sábado, 20 de abril de 2024

O papel das comunidades terapêuticas no combate ao vício das drogas

Sem apoio do SUS ou sem condições de manter um tratamento ambulatorial, pessoas com vício em drogas e suas famílias recorrem a comunidades que oferecem acolhimento no modelo “porta aberta”.

 

 

 

Alexandre Mansinho

 

 

O Sistema Único de Saúde – SUS, tem por princípios tratar as pessoas que sofrem por abuso de substâncias, popularmente chamadas de viciadas, de forma ambulatorial – distante das internações em hospitais de saúde mental como era comum até poucas décadas. Os Centros de Atenção Psicossociais – CAPS, oferecem atividades lúdicas e atendimento multiprofissional para pessoas que desenvolvem vício em álcool e drogas. No entanto, há quem considere esse atendimento ineficaz, ou até que considere as comunidades terapêuticas uma alternativa mais efetiva para o tratamento da pessoa com vício.

É o caso da Comunidade Comsagra que funciona em Salto Grande, no bairro conhecido como Vila dos Pescadores, fundada no final dos anos 90, por Valmir Henrique Ferrarezi. A entidade tem por finalidade resgatar as pessoas vítimas do uso de drogas e álcool, dentro de um regime de internato, buscando desenvolver e despertar valores básicos da vida que ficaram adormecidos durante o tempo que viveram no caminho dos vícios.

 

 

Atualmente ela é coordenada por Maria Paula Vieira Ferrarezi e Samuel Ferrarezi. “Valmir era meu marido, ele também lutava contra o vício e essa comunidade é a concretização de um sonho dele: poder ajudar as outras pessoas que passaram pelo que ele passou (…) Samuel é meu filho, é praticamente criado aqui”, afirma.

Apesar de todo o empenho na luta para recuperar pessoas dependentes de substâncias químicas, principalmente as menos favorecidas, a instituição foi alvo de reclamações por parte de alguns vizinhos que afirmam não se sentirem seguros com o funcionamento da comunidade terapêutica e questionam a segurança e até os aspectos estruturais da instituição.

“Nós estamos cumprindo todas as exigências da lei: Vigilância Sanitária, laudo do Corpo de Bombeiros e até o certificado de dedetização”, afirma a coordenada Maria Paula.

Sob a condição de proteção da identidade, cinco moradores da Vila afirmaram ter críticas à forma que é feita a acolhida dos adictos: “ali o portão fica aberto o dia todo, não há monitores, são eles mesmos (os internos) que se organizam”, afirmou um morador.

Outro disse: “os internos usam drogas lá dentro, não há controle, fico com medo dos meus filhos encontrarem com eles andando pelas estradas aqui da Vila e acabarem sofrendo alguma coisa”.

Houve outro membro da comunidade da Vila dos pescadores que afirmou ter havido um episódio de assédio sexual de um interno da Comsagra contra uma mulher de uma chácara vizinha: “O homem mostrou suas genitálias para uma mulher, chamamos até a polícia”, completa. Por fim, houve uma pessoa que denunciou haver, dentro de comunidade, pessoas foragidas da Justiça.

O Jornal Negocião ouviu ainda outros moradores da Vila dos Pescadores que afirmaram ter uma convivência pacífica com a Comsagra.

 

Sobre as polêmicas – Samuel Ferrarezi, terapeuta responsável pela gestão da Comsagra, se manifestou sobre as críticas feitas por alguns moradores da Vila: “o trabalho aqui é transparente e nós vivemos em paz com todos os moradores (…) o portão fica aberto durante o dia porque nós vendemos verduras que são plantadas aqui e, principalmente, nenhum dos acolhidos fica aqui obrigado, no momento que qualquer um deles quiser, pode sair (…) nós temos apoio da Prefeitura, temos fiscalização da Vigilância Sanitária, temos visitas semanais de um médico e das autoridades de saúde do município, estamos totalmente dentro das normas”.

Sobre o caso do assédio e das pessoas com pendências com a Justiça, Samuel responde: “temos a comunidade aqui há mais de 20 anos, o caso do acolhido que se expôs para uma mulher é um caso isolado, ele não é violento, a Polícia Militar veio aqui, explicamos a situação (…) ele tem acompanhamento médico e nunca mais cometeu nenhum ato parecido”. “Temos pessoas aqui que estão sendo acompanhados pela Justiça sim, eles vão mensalmente ao Fórum para cumprir as exigências (…) essas medidas são relacionadas a ilícitos que eles cometeram antes de vir para a Comsagra (…) não temos pessoas em conflito com a lei aqui”, completa.

 

Parceiros – O Jornal Negocião entrou em contato com o prefeito municipal, Mário Luciano Rosa, que afirmou que o governo municipal apoia a Comunidade “dentro dos limites da lei”: “temos muito o que fazer no que diz respeito ao serviço social e aos serviços de saúde, mas, naquilo que a lei nos permite, nós ajudamos a Comsagra”.

 

 

A comunidade conta com a visita semanal de um médico e com o apoio de uma enfermeira para o controle das receitas médicas e das medicações individualizadas. “Temos aqui uma pasta para cada um dos internos, os remédios são separados pela enfermeira e são dados nos horários prescritos”, afirma Samuel.

Na comunidade há ainda encontros dos Narcóticos Anônimos, além da visita de uma pastora e do padre da paróquia de Salto Grande. A pastora Francisca Elisa da Conceição Souza, missionária da Igreja Prudência Vida em Cristo é a responsável pelos cultos: “sempre fui muito bem tratada na Comunidade, mesmo sendo um lugar só com homens, nunca fui desrespeitada (…) essas pessoas precisam de acolhimento”, afirma a religiosa.

 

NARCÓTICOS ANÔNIMOS: O grupo realiza um trabalho de cooperação com a Comunidade Comsagra. Mensalmente, o ‘NA’ leva a mensagem de recuperação das drogas (inclusive o álcool) para os residentes desta comunidade. A mensagem é que qualquer adicto pode parar de usar drogas e encontrar uma nova maneira de viver.

EM OURINHOS – O município tem um grupo que funciona regularmente. Maiores informações podem ser obtidas pela linha de ajuda 132. NA utiliza os 12 Passos de AA (com autorização dessa irmandade) porém com alguns ajustes para focar na doença da adicção”.

NA – Grupo Bom Viver – Rua Dom José Marcelo,741. Vila Perino. Reuniões: 5ªs feiras às 20h; sábado às 19h.

 

 

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