Paulo ficou desesperado, mas teve a ideia de procurar uma autoridade policial que ligou para o tal “delegado”. A conversa foi muito diferente, quando o policial de verdade começou a fazer perguntas, a pessoa do outro lado desligou o telefone. Nas redes sociais os perfis foram apagados e nunca mais Paulo recebeu contatos da suposta jovem.

O “golpe do falso crush” funciona da seguinte forma – o criminoso monta perfis falsos, com fotos “roubadas” de perfis de pessoas reais, geralmente sem o consentimento delas. Esses perfis ficam disponíveis em aplicativos de paquera ou aplicativos de compartilhamento de fotos; quando a vítima entra em contato, o processo de “sedução” começa: depois de uma certa intimidade durante as conversas, começam os pedidos de dinheiro “para pagar conta de luz” ou “para comprar leite para o filho” – junto com isso vem o envolvimento afetivo, geralmente com trocas de fotos íntimas (nudes) e conversas de cunho romântico: “esses bandidos usam da ‘engenharia social’ para seduzir, envolver e aplicar os golpes em suas vítimas”, afirma o Prof. Carlos Eduardo Bertazzoli, especialista em segurança digital.

 

Carlos Eduardo Bertazzoli, especialista em segurança digital

 

“O criminoso acessa todos os perfis das redes sociais da vítima e passa a saber tudo sobre aquele que está sendo alvo do estelionato ou da extorsão: família, religião, trabalho e preferências; de posse desses dados, é só uma questão de tempo para que comece a extorsão ou as tentativas de estelionato (…) a recomendação é que as pessoas evitem exposição exagerada nas redes sociais”, completa o especialista.

No caso do Paulo, a extorsão só não ocorreu porque ele procurou as autoridades, no entanto, em alguns casos o bandido consegue alcançar seu intento e a vítima nem presta queixa – parte por medo, parte por vergonha.

Em Ourinhos – No dia 10 de setembro, foi registrado na CPJ – Central de Polícia Judiciária, um caso de ameaça por um aposentado de 58 anos, que, segundo o homem, após trocar fotos íntimas suas com uma jovem que dizia ter 28 anos e ser moradora do Rio Grande do Sul, estava sendo ameaçado por uma pessoa desconhecida.

Segundo o boletim de ocorrência, a vítima confirmou que enviou fotos de seu corpo para a moça e recebeu fotos da mesma, porém um suposto “tio” passou a ligar dizendo que a “moça” tinha apenas 15 anos, e pediu a quantia de R$ 1.500,00 para não levar o caso à polícia, sob a ameaça de que algo aconteceria com sua vida de não enviasse o dinheiro.

O aposentado não enviou a quantia, mas registrou a ocorrência, informando o número de telefone do golpista e o caso passou a ser investigado pela polícia.

 

O que diz a Polícia – Segundo o delegado da Polícia Civil de Ourinhos/SP, Dr. Pedro Telles, as vítimas devem vencer a vergonha e registrar a ocorrência: “da nossa parte sempre será respeitado o sigilo das informações prestadas pela vítima (…) só com base em dados é que podemos fazer as investigações”. Para escapar de situações que possam ser possíveis “armadilhas”, o delegado diz: “quando o caso é ofertas muito vantajosas, por exemplo, como o golpe do falso veículo, devemos sempre desconfiar de promessas exageradas, preços muito baixos ou informações incompletas (…) são os antigos conselhos das nossas avós que ainda não perderam o valor”, conclui.

 

Delegado da Polícia Civil de Ourinhos Dr. Pedro Telles

 

Opiniões de populares – O Negocião foi às ruas para saber qual é a opinião dos ourinhenses sobre o caso dos golpes dados por meio eletrônico. Maiara Vitória Pedroso afirma que não tem muito contato com internet: “eu me protejo não tendo perfis em aplicativos e redes sociais, sempre quando acabo tendo contato com alguma informação ou oferta, ignoro”.

 

Maiara Vitória Pedroso conta que não tem muito contato com internet

 

Ângela de Oliveira Silva diz que, caso seja abordada em porta de banco ou receba alguma proposta de desconhecidos, tende a chamar as autoridades: “não dou ouvidos a propostas, sei que ninguém dá nada pra ninguém”.

 

Ângela de Oliveira Silva afirma que diante de alguma proposta chama a polícia

 

Já Aparecido Mateus de Souza revela que foi abordado em um banco certa vez, mas não ficou dando atenção ao estranho: “eu saí daquela agência e fui embora”, completa.

 

Aparecido Mateus de Souza conta que já foi abordado em um banco

 

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